9.2.26

"Suspeita" - Alfred Hitchcock (EUA, 1941)

Sinopse:
Johnny Aysgarth (Cary Grant) é um charmoso playboy e inveterado jogador que vive pedindo dinheiro emprestado. Ele casa com a tímida Lina McLaidlaw (Joan Fontaine), uma rica herdeira. Após a lua-de-mel ela começa a desconfiar do caráter do rapaz, quando o parceiro e amigo de Johnny é morto misteriosamente. Ela suspeita do marido e teme que possa ser a próxima vítima.
Comentário: Alfred Hitchcock (1899-1980) foi um diretor e produtor cinematográfico britânico. Amplamente considerado um dos mais reverenciados e influentes cineastas de todos os tempos, Hitchcock foi eleito pelo The Telegraph o maior diretor da história da Grã-Bretanha e, pela Entertainment Weekly, o maior do cinema mundial. Conhecido como "Mestre do Suspense", dirigiu em torno de 53 longas-metragens ao longo de seis décadas de carreira, parte dela na Inglaterra, parte nos EUA. Tornou-se também famoso também por conta das frequentes aparições em seus filmes e pela apresentação do programa "Alfred Hitchcock Presents" (1955-1965). Assisti dele 37 filmes, dentre eles: as obras-primas: "Os Pássaros" (1936), "Festim Diabólico" (1948), "Janela Indiscreta" (1954), "Um Corpo Que Cai" (1958) e "Psicose" (1960) e os ótimos: "O Inquilino" (1927), "Chantagem e Confissão" (1929), "Sabotagem" (1936), "Jovem e Inocente" (1937), "A Dama Oculta" (1938), “Rebecca, a Mulher Inesquecível” (1940), "A Sombra de Uma Dúvida" (1943), "Interlúdio" (1946), "Pacto Sinistro" (1951), "Disque M para Matar" (1954), "O Homem Que Sabia Demais" (1956), “Intriga Internacional” (1959) e "Frenesi" (1972). Desta vez vou conferir "Suspeita" (1941).
João Bénard da Costa da Cinemateca Portuguesa nos conta que "Após os créditos iniciais, a tela fica por uns momentos totalmente preta. Ouve-se o apito de um trem e, segundos depois, vozes. Quando se 'faz luz' encontramo-nos numa carruagem, com Joan Fontaine num banco e Cary Grant no outro. Frente a frente. O espectador apercebe-se, então, que a escuridão provinha da travessia de um túnel. No escuro, um homem e uma mulher, sentados frente a frente, viajam juntos, com um apito como fundo sonoro.
Assim começa 'Suspeita', o quarto filme americano de Hitchcock. Quando começamos a ver, a câmara subjetiva-se (como ao longo de todo o filme será uma constante) no olhar de Joan Fontaine, de óculos, chapéu, ar assustado, lendo um livro sobre psicologia infantil. É pelos olhos dela que vemos Cary Grant, extremamente à vontade (...).
De que escuridão provém Joan Fontaine? Ao longo das primeiras sequências vão nos sendo dadas informações: o peso puritano da família (repare na onipresença do pai, perpetuada, depois da morte, pelo retrato), a fixação no estágio infantil (a psicologia das crianças tanto se aplica a ela, como ela a aplica a Cary Grant que tende a ver como uma 'criança grande', chegando a perguntar-lhe se não será tempo de ele crescer), o medo do amor físico (o fabuloso plano do primeiro beijo-luta, visto de tão longe), a timidez, o desequilíbrio interior e exterior (o plano dela a cavalo).
'Monkey face' chama-lhe Cary Grant, enquanto a ela vão sendo associadas imagens tutelares das grandes instituições: igreja, polícia, família. Tudo, no seu modo de vestir e de andar, insinua um mal-estar, um medo, uma aflição que provém de um background mais insinuado do que explicitado mas de que não são dados os elementos suficientes (...).
A sequência do baile (primeira sequência plenamente iluminada, primeira sequência em que Joan Fontaine abandona os óculos) parece preparar-nos para outra claridade que rima com a rápida passagem pela lua de mel e pela primeira casa do casal. Mas a rápida descoberta de que o marido não tem um vintém e a suspeita de que terá casado com ela por dinheiro, lançam-na outra vez na mesma obscuridade.
Daí para diante, o filme prossegue com a alternância de momentos claros (aqueles em que Joan Fontaine acredita ou volta a acreditar) e de momentos escuros (aqueles em que totalmente suspeita). E os elementos iniciais vão-se conjugando como num quebra-cabeça para reforçar esse sentimento de escuridão". 
