12.4.26

"Filhos" - Gustav Möller (Dinamarca/Suécia/França, 2024)

Sinopse:
Eva Hansen (Sidse Babett Knudsen) é uma guarda prisional com altos ideais, mas sua vida vira de cabeça para baixo quando o assassino de seu filho (Sebastian Bull Sarning) chega à prisão onde trabalha. Ela pede secretamente para ser transferida para a ala dele, a mais brutal e perigosa.
Comentário: Gustav Möller (1988) é um cineasta sueco. Ele estudou na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca onde desenvolveu o curta "In Darkness" (2015). Seu primeiro longa-metragem, "Culpa" (2018), estreou no Festival de Sundance, onde ganhou o Prêmio do Público. Em colaboração com o roteirista Oskar Söderlund, cocriou a série "Coração Sombrio" (2022). Assisti dele o ótimo "Culpa" (2018). Desta vez vou conferir "Filhos" (2024).
Peter Debruge da Variety nos conta que "Os cinéfilos podem reconhecer o nome Gustav Möller, pois seu primeiro longa-metragem, 'Culpa' (2018), foi exibido no Festival de Sundance e inspirou um remake em inglês estrelado por Jake Gyllenhaal. O filme se passa em uma das extremidades de uma linha de emergência, onde um policial sobrecarregado tenta resgatar uma pessoa em apuros cuja crise não é tão simples quanto parece. Um exemplo impressionante de criatividade dentro de limitações, 'Culpa' convida o público a criar um filme de ação em suas mentes, oferecendo-lhes pouco mais do que o rosto tenso de um único personagem para observar durante a maior parte da duração.
Com 'Filhos' (2024), Möller fez um filme mais convencional, mas ainda assim a maior parte da narrativa se desenrola fora das telas. Sua protagonista é uma agente penitenciária dinamarquesa chamada Eva Hansen (Sidse Babett Knudsen, estrela da série de TV 'Borgen'). Ela tem metade do tamanho da maioria dos presos homens de sua ala, mas obviamente sabe se defender, estufando os ombros e elevando a voz quando necessário, caso os homens se comportem mal.
Nas cenas iniciais do filme, antes do desenrolar da trama, Möller mostra Eva se esforçando ao máximo por seus protegidos - não para compensar o fato de ser mulher em uma prisão masculina, mas porque se importa. Ela demonstra um instinto quase maternal ao tentar educar e controlar a raiva dos detentos, o que faz sentido mais tarde, quando descobrimos que seu filho de 19 anos morreu atrás das grades. É o tipo de ironia que cria personagens memoráveis ​​no cinema: Eva sente que falhou na criação de Simon (cuja história pregressa fica totalmente a cargo da imaginação do público) e agora retribui a atenção que deveria ter lhe dado, na esperança de que isso possa salvar o filho de outra mãe.
Mas 'Filhos' não é uma história piedosa sobre uma guarda prisional inspiradora. Se Eva parece mais compassiva do que se poderia esperar de seu cargo, saiba que sua caridade tem limites. Logo nos primeiros minutos do filme, um novo grupo de detentos chega, e Eva se enrijece ao ver um rosto familiar entre eles: alto e coberto de tatuagens, com o olhar raivoso e vazio de alguém que desistiu do mundo antes mesmo de experimentá-lo, Mikkel Iversen (Sebastian Bull) é o homem que assassinou seu filho. A partir do momento em que Eva o reconhece, ela começa a se comportar de maneira diferente, e pelo resto do filme, nossa tarefa é adivinhar o que ela está pensando.
Eva dirige-se diretamente à sala do diretor para explicar este conflito de interesses imprevisto. Mas, em vez de se demitir, pede transferência para o Centro Zero, para onde Mikkel está sendo enviado por ter matado outro detento - a ala de alta segurança onde ficam os presos mais perigosos. Impressionado com a determinação da mulher, o comandante rigoroso do Centro Zero, Rami (Dar Salim), tenta prepará-la para o trabalho entre os incorrigíveis. Ele quer proteger Eva, mesmo que ela talvez não seja quem precise de proteção ali.
A verdadeira questão - aquela que Möller quer que fique martelando em nossas cabeças - é se Eva busca vingança ou redenção para esse assassino recém-chegado. Há câmeras de segurança por toda a prisão, o que dificulta que ela tente algo muito ousado. Mas se ela quiser tornar a vida de Mikkel miserável, há muitas maneiras de fazer isso, desde cuspir em sua comida até negar-lhe o direito de usar o banheiro. E se ele reagir às suas provocações, Eva pode colocá-lo em confinamento solitário ou até mesmo cancelar suas visitas - o que ela tenta fazer depois de ver a mãe de Mikkel (Marina Bouras) em uma lista de visitantes futuros.
