
Comentário: Ari Aster (1986) é um cineasta e roteirista norte-americano. Com origem judia, ele é filho de mãe poetisa e pai musicista. Assisti dele o ótimo “Hereditário” (2018), o bom “Beau Tem Medo” (2022) e o mediano "Midsommar - O Mal Não Espera a Noite" (2019). Desta vez vou conferir “Eddington” (2025).
Paulo Camargo do site Escotilha publicou: “Há algo de profundamente inquietante - e familiar - em ‘Eddington’, novo longa de Ari Aster. Ambientado no Novo México, durante o início da pandemia de 2020, o filme parece respirar o mesmo ar rarefeito de um país em decomposição moral. O deserto, aqui, é mais do que cenário: é metáfora para o vazio ideológico e afetivo que assola uma América intoxicada por medo, desinformação e solidão digital.
O protagonista, Joe Cross (Joaquin Phoenix), é o xerife de uma cidade perdida entre o passado mítico dos westerns e o colapso do presente. Candidato a prefeito, ele trava uma batalha pessoal contra Ted Garcia (Pedro Pascal), o atual ocupante do cargo - um duelo que ecoa velhas rivalidades e feridas familiares. Aster transforma essa disputa política em uma parábola sobre a falência da razão num tempo em que toda crença se contamina por teoria conspiratória.
Joe, asmático, se revolta contra a obrigatoriedade das máscaras. ‘Há algo errado em esconder o rosto’, parece dizer, sem perceber o quanto já vive mascarado por dentro. Sua mulher, Louise (Emma Stone), vive reclusa, pintando bonecas de olhar vazio - pequenas alegorias do isolamento e da infantilização coletiva. E a sogra, Dawn (Deirdre O’Connell), é uma espécie de profeta delirante, convencida de que o naufrágio do Titanic foi um atentado planejado e que o vírus é mais uma engrenagem desse complô cósmico.
Aster filma essas figuras com uma ironia gélida, sem jamais transformá-las em caricatura. O riso que provoca é nervoso, porque ‘Eddington’ fala de nós - de um tempo em que o desespero por sentido se converteu em doença. ‘Não há COVID em Eddington’, proclama o xerife, com uma fé ingênua e perigosa. Sua frase soa como o mantra de uma nação que prefere negar a realidade a encarar o abismo.
A pandemia, contudo, é apenas o sintoma. O verdadeiro vírus é outro: a infecção das mentes pelas redes sociais. Aster compõe um retrato febril de uma sociedade em transe, onde telas substituem o contato humano e cada cidadão transforma sua própria vida em um reality show grotesco. Os diálogos se atropelam, saturados de jargões - deep state, antifa, ‘predador sexual’ - num fluxo incessante de paranoia e ruído. Quando Joe e sua sogra discutem, parecem dois zumbis dopados pelo excesso de informação, incapazes de se ouvir.
Ari Aster constrói em ‘Eddington’ uma espécie de síntese e desvio de sua própria filmografia. Se em ‘Hereditário’ o horror nascia do trauma familiar e, em ‘Midsommar: O Mal Não Espera a Noite’, da euforia coletiva mascarada de ritual, aqui o cineasta desloca o mal para o campo social, expondo a histeria política e digital que contaminou o cotidiano. Já em ‘Beau Tem Medo’, Aster havia testado os limites do absurdo psicológico; em ‘Eddington’, ele amplia esse delírio para toda uma comunidade - uma América entorpecida pela solidão e pela crença de que tudo é conspiração. O que antes era íntimo e simbólico, torna-se agora epidêmico e grotescamente público. Com seu humor negro e mise-en-scène meticulosa, Aster reafirma seu lugar como o grande cronista do desconforto contemporâneo - um autor que filma o medo não como exceção, mas como linguagem de um tempo que perdeu a razão.
Como em ‘Beau Tem Medo’, o humor negro de Aster nasce do desespero. Mas se aquele filme mergulhava no inferno interior de um homem, ‘Eddington’ amplia o foco: é um retrato coral, uma terapia coletiva conduzida por um cineasta que, ao ridicularizar seus personagens, confessa partilhar de seus medos. Joaquin Phoenix, mais uma vez, encarna a falência do herói americano - um homem que quer proteger a cidade, mas não consegue proteger a si mesmo.
