19.4.26

"Black Dog" – Guan Hu (China, 2024)

Sinopse:
Depois de dez anos na prisão, Lang (Eddie Peng) regressa à sua cidade natal no noroeste da China, agora quase abandonada, prestes a dar lugar a um complexo de fábricas. No esforço de limpar a cidade antes dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008, Lang apenas consegue encontrar trabalho na caça aos cães vadios. Um perigoso cão, com uma alta recompensa de captura, morde Lang. Os dois ficam isolados para evitar a propagação do vírus da raiva enquanto se desenvolve uma forte amizade entre eles.
Comentário: Guan Hu (1968) é um cineasta chinês. Filho de uma atriz de teatro e de um ator de cinema. Seu primeiro longa-metragem é “Tou Fa Luan Le” (Dirt, 1994), considerado um dos principais filmes da sexta geração do cinema chinês. Esta geração surgiu nos anos 90 e as suas obras são caracterizadas pela atenção à vida contemporânea e o foco nas comunidades marginalizadas numa China de profundas transformações econômicas e sociais. Os filmes seguintes de Hu são majoritariamente filmes comerciais sobre a história militar chinesa como “Mr. Six” (2015), “The Eight Hundred” (2020) e “The Sacrifice” (2020). “Black Dog” (2024) é o primeiro filme que vejo dele.
Cici Peng do Financial Times publicou: “Um ex-recluso estabelece uma relação com um cão agressivo no estranho e surreal noir ‘Black Dog’, muito elogiado em Cannes. Guan Hu não é um homem de muitas palavras. ‘Black Dog’, que realizou e venceu o prémio Un Certain Regard em Cannes este ano [2024], é igual. O centro emocional do filme manifesta-se nas interações silenciosas entre um homem e o seu cão e a força destruidora da paisagem do Deserto de Gobi, onde os caninos dominam. ‘O filme é construído a partir do silêncio’, diz Guan, ‘da possibilidade de um canal misterioso de comunicação não linguística entre humanos e cães’.
Entre as dunas ondulantes de areia de carvão, o tempo parece ter parado. Planos gerais capturam humanos e animais a se deslocarem pelo deserto, quais insetos. Deambulam sem rumo por uma cidade-fantasma que parece uma ruína de um outro tempo. Cães aparecem por todo lado, desde o topo das dunas às ruas vazias da cidade, às fissuras de edifícios abandonados. Ao colocar humanos e animais na mesma escala, ‘Black Dog’ examina a ‘animalidade dentro dos humanos’, diz Guan.
‘Desde o começo, decidimos seguir um princípio de ‘não interferência’, um modo observacional. Não queríamos interferir na vida como ela é. A nossa perspectiva é que o fado humano é pequeno e insignificante perante a imensidão da natureza e do Deserto de Gobi’.
Guan vem da ‘Sexta Geração’ de cineastas chineses, ao lado de Jia Zhang-Ke e Wang Xiaoshuai, favoritos dos festivais internacionais. Tendo surgido no início da década de 90, o grupo é caracterizado pelo seu estilo realista distinto e o seu foco nas pessoas nas margens da sociedade chinesa em rápida mutação.
Ao contrário dos seus contemporâneos, Guan é mais difícil de definir: antes de realizar este filme de autor, fez sobretudo cinema comercial que examinava a história militar da China com um tom mais patriótico, incluindo o bem-sucedido drama de guerra ‘The Eight Hundred’ (2020), o filme com maior receita de bilheteira no país nesse ano. Contudo, no início da sua carreira, fez mais filmes independentes, como o seu primeiro longa-metragem ‘Dirt’ (1994), sobre o mundo do rock em Pequim. ‘Agora, com ‘Black Dog’, espero voltar a ouvir o meu ‘eu interior’, voltar àquele espírito que definiu o início da minha carreira’, diz o realizador. ‘Portanto, este filme é muito íntimo nesse sentido’.
Ao crescer com uma mãe atriz de teatro e com um pai ator de cinema, Guan observava tudo; foi um filho dos estúdios de Pequim - ‘Tudo desde cinema de autor europeu aos sucessos nacionais… Sou particularmente influenciado por Stanley Kubrick e Alan Parker. São completamente originais e não pertencem a qualquer gênero’.
