4.5.26

"O Caso dos Irmãos Naves" – Luiz Sérgio Person (Brasil, 1967)

Sinopse:
Na ditadura Vargas, dois irmãos mineiros - Joaquim Naves Rosa (Raul Cortez) e Sebastião José Naves (Juca de Oliveira) - são julgados, severamente torturados e condenados por um crime que não cometeram.
Comentário: Luiz Sérgio Person (1936 –1976) é um diretor de cinema e teatro, roteirista, produtor e ator brasileiro, que morreu prematuramente num acidente de carro. Sua obra possui diversas facetas, destacando-se a abordagem sociológica e a artística. Ele é pai da jornalista Marina Person. Na sua filmografia constam filmes como “Panca de Valente” (1968), “Cassy Jones, o Magnífico Sedutor” (1972) e o documentário “Vicente do Rego Monteiro” (1974). Assisti dele o bom “São Paulo, Sociedade Anônima” (1965). Desta vez vou conferir “O Caso dos Irmãos Naves” (1967).
Gabriel Bravo de Lima do Cineset nos conta que "Lançado em 1967, 'O Caso dos Irmãos Naves' traz a história de real de Joaquim Naves Rosa (Raul Cortez) e Sebastião José Naves (Juca de Oliveira), acusados de latrocínio, na cidade de Araguari, Minas Gerais. A vítima seria Benedito Pereira, primo dos irmãos, que sumiu na madrugada do dia 29 de novembro de 1937. Em dezembro do mesmo ano, o governo à época – o Estado Novo de Getúlio Vargas – determina a troca do delegado do civil de Araguari pelo militar, tenente da Força Pública Francisco Vieira dos Santos (Anselmo Duarte). É quando começa o martírio dos irmãos Naves, submetidos a meses de tortura para que confessem a autoria do crime.
A obra dirigida por Luís Sérgio Person baseia-se no livro escrito pelo advogado de defesa dos irmãos Naves, João Alamy Filho, interpretado por John Herbert. Durante o filme, alternamos entre as sessões de tortura sofrida pelos irmãos e os meandros judiciários de seu caso, a maior parte do tempo focando nas ações de Alamy para inocentá-los. Para ter êxito nessa estratégia, o filme se utiliza de uma montagem precisa de Glauco Mirko Laurelli.
A primeira menção a tortura sofrida pelos irmãos é construída de forma impactante, mas não apelativa. Não vemos o início da ação ou a preparação para a violência. O delegado militar interroga uma testemunha (a primeira do caso) que claramente foi obrigada a mudar sua versão para incriminar os Naves. Ele é induzido a desmentir uma história apresentada pela mãe dos irmãos. Subitamente, temos um corte para imagens da mulher em desespero. Depois, o delegado induz uma acusação a Joaquim Naves e somos apresentados ao homem sendo torturado. A mesma sequência ocorre para o outro irmão.
Essas primeiras cenas de violência são apresentadas sem som, em uma fotografia escura. Pode-se até demorar um pouco para entender a relação entre as imagens, se aquilo acontece naquele momento ou ainda acontecerá, ou se apenas passa na cabeça do homem interrogado, como um atestado de culpa por sucumbir à pressão da autoridade ali presente. De certa forma, as três coisas. Momentos antes do interrogatório, temos uma comemoração de ano novo. 'O Caso dos Irmãos Naves' nos indica que a partir dali a vida dos irmãos mudaria para sempre.
Algo a ser destacado dentro do filme é que os irmãos possuem pouquíssimas falas, e quase nenhuma interação entre si ou qualquer outro personagem além de seus algozes. O advogado de defesa e os desvios da Justiça brasileira à época (ainda bem atuais é bom frisar) ganham um enfoque para o desenvolvimento do enredo da obra, maior do que os próprios irmãos. Person coloca os protagonistas na mesma condição que a sociedade os relegaram, corpos à mercê de uma situação onde são peças centrais, mas não possuem nenhuma força, obrigados a sucumbir à violência.
A partir disso, a figura do delegado, em ótima atuação de Anselmo Duarte (diretor de 'O Pagador de Promessas', Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962) é de vital importância para o assombro do poder estatal perante aqueles homens humildes. A cada aparição do militar em cena sentimos a apreensão pelo futuro dos irmãos, e mais além, somos lembrados das inúmeras injustiças pelas quais este país foi construído".
O filme faz parte da lista dos “100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos” (2015), segundo a Abraccine.
O que disse a crítica 1: Gabriel Bravo de Lima do Cineset avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "O único ponto a lamentar na obra de Person é seu final apressado. Não que fosse necessário um arco melodramático para representar a superação das violências sofridas pelos Naves, seria até leviano, após o sofrimento dos mesmos. Mas como o filme foi feito anos depois dos fatos e com um conhecimento bem maior sobre a situação, o final denunciador ao qual 'O Caso dos Irmãos Naves' se propõe perde um pouco de força pelo pouco tempo que dura".