Aster nunca entrega respostas. Sua aposta é a ambiguidade. As fake news e as conspirações que movem a trama nunca se resolvem, e o espectador, ao tentar organizar o caos, descobre-se tão perdido quanto os personagens. Assistir a ‘Eddington’ é participar de uma experiência de contágio moral: a cada teoria absurda, uma ponta de dúvida nos contamina. (...)
No desfecho, a cidade arde em um delírio purificador. Não há redenção, apenas a consciência tardia de que todos, de algum modo, contribuímos para o incêndio. ‘Eddington’ é o retrato de um país à deriva, que substituiu a fé pela histeria e a empatia pela vaidade. Um faroeste de telas e espelhos, em que os cowboys não empunham revólveres, mas celulares”.
O que disse a crítica 1: Sérgio Alpendre da Folha SP avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: “’Eddington’ se sustenta minimamente enquanto constitui o clima que nos previne da frequente possibilidade de violência. Infelizmente, quando as coisas começam a acontecer, o filme começa a decair, chegando a parecer um mau panfleto em algumas cenas. Ari Aster, mais uma vez, não tem noção de como dar sequência à trama após a apresentação dos personagens e o estabelecimento da situação de tensão. E nos 15 minutos finais, vai ladeira abaixo”.
O que disse a crítica 2: Danilo Areosa do Cineset avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “Ao final da sessão de ‘Eddington’ no Teatro Debussy, em Cannes, aplausos e vaias ecoaram na mesma proporção. Isso ajuda a explicar os sentimentos mistos provocados pelo novo trabalho do diretor Ari Aster. Eu mesmo, que só gosto da sua estreia, ‘Hereditário’, saí da sessão com um elefante atrás da orelha, sem saber se gostei ou não, preferindo seguir o estilo Glória Pires de não querer opinar naquele momento. Depois de digerir melhor as emoções, posso dizer que ‘Eddington’ é um filme que instiga emoções díspares, daquelas que você ama ou odeia, meio que não existindo um meio-termo para isso. Pessoalmente, saí da sessão com um sentimento de ter me divertido (até mais do que esperava) com a proposta de sátira social, de traços de paranoia pura vendida pelo cineasta. (...) Mesmo irregular, é uma declaração divertida das ansiedades do cotidiano que vêm à tona de maneiras nada bonitas e que revelam a ferida de uma sociedade em decomposição. Ame ou odeie, ‘Eddington’ é uma marretada exagerada e perturbadora na essência da sua anarquia”.
O que eu achei: Da filmografia de Ari Aster, primeiro vi o ótimo terror “Hereditário” (2018), depois o bom drama psicológico “Beau Tem Medo” (2022) e, por fim, o mediano “Midsommar" (2019), um longa onde praticamente nada funciona bem e que termina com um final ineficaz. Não sei dizer se o faroeste “Eddington” (2025) é tão ruim ou pior que “Midsommar”, mas arrisco dizer que consegue ser pior. O filme até começa bem, nos apresentando os personagens que vivem no Novo México, nessa cidade chamada Eddington. É lá que o xerife Joe Cross (Joaquin Phoenix) - que faz campanha para ser prefeito - trava uma batalha pessoal contra o atual prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal), que ele acusa ter estuprado sua esposa Louise (Emma Stone) quando ela tinha 16 anos. O contexto dessa rivalidade é maio de 2020, auge da pandemia de covid, com Joe não querendo usar máscaras, defendendo sua liberdade de fazer o que quiser, enquanto Ted tenta preservar a cidade de uma contaminação coletiva. Em paralelo, jovens estudantes protestam nas ruas pelo assassinato de George Floyd; Louise e sua mãe ficam isoladas em casa consumindo fake news e seguindo um famoso guru que propaga teorias da conspiração e a cidade está finalizando a instalação de um datacenter que é alvo de investigações. Apesar das 2h25m de duração, é muito assunto para pouco aprofundamento. O ritmo frenético exige atenção redobrada para tentar montar esse grande quebra-cabeças que vai-se apresentando. O filme roda, roda, muita coisa acontece num clima crescente de paranoia, mas finaliza incoerente, cheio de pontas soltas, reforçando a fama de Ari Aster de ser um diretor que sabe como começar seus filmes, mas não sabe como terminar. Joachin Phoenix segura o filme nas costas, enquanto Pedro Pascal e a sempre ótima Emma Stone estão subaproveitados em papéis pequenos demais para seus talentos. O longa finaliza então como uma experiência confusa, num filme que explora seus temas óbvios de maneira superficial, enterrando sua única trama interessante sob múltiplas subtramas supérfluas. Terminei de ver com a sensação de que está mais que na hora de parar de perder meu tempo vendo filmes do Ari Aster.
