17.3.26

"Um Domingo Maravilhoso" - Akira Kurosawa (Japão, 1947)

Sinopse:
Após a Segunda Guerra Mundial, o casal de namorados Yuzo (Isao Numasaki) e Masako (Chieko Nakakita) passa um domingo juntos tentando deixá-lo inesquecível. Mesmo com problemas econômicos e preocupações com a era nuclear, o amor deles lhes dá a possibilidade de se iludirem com um futuro melhor.
Comentário: Akira Kurosawa (1910-1998) foi produtor, montador, escritor e pintor japonês mas se destacou como cineasta e roteirista, um dos mais importantes do Japão e seus filmes influenciam até hoje uma grande geração de diretores. Com uma carreira de cinquenta anos, Kurosawa dirigiu em torno de 30 filmes. É amplamente considerado um dos cineastas mais importantes da história do cinema, o que lhe rendeu um Oscar em 1989 pelo conjunto de sua obra. Assisti dele as obras-primas "Dersu Uzala" (1975) e "Ran" (1985), o ótimo "Céu e Inferno" (1963), os bons “Os Sete Samurais” (1954) e "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), o mediano “Viver” (1952) e os curiosos "Sonhos" (1990) e "Madadayo" (1993). Desta vez vou conferir "Um Domingo Maravilhoso" (1947).
Luiz Santiago do site Plano Crítico nos conta que "Depois de sua visão política sobre o Japão pré, durante e pós Segunda Guerra ('Não Lamento Minha Juventude', 1946), Akira Kurosawa faria uma obra de caráter social e muito próximo ao ideal neorrealista de exposição de conflitos e problemas sociais, com a diferença do uso de atores profissionais e das filmagens em estúdio. A despeito dessas características, 'Um Domingo Maravilhoso' (1947) é uma obra pungente sobre a vida no Japão após a grande guerra, um retrato social e particular de como a sobrevivência em tempos difíceis pode ser diferente para cada grupo de pessoas, especialmente em um país em reconstrução, onde a fiscalização e o olhar para as massas são mínimos ou inexistentes.
Com roteiro de Kurosawa e Keinosuke Uekusa, 'Um Domingo Maravilhoso' acompanha um dia na vida do casal Yuzo e Masako, que mesmo com pouco dinheiro, tentam fazer de seu domingo juntos um dia inesquecível. A motivação sonhadora de Masako e o ceticismo e amargura de Yuzo se chocam já nas primeiras sequências do filme. Ele, um ex-soldado com um emprego de pequena remuneração; ela, uma garota apaixonada que tenta levar adiante o sonho de construir uma vida ao lado do namorado que tinha antes da Guerra e que agora parece ter se esquecido ou perdido a capacidade de sonhar.
Em meio à pobreza, o sonho se eleva como uma possibilidade, uma promessa de dias melhores mesmo que tudo pareça dizer o contrário. É olhando através dessa janela onírica que Masako mantém viva a esperança de construir um Café e uma vida ao lado de Yuzo. Sua representação como proprietária de uma grande casa chega a ser triste e dolorosa, mesmo que percebamos a alegria dela em se imaginar vivendo aquela realidade. Em contraste, Yuzo observa os sapatos gastos e furados da namorada e se recusa e entrar no jogo de representação, mergulhado completamente em pensamentos sobre o futuro pouco animador. Essa oposição entre pessimismo e otimismo será uma constante em todo o filme e passa de um protagonista para outro, alternando a intensidade e os motivos correlatos conforme o filme avança.
O experiente Asakazu Nakai, que voltaria a trabalhar com Kurosawa outras vezes ('Viver', 'Trono Manchado de Sangue', 'Os Sete Samurais' e 'Ran', só para citar algumas) apresenta um belo trabalho de fotografia, com iluminação delicada e tomadas inesquecíveis, como toda a poderosa sequência final, onde Yuzo rege a Sinfonia Inacabada de Franz Schubert em um anfiteatro vazio. A escolha da sinfonia é tão metaforicamente perfeita quanto a representação mimética do ator Isao Numasaki, que apresenta uma ponderada e tocante mudança psicológica do início para o final da obra. Já a atriz Chieko Nakakita, que trabalhara com Kurosawa em 'A Mais Bela' (1944) e 'Não Lamento Minha Juventude' (1946), representa uma Masako dócil, frágil, sonhadora, mas ao mesmo tempo forte e determinada, um contraponto perfeito para a personalidade de Yuzo. Algumas mudanças bruscas de humor quebram um pouco o ritmo de boa representação da atriz, mas nada que diminua assustadoramente a qualidade de seu trabalho".
