26.4.26

"A Única Saída" - Park Chan-wook (Coreia do Sul/França, 2025)

Sinopse:
 
Um homem de meia-idade chamado Man-Su (Lee Byung-hun) perde seu emprego depois de 25 anos no cargo. Man-Su era um funcionário premiado e exemplar, um veterano na indústria do papel e na companhia Solar Paper, vendida para uma empresa americana. Antes bem pago e vivendo a vida dos sonhos ao lado da esposa Mi-ri (Son Ye-jin), da filha Ri-one (So Yul Choi) e do enteado Si-one (Woo Seung Kim) numa luxuosa casa, agora Man-Su se vê envolvido numa busca feroz e desesperada por uma nova colocação.
Comentário: Park Chan-wook (1963) é um cineasta sul-coreano considerado um dos nomes mais importantes de cineastas sul-coreanos da sua geração. Assisti dele o ótimo "Três... Extremos" (2004) que era composto por três histórias de terror dirigidas por três diretores diferentes. Vi também o ótimo “Oldboy” (2003) e o mediano “Decisão de Partir” (2022).
Raquel Carneiro da Revista Veja publicou: "Man-Su (Lee Byung-hun) é um homem realizado que vive na casa dos sonhos com a mulher que ama, tem dois filhos adoráveis e dois cachorros brincalhões. Ele faz questão de dizer isso à família durante um churrasco no quintal, ao grelhar as enguias que ganhou da empresa de produção de papel onde trabalha há 25 anos. Mal sabe o coitado que o presente de grego é um prenúncio para tempos de escassez: pouco depois, Man-su é demitido com diversos colegas em um corte em massa, quando a companhia da Coreia do Sul é adquirida por uma multinacional americana. A nova administração está disposta a tudo para reduzir custos - e, para obter isso, vai substituir boa parte da mão de obra humana por aparatos movidos pela inteligência artificial.
Assim começa o calvário do protagonista de 'A Única Saída' (Eojjeolsuga Eobsda, Coreia do Sul, 2025), novo filme do diretor Park Chan-wook (...). Aos 62 anos, o cineasta que impactou o mundo com o aclamado drama de vingança 'Oldboy' (2003) volta a mirar um drama social que expõe o que há de pior nas pessoas - e faz isso com um impressionante controle narrativo, imagens soberbas e humor macabro.
Conforme o desemprego persiste, Man-su se desespera ao ver seu estilo de vida de classe média alta se esvair. Embora tenha a opção de se reinventar em outra atividade, ele só enxerga a única saída do título do filme: agora Man-su está disposto a eliminar, literalmente, os concorrentes com quem disputa os pouquíssimos cargos disponíveis em outras empresas que fazem parte do obsoleto setor de papel.
Baseado no livro 'O Corte', do autor americano Donald Westlake, publicado em 1997 e ambientado na Coreia do Sul, o filme traduz um mal-estar subjacente à vida social do país asiático, apesar da pujança de seu capitalismo: o desalento que atinge certa parcela da população com formação de alto nível, condenada ao desemprego ou a ocupações menores em razão da concorrência pelas boas vagas".
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Ele disse tratar-se: "de uma produção sólida, certamente inventiva nas imagens, e sem medo dos excessos ou delírios. É possível que as críticas ao filme (...) decorram das altas expectativas que o autor cria para si, após trabalhos muito melhores, como 'Oldboy' (2003), 'Lady Vingança' (2005), 'Sede de Sangue' (2009) e 'Segredos de Sangue' (2013). Caso viesse de um cineasta iniciante, esta proposta pudesse ser aclamada pelo potencial revelado. Aqui, aponta para um diretor em busca de novos registros, porém hesitando quanto ao alvo de sua paródia. Chan-wook não se coloca ao lado dos trabalhadores contra os patrões, ou ao lado dos fracos contra o sistema: ele ridiculariza a todos da mesma maneira, algo que talvez se mostre menos humanista do que politizado, e fácil até demais como chacota. Depois de seu longa-metragem anterior, o igualmente mediano 'Decisão de Partir', o cineasta ingressa numa fase distinta de sua carreira. Este parece ser um instante de transição - ainda não se sabe se para algo melhor, pior, ou somente diferente".
O que disse a crítica 2: Alexandre Almeida do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'A Única Saída' é um dos grandes filmes de 2025 e mais um exemplo da importância de Park Chan-wook para o cinema mundial. Se há uma universalidade na história de Donald E. Westlake, passada nos EUA (livro), na França (Costa-Gravas) e agora na Coreia do Sul, a condução do diretor torna tudo mais cômico, urgente e humano. A vida de Man-soo está passando diante de seus olhos, sua família se deteriorando a cada minuto e Park Chan-wook foge de qualquer tipo de conforto para contar essa trama que, assim como o capitalismo, não tem tempo a perder. Mesmo que seja nos fazendo rir do desespero".
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação do livro "The Ax” (O Corte, 1997) do autor americano Donald Westlake. Este livro já havia sido adaptado para o cinema anteriormente por Costa Gavras no longa homônimo "O Corte" (2005). Como Costa Gavras detinha os direitos do livro foi necessário que Chan-wook o procurasse. Ele apoiou ativamente a nova adaptação, sendo esse novo filme produzido pela produtora de Gavras. Nos créditos é possível observar uma dedicatória ao diretor pelo apoio concedido. Se formos comparar as duas adaptações, é possível observar que elas oferecem visões distintas sobre a mesma premissa: um homem desempregado que decide eliminar seus concorrentes para recuperar o emprego e consequentemente seu lugar na sociedade. A abordagem de Costa Gavras é considerada mais fiel à estrutura do livro. Ela possui um tom de comédia sombria misturada com suspense noir, focando na sátira social. Já a adaptação de Park Chan-wook é mais engraçada, mergulhando no terror psicológico e no drama familiar, refletindo a crueldade do mercado de trabalho modernoO resultado é tipo uma chanchada coreana que aposta no improvável e no exagero, com cenas repletas de comicidade física que o ator Lee Byung-hun super dá conta com seu gestual atrapalhado, patético, incapaz de realizar com desenvoltura as tarefas mais simples a que se propõe. Além do excelente elenco, chama a atenção a fotografia com tomadas surpreendentes. A edição e o design sonoro também não ficam atrás. Uma boa pedida para quem procura um longa fora dos padrões ocidentais.