Paulo Camargo do site Escotilha publicou: “Há algo de profundamente inquietante - e familiar - em ‘Eddington’, novo longa de Ari Aster. Ambientado no Novo México, durante o início da pandemia de 2020, o filme parece respirar o mesmo ar rarefeito de um país em decomposição moral. O deserto, aqui, é mais do que cenário: é metáfora para o vazio ideológico e afetivo que assola uma América intoxicada por medo, desinformação e solidão digital.
O protagonista, Joe Cross (Joaquin Phoenix), é o xerife de uma cidade perdida entre o passado mítico dos westerns e o colapso do presente. Candidato a prefeito, ele trava uma batalha pessoal contra Ted Garcia (Pedro Pascal), o atual ocupante do cargo - um duelo que ecoa velhas rivalidades e feridas familiares. Aster transforma essa disputa política em uma parábola sobre a falência da razão num tempo em que toda crença se contamina por teoria conspiratória.
Joe, asmático, se revolta contra a obrigatoriedade das máscaras. ‘Há algo errado em esconder o rosto’, parece dizer, sem perceber o quanto já vive mascarado por dentro. Sua mulher, Louise (Emma Stone), vive reclusa, pintando bonecas de olhar vazio - pequenas alegorias do isolamento e da infantilização coletiva. E a sogra, Dawn (Deirdre O’Connell), é uma espécie de profeta delirante, convencida de que o naufrágio do Titanic foi um atentado planejado e que o vírus é mais uma engrenagem desse complô cósmico.
Aster filma essas figuras com uma ironia gélida, sem jamais transformá-las em caricatura. O riso que provoca é nervoso, porque ‘Eddington’ fala de nós - de um tempo em que o desespero por sentido se converteu em doença. ‘Não há COVID em Eddington’, proclama o xerife, com uma fé ingênua e perigosa. Sua frase soa como o mantra de uma nação que prefere negar a realidade a encarar o abismo.
A pandemia, contudo, é apenas o sintoma. O verdadeiro vírus é outro: a infecção das mentes pelas redes sociais. Aster compõe um retrato febril de uma sociedade em transe, onde telas substituem o contato humano e cada cidadão transforma sua própria vida em um reality show grotesco. Os diálogos se atropelam, saturados de jargões - deep state, antifa, ‘predador sexual’ - num fluxo incessante de paranoia e ruído. Quando Joe e sua sogra discutem, parecem dois zumbis dopados pelo excesso de informação, incapazes de se ouvir.
Ari Aster constrói em ‘Eddington’ uma espécie de síntese e desvio de sua própria filmografia. Se em ‘Hereditário’ o horror nascia do trauma familiar e, em ‘Midsommar: O Mal Não Espera a Noite’, da euforia coletiva mascarada de ritual, aqui o cineasta desloca o mal para o campo social, expondo a histeria política e digital que contaminou o cotidiano. Já em ‘Beau Tem Medo’, Aster havia testado os limites do absurdo psicológico; em ‘Eddington’, ele amplia esse delírio para toda uma comunidade - uma América entorpecida pela solidão e pela crença de que tudo é conspiração. O que antes era íntimo e simbólico, torna-se agora epidêmico e grotescamente público. Com seu humor negro e mise-en-scène meticulosa, Aster reafirma seu lugar como o grande cronista do desconforto contemporâneo - um autor que filma o medo não como exceção, mas como linguagem de um tempo que perdeu a razão.
Como em ‘Beau Tem Medo’, o humor negro de Aster nasce do desespero. Mas se aquele filme mergulhava no inferno interior de um homem, ‘Eddington’ amplia o foco: é um retrato coral, uma terapia coletiva conduzida por um cineasta que, ao ridicularizar seus personagens, confessa partilhar de seus medos. Joaquin Phoenix, mais uma vez, encarna a falência do herói americano - um homem que quer proteger a cidade, mas não consegue proteger a si mesmo.
Aster nunca entrega respostas. Sua aposta é a ambiguidade. As fake news e as conspirações que movem a trama nunca se resolvem, e o espectador, ao tentar organizar o caos, descobre-se tão perdido quanto os personagens. Assistir a ‘Eddington’ é participar de uma experiência de contágio moral: a cada teoria absurda, uma ponta de dúvida nos contamina. (...)