Embora o filme se chame 'Filhos', são essas duas mães que oferecem o paralelo mais rico, pois ambas vivenciaram o fracasso e a frustração de ver os filhos que criaram se desviarem do caminho certo - mas, é claro, Mikkel privou Eva da chance de confortar ou reformar o próprio filho. (...)
Filmado na extinta prisão de Vridsløselille, em Copenhague, o diretor de fotografia Jasper J. Spanning observa Eva e os prisioneiros como uma equipe de documentarista, acompanhando-os no trabalho e observando quando ninguém mais está por perto. Isso confere ao filme uma sensação de intimidade quase secreta dentro de um espaço estéril e opressivo".
O que disse a crítica 1: Marcio Sallem do site Cinema com Crítica avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "O elenco valoriza o trabalho de direção e mitiga o roteiro fraquíssimo (...). A história não redime Mikkel, nem o humaniza expressivamente, embora evidencie que até criminosos iguais a este têm direito a ser tratados com o mínimo de humanidade. Além da dupla central, Dar Salim está muito bem no papel do chefe de ala. É um ator iraquiano que me agradou quando tive a oportunidade de conhecê-lo em 'O Pacto', de Guy Ritchie, e que chama a atenção pela maneira com que exerce a sua liderança e, depois, com que demonstra lealdade a Eva. Uma lealdade que a protagonista não demonstra em relação a seus valores, em um drama prisional e revanchista eficaz, mas que mereceria um roteiro melhor, um roteiro que não deboche da nossa inteligência".
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Filhos' atinge sua melhor metáfora quando explora o título, ou seja, as relações maternas destes homens encarcerados. Por mais hediondos que tenham sido os seus passados, eles ainda serão os filhos de alguma mãe. O espelhamento entre Eva e Helle (Marina Bouras), mãe de Mikkel, proporciona um excelente embate humano, além de mais um motivo para o espectador temer pelo destino de todos os envolvidos. Como reagem as mães de filhos infratores? Sentem culpa? Defendem-no, ou esperam que sejam punidos? Com apenas duas mulheres em cena, o texto traz uma variedade impressionante de estados psíquicos a este respeito".
O que eu achei: Conheci o cinema do diretor sueco Gustav Möller em 2019 ao assistir o excelente filme “Culpa” (2018) que se passa inteiro dentro de uma delegacia de polícia. Nesse longa anterior, confinado à uma mesa de emergências, um policial, encarregado de receber ligações e transmitir às delegacias responsáveis, é surpreendido pela chamada de uma mulher desesperada, tentando comunicar o seu sequestro sem chamar a atenção do sequestrador. A estratégia usada pelo diretor na ocasião foi deixar a câmera aprisionada à delegacia com toda a ação ocorrendo na imaginação do espectador que vai acompanhando os telefonemas que o policial recebe. E mesmo assim tudo é muito emocionante e agitado, com direito a reviravoltas e tudo mais. Desta vez a proposta não é tão radical. “Filhos” (2024) tem uma pegada mais convencional, mas não menos interessante. Conta a história de Eva (Sidse Babett Knudsen), uma policial que trabalha dentro do sistema prisional. Seu filho, já falecido, também cometeu erros e foi preso, mas foi assassinado dentro da prisão por um outro detento. Com isso Eva tem um olhar de mãe para com aqueles rapazes. Ocorre que, um belo dia, chega a essa prisão um assassino chamado Mikkel Iversen (Sebastian Bull) que ela logo reconhece o nome: é o assassino de seu filho. Pretendendo vingança ela pede transferência para a ala de alta periculosidade onde ele será instalado. Daí pra frente o que vamos observar é esse embate entre o profissionalismo de Eva e o desejo de retaliação. Conforme o filme caminha o roteiro aproveita para explorar, com competência, as diversas camadas de sentimentos pelos quais Eva vai passar: de mãe amorosa para os presos a carrasca, especialmente com relação a esse monstro que a privou de ver seu filho, de conviver com ele e a quem ela poderia ajudar a ser uma pessoa melhor. Ao mesmo tempo, ela confessa ao padre o sentimento de culpa pelo alívio que sentiu quando ele foi preso, já que ela, na verdade, nunca deu conta dele. Ao mesmo tempo ela sente inveja da mãe de Mikkel que pode visitá-lo, mas essa mulher que deveria estar feliz também não dá conta desse filho que, ao que tudo indica, nunca será salvo. São diversas emoções conflitantes se passando no coração dessas mães. É, mais uma vez, Möller explorando os mínimos detalhes para criar uma obra opressiva, repleta de tensão atmosférica e psicológica, munido de poucos elementos, resultando numa reflexão ética sobre justiça, punição e o papel de uma mãe na cura de feridas profundas. Não supera “Culpa”, mas ainda assim, é um excelente filme que sabe explorar perfeitamente a dor e os dilemas morais. Excelente.