O que disse a crítica 2: Michel Gutwilen do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Não é à toa que que o terceiro ato dedica tanto tempo ao julgamento dos Naves no tribunal, com direito a grandes monólogos teatrais, trazendo a falsa sensação de vitória, apenas para, nos minutos finais, dar um contragolpe e revelar que tudo aquilo foi uma inutilidade diante das manipulações do Sistema, que deu seu jeito de prender novamente aqueles dois irmãos. Mais uma vez, Person faz um bom uso da 'objetividade' jornalística para retratar uma impotência do ser: é a narração objetiva que anuncia o destino dos irmãos e as diversas manchetes de jornais surgem em abundância para confirmá-las. Não há personagem falando ou encenação, apenas a voz onipresente, que representa o Sistema, condenando os Naves".
O que eu achei: Imagine a seguinte situação: estamos em 1937, dois irmãos são sócios de um primo no ramo de lavoura e comercialização de cereais na região de Araguari, Minas Gerais. O negócio envolvia a compra, a revenda e o transporte da colheita. Ocorre que o primo fez uma compra grande de arroz na baixa estação com a finalidade de revendê-la a um preço mais alto assim que o valor subisse. Como isso não aconteceu ele foi obrigado a revender por menos do que pagou, se endividou, pegou o dinheiro e sumiu no mundo. Preocupados com o desaparecimento do primo, os irmãos foram até a delegacia abrir um BO afim de investigarem o que houve. O resultado foi a condenação dos próprios irmãos Joaquim Naves Rosa e Sebastião José Naves pelo crime de latrocínio (roubo seguido de morte) contra Benedito Pereira Caetano, um caso famoso por representar um dos maiores erros da história da justiça brasileira. Luiz Sérgio Person, que havia cursado a faculdade de Direito quase até o final, se interessou por fazer a adaptação do livro escrito pelo advogado da dupla, João Alamy Filho. O livro descreve as torturas a que os irmãos foram submetidos para confessar o crime. Dentre elas estão os espancamentos severos e prolongados com palmatórias, chicotes e agressões diretas; a privação de alimentação e água, muitas vezes em celas insalubres e úmidas; a exposição e a humilhação como serem mantidos nus em celas de porão e submetidos a vexames públicos; a ingestão de substâncias tóxicas, como purgantes em excesso (óleo de rícino) e até mesmo urina ou fezes; além das torturas infringidas aos familiares como a prisão da mãe dos irmãos, Dona Ana Rosa Naves, que foi torturada na frente dos filhos para que eles confessassem. Relatos indicam que o tenente responsável pelo caso - Francisco Vieira dos Santos, também conhecido como Chico Vieira - chegou ao extremo de agredir e violentar sexualmente a mãe diante dos irmãos para quebrar sua resistência e assim obter um falso depoimento. Vale salientar que o desaparecimento de Benedito ocorreu em novembro de 1937, exatamente o mesmo mês em que Getúlio Vargas deu o golpe do Estado Novo, fechando o Congresso e concentrando poderes. Durante esse período, as forças policiais - como a liderada por Chico Vieira em Araguari - ganharam poderes quase ilimitados e o uso da tortura tornou-se um método comum para obter confissões rápidas, independentemente de provas físicas. O regime de Vargas enfraqueceu a independência do Judiciário. Com isso, embora eles tenham sido absolvidos duas vezes pelo Tribunal do Júri em Araguari, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais reformulou as decisões, condenando-os a 25 anos e 6 meses de prisão. O bom comportamento até levou a pena a ser reduzida para 16 anos e 6 meses, mas eles nunca foram inocentados. Em 1952, anos após os irmãos cumprirem parte da pena em liberdade condicional e um deles (Joaquim) já ter falecido, Benedito reapareceu vivo na fazenda de seu pai, provando que nenhum crime havia ocorrido. O caso é amplamente estudado no Direito brasileiro como um exemplo extremo de erro judiciário. Lançado em 1967, o filme é um soco no estômago. Person foi muito perspicaz ao se aproveitar de uma brecha temporal antes do endurecimento total da censura no Brasil, para lançar, em plena Ditadura Militar de 64, um longa que criticava o autoritarismo e a tortura de uma ditadura anterior, embora o filme fosse um comentário direto sobre as violações de direitos humanos que ocorriam em 1967. É filme pra ver e rever, especialmente antes das eleições deste ano, para que possamos refletir sobre os riscos que o enfraquecimento das instituições e das garantias individuais impõe aos cidadãos. Sabemos que práticas de tortura e abusos podem ressurgir em regimes autoritários. Será que, de fato, queremos a volta de tempos tão sombrios? Assista ao longa aproveitando para refletir antes de dar seu voto.