No desfecho, a cidade arde em um delírio purificador. Não há redenção, apenas a consciência tardia de que todos, de algum modo, contribuímos para o incêndio. ‘Eddington’ é o retrato de um país à deriva, que substituiu a fé pela histeria e a empatia pela vaidade. Um faroeste de telas e espelhos, em que os cowboys não empunham revólveres, mas celulares”.
O que disse a crítica 1: Sérgio Alpendre da Folha SP avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: “’Eddington’ se sustenta minimamente enquanto constitui o clima que nos previne da frequente possibilidade de violência. Infelizmente, quando as coisas começam a acontecer, o filme começa a decair, chegando a parecer um mau panfleto em algumas cenas. Ari Aster, mais uma vez, não tem noção de como dar sequência à trama após a apresentação dos personagens e o estabelecimento da situação de tensão. E nos 15 minutos finais, vai ladeira abaixo”.
O que disse a crítica 2: Danilo Areosa do Cineset avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “Ao final da sessão de ‘Eddington’ no Teatro Debussy, em Cannes, aplausos e vaias ecoaram na mesma proporção. Isso ajuda a explicar os sentimentos mistos provocados pelo novo trabalho do diretor Ari Aster. Eu mesmo, que só gosto da sua estreia, ‘Hereditário’, saí da sessão com um elefante atrás da orelha, sem saber se gostei ou não, preferindo seguir o estilo Glória Pires de não querer opinar naquele momento. Depois de digerir melhor as emoções, posso dizer que ‘Eddington’ é um filme que instiga emoções díspares, daquelas que você ama ou odeia, meio que não existindo um meio-termo para isso. Pessoalmente, saí da sessão com um sentimento de ter me divertido (até mais do que esperava) com a proposta de sátira social, de traços de paranoia pura vendida pelo cineasta. (...) Mesmo irregular, é uma declaração divertida das ansiedades do cotidiano que vêm à tona de maneiras nada bonitas e que revelam a ferida de uma sociedade em decomposição. Ame ou odeie, ‘Eddington’ é uma marretada exagerada e perturbadora na essência da sua anarquia”.
O que eu achei: Da filmografia de Ari Aster, primeiro vi o ótimo terror “Hereditário” (2018), depois o bom drama psicológico “Beau Tem Medo” (2022) e, por fim, o mediano “Midsommar" (2019), um longa onde praticamente nada funciona bem e que termina com um final ineficaz. Não sei dizer se o faroeste “Eddington” (2025) é tão ruim ou pior que “Midsommar”, mas arrisco dizer que consegue ser pior. O filme até começa bem, nos apresentando os personagens que vivem no Novo México, nessa cidade chamada Eddington. É lá que o xerife Joe Cross (Joaquin Phoenix) - que faz campanha para ser prefeito - trava uma batalha pessoal contra o atual prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal), que ele acusa ter estuprado sua esposa Louise (Emma Stone) quando ela tinha 16 anos. O contexto dessa rivalidade é maio de 2020, auge da pandemia de covid, com Joe não querendo usar máscaras, defendendo sua liberdade de fazer o que quiser, enquanto Ted tenta preservar a cidade de uma contaminação coletiva. Em paralelo, jovens estudantes protestam nas ruas pelo assassinato de George Floyd; Louise e sua mãe ficam isoladas em casa consumindo fake news e seguindo um famoso guru que propaga teorias da conspiração e a cidade está finalizando a instalação de um datacenter que é alvo de investigações. Apesar das 2h25m de duração, é muito assunto para pouco aprofundamento. O ritmo frenético exige atenção redobrada para tentar montar esse grande quebra-cabeças que vai-se apresentando. O filme roda, roda, muita coisa acontece num clima crescente de paranoia, mas finaliza incoerente, cheio de pontas soltas, reforçando a fama de Ari Aster de ser um diretor que sabe como começar seus filmes, mas não sabe como terminar. Joachin Phoenix segura o filme nas costas, enquanto Pedro Pascal e a sempre ótima Emma Stone estão subaproveitados em papéis pequenos demais para seus talentos. O longa finaliza então como uma experiência confusa, num filme que explora seus temas óbvios de maneira superficial, enterrando sua única trama interessante sob múltiplas subtramas supérfluas. Terminei de ver com a sensação de que está mais que na hora de parar de perder meu tempo vendo filmes do Ari Aster.