O roteiro foi baseado no livro "Before the Fact" de Anthony Berkeley. Uma das autoras do roteiro foi Alma Reville, mulher de Alfred Hitchcock e sua mais chegada colaboradora. Ela contribuiu em muitos filmes do marido, mas geralmente não foi creditada. "Suspeita" é o primeiro longa no qual Hitchcock atuou como diretor e produtor.
O filme venceu um Oscar na categoria de Melhor Atriz pelo desempenho cerebral de Joan Fontaine.
O que disse a crítica 1: Rubens Ewald Filho do UOL avaliou o filme com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "A atriz Joan Fontaine foi premiada com o Oscar por sua atuação (...), mas foi uma espécie de 'prêmio de consolação' por ela não ter levado a estatueta pelo papel em 'Rebecca' (1939), também do Alfred Hitchcock, que a tinha transformado em estrela. Esta produção da RKO, feita logo a seguir (1941), ou seja no começo da presença do diretor nos EUA, é hitchcockiana típica porque está cheia de subentendidos e meias-verdades. O filme também foi indicado para o Oscar de Melhor Filme e de Trilha Sonora (mas, estranhamente, não para o de Diretor). Joan realmente funciona em papéis de vítima, como a mulher apaixonada, frágil e desorientada que não sabe como lidar com a suspeita de que o marido (Cary Grant) seja um assassino (...). Cary Grant também está bastante bem como o marido, mas a escolha dele como protagonista, com sua persona de galã leve e romântico, impediu Hitchcock de tornar o filme mais sinistro e sombrio e também explica o artificial final feliz, diferente do livro em que o filme se baseia. Ainda que não se inclua entre as obras-primas de Hitchcock, funciona muito bem hoje e merece atenção".
O que disse a crítica 2: Ritter Fan do site Plano Crítico avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Hitchcock (...) mesmo com um material fonte interessante para trabalhar e que ele torna ainda mais interessante em filme, acaba errando com a utilização de Isobel. Apesar da personagem ser introduzida razoavelmente cedo na estrutura da obra, ela ganha uma desproporcional atenção no terço final, algo que não é nem esperado e muito menos orgânico para o desfecho, ainda que importante. Parece até que algo foi 'perdido' na mesa de montagem, assim como acontece com a brusquidão do início da fita, que nos joga os personagens no colo de forma pouco ortodoxa. Mas 'Suspeita' funciona muito bem apesar de seus problemas aqui e ali. A manutenção do suspense por Hitchcock literalmente até os segundos finais do filme e as excelentes atuações do atores principais fazem da quarta empreitada do diretor em solo americano uma delícia de diversão, com um charme irresistível".
O que eu achei: "Suspeita" (1941) é um daqueles filmes que, já nos primeiros minutos, se impõe como uma obra tipicamente hitchcockiana. Estão lá os elegantes cenários pintados, as casas cuidadosamente decoradas, os figurinos impecáveis e os personagens minuciosamente caracterizados. Tudo é visualmente atraente e tecnicamente bem acabado, confirmando o domínio de Alfred Hitchcock sobre a forma e a atmosfera. Na trama, Joan Fontaine - em uma interpretação delicada e intensa que lhe rendeu o Oscar - vive uma mulher ingênua que se casa com um charmoso bom vivant. Aos poucos, a felicidade conjugal dá lugar à inquietação, e a suspeita do título se instala: estaria o marido planejando assassiná-la? O filme se constrói justamente sobre essa dúvida, explorando o medo, a ambiguidade e a fragilidade psicológica da protagonista, algo que Hitchcock sempre soube fazer de forma eficaz. Havia, portanto, todos os ingredientes para que "Suspeita" se tornasse mais uma obra-prima na filmografia do diretor. No entanto, alguns problemas impedem que o filme alcance esse patamar. O principal deles parece estar na edição. Há cortes abruptos que, em determinados momentos, interrompem a fluidez da narrativa e quebram a tensão cuidadosamente construída, prejudicando a fruição do espectador. O final também deixa a desejar. Sabe-se que diferentes versões foram escritas e que a escolha da conclusão exibida partiu do estúdio, contrariando o desejo de Hitchcock, então não se pode culpá-lo. Dizem, inclusive, que esse final não segue nem o livro "Before the Fact" de Anthony Berkeley em que o filme se baseia. A sensação é de uma resolução pouco convincente, que acaba enfraquecendo o impacto psicológico do conjunto. É uma pena, pois praticamente qualquer outra alternativa soaria mais coerente e ousada do que a que foi levada às telas. Entretanto, apesar do longa não estar a altura dos filmes mais excelentes de Hitchcock, ele ainda assim permanece como um bom longa-metragem: é agradável, bem interpretado e interessante em suas intenções.