O que disse a crítica 1: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "Como costumeiro em sua filmografia, Kurosawa utiliza os fenômenos da natureza para indicar o tom do filme. Por exemplo, a chuva marca os momentos mais tristes de 'Um Domingo Maravilhoso'. Quando o sol reaparece, o rapaz Yuzo se anima para sair à rua, depois da forte briga com Masako. E, finalmente, o vendaval atrapalha a fantasia do rapaz na condução da orquestra. 'Um Domingo Maravilhoso' é outro grande exemplar de drama contemporâneo de Akira Kurosawa. Realista e existencial, retrata com sensibilidade a dureza do pós-guerra no Japão".
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "Como a 'Sinfonia Inacabada' [música de Franz Schubert que toca durante o filme], a história de 'Um Domingo Maravilhoso' não termina. Por ser apenas a visão de um único dia na vida de Yuzo e Masako, temos a projeção de diversas possibilidades para o futuro, e embora possamos juntar elementos do próprio filme para acreditarmos em algo pleno de realizações, não podemos afirmar com certeza, porque o próprio filme também nos mostra como coisas aparentemente certas podem se tornar impossíveis de se concretizar. Todavia, a mensagem de esperança em meio ao sofrimento e o poder do sonho como fuga de uma realidade dolorosa são elementos que não se dissipam facilmente da mente do espectador e, com certeza, marcam a construção desse drama social poderoso do mestre Kurosawa".
O que eu achei: Um dos cineastas mais famosos do oriente, espécie de embaixador do cinema japonês, Akira Kurosawa iniciou sua carreira nos anos 1940 com um modernismo devedor dos experimentos da década anterior. Alguns estudiosos subdividem seu cinema em fases, começando com trabalhos humanistas do pós-guerra (1943–1946), seguido de um período de transição para a modernidade (1947-1950), iniciado justamente pelo filme "Um Domingo Maravilhoso" (1947), que se passa logo após o término da Segunda Guerra Mundial. O longa mostra um casal de namorados - Yuzo (Isao Numasaki) e Masako (Chieko Nakakita) – que passa um domingo com 35 ienes no bolso, tentando deixá-lo inesquecível, tarefa essa que não será fácil frente aos problemas econômicos e preocupações com a era nuclear e com a falta de perspectivas. Eles até tentam se divertir, mas nada dá certo. O que resta pra eles então é tentarem se iludir e sonhar com um futuro melhor. Apesar da premissa interessante, ele está longe dos melhores de sua carreira. Aliás todos os filmes dessas duas primeiras fases ainda carecem de aprimoramentos que só começaram a aparecer de 1950 em diante, em obras como "Rashomon" (1950), "Os 7 Samurais" (1954) e "Trono Manchado de Sangue" (1957); atingindo seu auge nos anos 1960 que começa com o bom "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), seguindo para o ótimo "Céu e Inferno" (1963) e desembocando nas obras-primas "Dersu Uzala" (1975) e "Ran" (1985). É notório como o passar dos anos foi deixando Kurosawa mais afiado. "Um Domingo Maravilhoso" é o sétimo filme do diretor. Está mais para um daqueles trabalhos de um cineasta em lapidação. O filme se passa em um único dia, os cenários são teatrais com filmagens notadamente capturadas em estúdio, mostrando a cidade de Tóquio devastada pela guerra ou um quarto de pensão decadente que Yuzo divide com um colega. Atenção à música que Yuzo rege num anfiteatro vazio. Trata-se da maravilhosa "Sinfonia Inacabada" de Franz Schubert, um dos pontos altos do filme.