De forma semelhante, ‘Black Dog’ escapa à categorização fácil. Estruturado como um híbrido entre noir e western, o filme mostra o solitário e taciturno Lang (Eddie Peng) no seu regresso a casa para confrontar os fantasmas do seu passado. É 2008; Lang cumpriu pena por homicídio involuntário. Lang não é recebido com carinho – é procurado por ‘Butcher’ Hu (Hu Xiaoguang), cujo sobrinho morreu, e o seu pai vive no jardim zoológico degradado.
Em vez de enfrentar uma multidão armada segundo o clássico estilo noir, o inimigo de Lang é um vendedor de veneno de cobra; em vez de uma clássica femme fatale, a relação-chave de Lang é com um galgo [um cão com o corpo esguio, peito profundo e pernas longas, criados originalmente para caça e corridas] agressivo, Xiao Xin. ‘Queríamos escolher um cão estranho - um que não fosse fácil de domar’, diz Guan.
De igual modo, ao escolher Peng para o papel, ‘ele não parecia os personagens suaves e belos que tinha interpretado antes e, por isso, eu estava interessado em mostrar aquela dureza ‘lobal’ dentro dele. O personagem de Lang é sobretudo silencioso, o que é crucial. Quando saem da prisão, muitos ex-reclusos não gostam de falar – é como uma rejeição da sociedade a que regressam’.
No entanto, isto não é um filme sobre a amizade entre homem e cão: ‘Black Dog’ recusa-se a adular a domesticação do animal. ‘Quando Lang encontra o cão, não é um animal de estimação, é um personagem’, diz Guan. ‘Estas pessoas e estes cães estão na margem, solitários, desolados e incapazes de acompanhar a evolução dos tempos. E estas pessoas? Penso que os filmes têm a responsabilidade de se focar nelas’.
De forma a estabelecer a relação entre Peng e Xiao Xin, os dois passaram dois meses no set ensaiando cada cena. ‘Xiao Xin e Eddie eram inseparáveis, até dormiam juntos’, diz Guan. ‘Eventualmente, o Eddie adotou o Xin’.
O filme de Guan, filmado na cidade de Yumen, estrutura-se à volta de uma sensação de ausência – uma sinfonia ‘anti-urbana’, de certa forma. Planos são frequentemente enquadrados dentro de edifícios destruídos ou no exterior das jaulas vazias do jardim zoológico local, que, diz Guan, ‘encontramos assim, de fato. Muitos edifícios foram completamente abandonados. Estas cidades no Noroeste já foram muito prósperas, mas começaram a decair quando os seus recursos foram gastos. É possível ver estas instalações bem construídas como hospitais e restaurantes – mas não há pessoas no seu interior. Os edifícios contam uma história da sociedade chinesa contemporânea’.
A câmara passa frequentemente por um mural dedicado aos próximos Jogos Olímpicos, já a desvanecer-se. ‘Quis situar o filme em 2008 porque é um dos anos mais importantes para a China. É o ano do nosso maior orgulho, mas também do maior sofrimento. Há pessoas cujas vidas foram esquecidas que nunca veremos’.
Apesar do tema, o filme evita um realismo austero; o realizador opta, em vez disso, por aquilo que descreve como um ‘naturalismo surreal’. ‘Para fazer este filme, precisávamos de um sistema metafórico’, diz o realizador. ‘Debaixo desta história, tem de haver elementos de fantasia e transcendência’.
Tal como os cães, o filme é povoado por dezenas de cobras, um tigre no jardim zoológico e um lobo avistado no horizonte, o que ‘joga com o mútuo isolamento e alienação do mundo’.
Enquanto falamos, Liang Jing, a esposa de Guan e produtora, aparece na chamada: ‘Há sempre animais nos filmes de Guan Hu. Houve uma vaca, um peixe-balão e um cavalo. Cães são relativamente mais fáceis de dirigir’.
O realizador não tem dificuldades com a falta de controle quando filma animais? Guan encolhe os ombros. ‘Se não conseguimos o plano, continuamos tentando. O primeiro encontro entre Lang e Xiao Xin tinha de acontecer num plano-sequência. Filmamos este plano durante 20 dias. Ainda assim, foi uma rodagem particularmente prazerosa. Parecia que os deuses estavam nos ajudando. Houve até uma tempestade de areia que virou um carro. Mas continuamos a filmar’.
