1.5.26

“Alma do Deserto” - Mónica Taboada Tapia (Colômbia/Brasil, 2024)

Sinopse:
Georgina Epiayú é uma mulher trans da etnia Wayúu que luta para obter o direito básico de ter sua identidade reconhecida. Após perder seus documentos em um incêndio criminoso provocado pelos próprios vizinhos que não aceitavam sua presença, Georgina embarca em uma jornada para recuperá-los e poder exercer direitos civis fundamentais, como o direito ao voto.
Comentário: Mónica Taboada Tapia (ano de nascimento desconhecido) é uma cineasta colombiana formada em Antropologia e Cinema & TV. Dirigiu os curtas-metragens “Fidel” (2012), “Two-Spirit” (2021) e “Red Flag” (2023), premiados em festivais como IDFA e Outfest. Produziu o curta “Causas Elevadas” (2021) e foi showrunner da série “The Pleasure of Escaping the World” (2021). Fundadora da Guerrero Films, está trabalhando em “The Cedar”, “From the Hood” e “Queen of the People”.
O site Revista de Cinema publicou: “Com muita sensibilidade, o documentário mergulha na jornada de Georgina, uma mulher trans da etnia Wayúu, que luta para ter sua identidade de gênero reconhecida e respeitada, em uma sociedade marcada pela opressão, invisibilidade e discriminação. (...)
A obra foi exibida na Giornate Degli Autori (Venice Days), uma das mostras competitivas do 81º Festival de Veneza, em 2024, e saiu como vencedora do prêmio Queer Lion. O longa também ganhou, em dezembro de 2024, dois importantes prêmios no 45º Festival de Havana: o Prêmio Especial do Júri da Competição de Documentários e o Prêmio Arrecife, que é dado ao melhor filme com temática Queer.
O filme traz uma investigação profunda sobre as complexas intersecções entre identidade, etnia e os desafios de existir em uma cultura que frequentemente marginaliza pessoas trans, especialmente as pertencentes a comunidades indígenas.
Com um olhar atento e humano, a diretora Mónica Taboada-Tapia oferece um retrato intimista de Georgina, uma mulher trans que enfrenta os desafios de sua cultura indígena Wayúu e a luta pelos direitos humanos em um contexto de pobreza e violência nas vastas e isoladas terras da região de La Guajira, no norte da Colômbia.
O filme acompanha sua trajetória, desde o enfrentamento da discriminação dentro da sua própria comunidade até a luta pelo reconhecimento legal de sua identidade e o direito ao voto nas eleições colombianas.
O documentário traz à tona questões universais e urgentes, como o direito ao reconhecimento, o acesso à saúde e à educação e, principalmente, a luta por ser quem se é, sem ter medo disso.
Ao olhar para a realidade de Georgina, ‘Alma do Deserto’ também expõe a transfobia que permeia as estruturas de poder, ressaltando a necessidade e importância de se respeitar as identidades de gênero”.
O que disse a crítica 1: Vinicius Costa do Coletivo Crítico avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: “Taboada-Tapia é certeira na construção desta aura na personagem, fazendo grandes planos que destacam sua solidão e seu martírio sob o sol escaldante em longas caminhadas da aldeia até a cidade. Mas, quando se trata da motivação para tais sentimentos, ‘Alma do Deserto’ não consegue trazer intensidade para a narrativa, ou, pelo menos, demora-se a fazê-lo. Essas informações estão dispersas no meio do filme, o que acaba o tornando confuso. Sabemos que Georgina trava uma luta solitária, mas ainda não entendemos plenamente qual é. (...) ‘Alma do Deserto’ tem boas intenções e uma grande problemática a trabalhar, porém acabam se dissolvendo nesse engessamento e falta de clareza e profundidade”.
O que disse a crítica 2: Gabrielle Costa Dias do Geek Guia avaliou com 4 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “O início do filme pode parecer um tanto desorientador, com cenas caóticas e diálogos que se sobrepõem, criando uma sensação de confusão proposital. No entanto, à medida que a narrativa se desenvolve, a história ganha clareza e profundidade, fluindo de maneira mais orgânica. Aos poucos, os conflitos e motivações da protagonista vão sendo revelados, mesmo que a estética visual simples e crua não ofereça muitos recursos para complementar a narrativa. Essa simplicidade técnica, porém, acaba reforçando a autenticidade e a urgência da história, mostrando que, às vezes, menos pode ser mais”.
O que eu achei: Em “Alma do Deserto” (2024), Mónica Taboada Tapia propõe um documentário sensível sobre identidade, pertencimento e reconhecimento. Acompanhamos Georgina Epiayú, uma mulher trans da etnia Wayúu, que reside em uma casa isolada na região desértica de La Guajira, no norte da Colômbia. Ela tenta há anos obter documentos oficiais que validem quem ela é - um direito básico que, no contexto retratado, se torna um processo longo e complexo. O filme é, sem dúvida, bem-intencionado. Há um cuidado evidente na forma como a diretora se aproxima de sua personagem, respeitando seus silêncios, seus tempos e sua subjetividade. A abordagem é delicada, quase contemplativa, e busca mais a construção de uma atmosfera do que uma exposição direta dos fatos. No entanto, é justamente aí que o documentário perde força. Em termos de informações concretas sobre o processo de obtenção de documentos, que deveria ser o eixo central da narrativa, o filme falha. Em vez de aprofundar os aspectos burocráticos, legais e sociais dessa luta, a obra se dispersa em divagações que, embora poéticas, acabam esvaziando o impacto do tema. A sensação é de que falta direcionamento. O espectador acompanha fragmentos da vida de Georgina, mas sem uma progressão clara ou um desenvolvimento mais consistente do conflito principal. Isso dificulta o entendimento da dimensão real do problema, reduzindo a potência da história. “Alma do Deserto” tem méritos em sua sensibilidade e no respeito com que retrata sua protagonista, mas como documentário informativo deixa a desejar. Ao priorizar o tom contemplativo em detrimento da clareza narrativa, o filme se torna um registro bonito, porém fraco em conteúdo e pouco eficaz em transmitir a complexidade da luta que indígenas trans enfrentam ao longo da vida.