22.4.26

“Suçuarana” - Clarissa Campolina & Sérgio Borges (Brasil, 2024)

Sinopse:
Dora (Sinara Teles) atravessa uma paisagem devastada pela mineração em busca de uma terra perdida sonhada por ela e por sua mãe. Guiada por um misterioso cachorro, ela encontra refúgio em uma vila de trabalhadores de uma fábrica abandonada. Eles vivem em coletividade e lembram o lar que ela tanto procura.
Comentário: Clarissa Campolina (1979) e Sérgio Borges (1975) são dois cineastas brasileiros, fundadores do coletivo audiovisual mineiro Teia, que surgiu no início dos anos 2000. “Suçuarana” (2024) é o primeiro filme que vejo deles.
O longa é livremente inspirado no livro publicado em 1903 “The Beast in the Jungle “ (A Fera na Selva), de Henry James.
Victor Kutz da Revista Cult publicou: “’Suçuarana’ é o nome que se dá no Brasil à onça parda, ou puma, um tipo de felino predador presente por toda a América, que mantém o hábito de caçar sozinho ao entardecer. No entanto, ‘Suçuarana’ é também o nome da história de Dora no longa-metragem de Clarissa Campolina e Sérgio Borges (...).
Na trama, acompanhamos o deslocamento de Dora, uma personagem que percorre veredas em busca da mítica Serra da Suçuarana, local em que sua mãe teria morado tempos atrás. Desenraizada, ela recusa papéis impostos e conta com a ajuda e a gentileza de estranhos para sobreviver em uma paisagem marcada pela devastação da mineração.
Em entrevista à Cult, Campolina diz acreditar na capacidade dessa estrutura narrativa de exercitar a alteridade em tempos em que ‘o mundo anda tão rápido, mas somos colocados sempre no mesmo lugar’. Em ‘Suçuarana’, o desejo de mudança é correspondido por um deslocamento geográfico no qual Dora ‘encontra a possibilidade de sair de um lugar que já não é mais físico’, reflete. Já Borges lembra que a ideia de deslocamento estava presente desde o início do projeto, como uma forma de ‘utopia do movimento’ perseguida pelo filme, ao que Campolina completa: ‘se perdermos essa utopia, creio que será difícil viver’”.
O filme é dividido em duas partes. Na primeira, ‘as pessoas se acotovelam para sobreviver’, descreve a diretora, ‘mas ainda há gestos que, no fundo, anunciam que uma outra vida é possível’. Isso prepara para a segunda parte, quando Dora finalmente encontra uma comunidade. A essa divisão narrativa, soma-se também uma divisão estética: a primeira parte do filme é gravada utilizando tecnologias de vídeo digital; a segunda é gravada inteiramente em película, o que, segundo Borges, corresponde ao desejo de incorporar ao filme elementos do realismo fantástico, tanto na trama como na textura da imagem, o que implicou em desafios técnicos para a filmagem: ‘no primeiro momento em que Clarissa propôs a ideia de filmar em 16mm, fiquei um pouco receoso, pois torna o projeto mais caro e reduz a quantidade de takes para cada cena. Tínhamos que fazer tudo quase que ‘em um tiro único’, o que exige mais concentração. Acho que isso aumenta a chance da magia do cinema acontecer’.
Campolina conta ainda que a direção do filme, assinada em conjunto, partiu de um questionamento perene ao chamado ‘cinema de autor’, sistema já problematizado por cineastas como Jean Luc-Godard e Chris Marker, que, na França dos anos 1960, passaram a produzir filmes assinados por coletivos de autores, como o Groupe Dziga Vertov e o collectif SLON – ISKRA, respectivamente. Essa perspectiva parte da percepção de que o cinema é fruto de proposições, vontades e interlocuções que não podem surgir individualmente.
A vontade de propor experimentações formais e estéticas, no entanto, produziu, para Campolina e Borges, a necessidade de buscar financiamento para o filme, que contou com o apoio da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual. A diretora reafirma a necessidade de políticas públicas para o setor que apoiem a produção de obras variadas e lembra que ‘desde o primeiro governo Lula isso foi sendo estabelecido. Depois tivemos um retrocesso enorme com os governos de Temer e Bolsonaro. Após termos ganhado o edital, nós ficamos três ou quatro anos com o dinheiro retido para fazer o filme. Não conseguimos produzir diante dessa insegurança tão grande que foi imposta ao cinema, e principalmente ao cinema experimental, no qual acreditamos. Existe uma diferença entre um cinema feito para ganhar dinheiro e outro feito como uma pesquisa de linguagem. Acho que todos devem existir’”.
“Suçuarana” foi premiado no Festival de Brasília de 2024 em cinco categorias: Melhor Atriz para Sinara Telles, Melhor Ator Coadjuvante para Carlos Francisco, Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som e Melhor Montagem.
O que disse a crítica 1: Raissa Ferreira do site Filmes & Filmes avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: “O olhar de Dora guia o longa, tornando suas observações de tudo que a cerca uma sequência de cenas que valorizam o instante. As gentilezas humanas encontradas são lembretes de uma sociedade perdida, mas reconstruída nas margens pelas atitudes que se somam. São esses fatores, tanto de afeto quanto de humanidade, que mais interessam a Campolina e Borges, construindo imagens que traduzem tanto uma realidade mais crua, quanto ideais fantásticos de uma jornada existencial”.
O que disse a crítica 2: Francisco Carbone do site Cenas de Cinema avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Porque caminham em paralelo com muitas ausências de um afeto que nem se imaginava precisar, cada um dos personagens de ‘Suçuarana’ experimenta uma versão própria da solitude, e de como a adaptação a essa chave varia entre cada ser. Isso não impede a montagem de Luiz Pretti de criar ritmo intenso a essas passagens sem medo de encarar esses fantasmas, de um futuro desconectado a outros seres, de uma ausência de expectativa na colocação social de cada um. Não soam distantes seus temas, e a maneira cada vez mais esgotada com que assistimos cada personagem acaba unindo-os ainda mais, rumo ao desconhecido sentimento de não pertencer a lugar nenhum”.
O que eu achei: Inspirado no livro “The Beast in the Jungle” (A Fera na Selva, 1903), de Henry James, o longa conta a história de Dora (Sinara Teles) uma pobre trabalhadora que sai vagando pela estrada em busca do ‘Vale de Suçuarana’, um local mítico e possivelmente imaginário, cujo nome aparece no verso de uma fotografia de sua mãe. Gravado nas imediações de Belo Horizonte e de Ouro Preto, em Minas Gerais, nessas andanças ela percorre paisagens devastadas pela mineração, chegando a uma vila de trabalhadores de uma fábrica abandonada onde encontra refúgio. O filme tem dois momentos: o primeiro deles, que retrata Dora inquieta pela vontade de sair em busca desse lugar, é filmado com equipamento digital, enquanto o segundo, mais contemplativo, é capturado em película 16 mm. O filme – cujo foco é mais a travessia do que a chegada - resulta num retrato melancólico do Brasil, de pessoas que caminham em busca do inatingível. Atenção à presença do ator mineiro Carlos Francisco no papel de Ernesto. Sua presença carismática – já observada anteriormente em “Marte Um” – fez toda diferença no clima de aconchego buscado pela protagonista. Um filme calmo, caracterizado pela simplicidade e pela contenção, tanto na narrativa quanto na estética, evitando exageros dramáticos, reviravoltas ou clímax. Boa pedida.