Apesar da fragilidade do homem e do cão ao longo do filme, é uma demonstração da habilidade de Guan que mesmo esta pequenez pode conter um poder imenso. No plano final, a câmara demora-se num close-up do rosto de Peng; a sua presença ‘é sobre esta duplicidade – tanto da sua insignificância no deserto’, diz Guan, ‘mas também sobre como ele é o nosso universo fílmico total’”.
O que disse a crítica 1: Phil Hoad do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Talvez, em um nível pessoal, o novo e irascível amigo de Lang represente algum traço selvagem interior que ele precisa reprimir, enquanto os cães soltos representam os despossuídos do avanço econômico da China. Este último aspecto é capturado em composições épicas e sombrias de cães percorrendo praças, e os habitantes desolados filmados in situ contra seu cenário decadente, evitando-se, em grande parte, closes até que sejam absolutamente necessários. Esse rigor se dissipa um pouco em uma trama sobre um circo itinerante, bem como em um romance especulativo, que soa um tanto como um filme independente básico. Mas a esplêndida desolação da visão da China torna os momentos reconfortantes do filme ainda mais vitais”.
O que disse a crítica 2: Matilde Garrido do site Fio Condutor avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Há filmes que não procuram deslumbrar pela grandiosidade, mas antes pela contenção obstinada. ‘Black Dog’ de Guan Hu, é um desses gestos raros: uma narrativa seca, quase brutal, na qual a redenção não se grita, antes se adivinha nos silêncios e nos gestos suspensos. Regressando a uma escala intimista, depois de incursões em épicos históricos, Hu descobre no deserto uma metáfora árida para uma China em mutação e, na ligação entre um homem e um cão, uma inesperada afirmação de humanidade. (...) ‘Black Dog’ é um filme de fronteiras - entre géneros, entre tempos, entre vidas esvaziadas - que se impõe não por excesso, mas por um rigor emocional raro no cinema contemporâneo”.
O que eu achei: "Black Dog" (2024) é um filme que poderia facilmente cair naquele clichê já esperado de ‘filmes de cachorro’, mas o longa se salva dessa cilada. Ambientado no Deserto de Gobi, noroeste da China, no ano de 2008, às vésperas das Olimpíadas de Pequim, ele mostra o país em transformação retratando uma cidade que está sendo demolida para dar lugar à instalação de um complexo de fábricas. Os moradores aos poucos estão abandonando o local, enquanto cachorros são deixados para trás e se juntam aos de rua formando uma matilha talvez maior que o atual número de habitantes. O filme começa com o personagem Lang (interpretado por Eddie Peng) regressando à essa cidade após passar 10 anos preso por homicídio culposo. Seu pai, alcoólatra, resolveu ir morar dentro do zoológico da cidade, igualmente abandonado, assumindo a tarefa de alimentar os animais encarcerados. No esforço de limpar a cidade antes dos Jogos Olímpicos começarem, Lang apenas consegue encontrar trabalho na caça aos cães vadios e será nessa empreitada que ele irá conhecer um cão preto com raiva, da raça galgo, com quem estabelecerá uma forte relação de amizade. A fotografia do deserto e da cidade em demolição é um verdadeiro deslumbre. Lembra Polaroides com seus tons pálidos azul-esverdeados. O responsável - Gao Weizhe – contou em entrevistas que para obter esse efeito ele usou lentes anamórficas Cooke 2x/i S35, todas de distância focal única. A beleza natural do local obviamente contribuiu muito, mas Weizhe declara ter feito a captura das imagens influenciado pela estética de fotógrafos americanos como Robert Adams e Stephen Shore, representantes da "Nova Topografia", que valoriza a sensação de calma e neutralidade, ao mesmo tempo em que esconde uma imensa energia sob a superfície. Outro elemento surpreendente no longa é a trilha sonora composta por músicas do Pink Floyd - isso mesmo, Pink Floyd num filme chinês. Quem é fã da banda vai se deliciar ao ouvir clássicos como "Hey You" além de uma versão instrumental de "Mother", ambas do álbum The Wall. Ao mesmo tempo grandioso e íntimo, o filme finaliza como uma história potente sobre reintegração, solidão e resiliência humana, enquanto faz uma crítica sociopolítica ousada e uma exploração íntima das lutas pessoais na China dos anos 2000. Excelente.