
Comentário: Jafar Panahi (1960) é um cineasta iraniano que desde 2010 está proibido pela justiça iraniana de filmar sob a acusação de estar mostrando o regime de repressão que o povo iraniano vive, algo que o governo chama de “fazer propaganda contra o governo iraniano". Ele já foi preso duas vezes e, no momento, está com prisão decretada. Mesmo assim Panahi está dando um jeito de filmar. Assisti dele os excelentes "O Balão Branco" (1995), "O Espelho" (1997), "Taxi Teerã" (2015), "3 Faces" (2018) e "Sem Ursos" (2022), além dos documentários "Isto Não É Um Filme" (2011) e “Escondida” (2020). Desta vez vou conferir "Foi Apenas Um Acidente" (2025).
Neusa Barbosa do site Cineweb publicou: "Por 15 anos, o diretor iraniano Jafar Panahi esteve proibido de viajar ao exterior, uma das muitas restrições de quem, nesse período, foi condenado à prisão, esteve em solitária, fez greve de fome e foi proibido de filmar - o que não impediu que continuasse realizando filmes como 'Isto Não é Um Filme', 'Táxi Teerã', 'Três Faces' e 'Sem Ursos', colhendo prêmios em festivais internacionais como Cannes e Berlim.
A proibição foi suspensa em 2025 e Panahi pôde, em maio último, estar presente na concorrida sessão oficial de seu novo filme em Cannes, 'Foi Apenas Um Acidente', que terminou vencendo a Palma de Ouro, concedida por um júri presidido pela atriz Juliette Binoche. Em 2010, quando o cineasta foi preso no Irã e por isso impedido de ir a Cannes para integrar o júri, a atriz francesa ergueu um cartaz com o nome dele ao receber o próprio prêmio de interpretação, por outro filme iraniano, 'Cópia Fiel', de Abbas Kiarostami. Toda essa circunstância trabalhou a favor do filme, mas nada disso deve obscurecer o fato de que a obra fala por si só, em sua complexidade política e força dramática.
No enredo, um homem, Vahid (Vahid Mobasseri), julga reconhecer um antigo algoz que o torturou na prisão - que se deu também por motivos políticos. A partir daí, fica obcecado com a captura do suposto agente, Eghbal (Ebrahim Azizi), recorrendo a outros ex-presos que sofreram em suas mãos, como a fotógrafa Shiva (Mariam Ashfari), uma noiva em seu vestido de casamento, Gol (Hadis Pakbaten), e outro homem, Hamid (Mohammed Ali Elyasmehr), para assegurar-se de sua identidade, sobre a qual restam dúvidas.
Numa trama que se desenvolve entre uma caminhonete, as ruas da cidade e alguns lugares ermos, Panahi constrói seu drama ético, que suscita todo tipo de questão. Se de um lado é um thriller - este homem é ou não o agente Eghbal? -, também é um relato moral. Até que ponto é legítimo que vítimas exercitem o olho por olho, dente por dente, contra aqueles que, contra elas, impuseram agressões, execuções encenadas e ameaças, inclusive de estupro?
O cineasta dá voz às vítimas, que carregam cicatrizes profundas, porque os efeitos da tortura, de algum modo, nunca se dissipam completamente, especialmente os psíquicos. E cada uma tem seu entendimento sobre a vingança. Mas também, a certa altura, se dá voz a este agente do Estado, que perdeu uma perna lutando na Síria e tem uma noção bastante pessoal do que é servir ao governo.
No auge da sua forma como roteirista e diretor, Panahi cria um filme denso, cheio de camadas, inclusive de humor - a noiva e a passagem pelo hospital são dois desses momentos exemplares, sem nunca comprometer o grande arco de valores sendo colocados em primeiro plano.
A própria filmagem de 'Foi Apenas um Acidente' ocorreu cheia de percalços. Mesmo filmando em parte dentro de uma caminhonete, também para atrair menos atenção, a equipe recebeu a visita de fiscais e se mobilizou para esconder o filme, prevenindo a hipótese de que fosse confiscado - conforme relatou o diretor na coletiva em Cannes.
Depois do anúncio de que o filme iria a Cannes, sobretudo nas duas semanas anteriores, vários membros da equipe, como as atrizes Hadis e Mariam, foram intimadas para interrogatórios e pressionadas. Ebrahim Azizi contou que recebeu telefonemas estranhos de números desconhecidos. Um corroteirista do filme foi preso.
As restrições do regime iraniano contra os artistas, no entanto, continuam. Na semana que o filme estreou no Brasil, chegou a notícia de que o diretor foi novamente condenado a um ano de prisão, proibido por dois anos de viajar para fora do Irã e também de associar-se a grupos políticos e sociais.
No entanto, como afirmou Panahi em Cannes: 'É um absurdo e até surrealista que se coloquem artistas na prisão. Ao fazer isso, lhes damos ideias, lhes abrimos um mundo novo'. Seu próprio filme, segundo ele, nasceu de inúmeras conversas com pessoas que conheceu na prisão. 'Na verdade, não fomos nós que criamos o filme, foi a República Islâmica. Então, eles devem saber que, quando prendem um artista, devem assumir as consequências'".
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Ele criticou o fato das discussões entre os personagens se repetirem demasiadamente e disse que "na segunda metade do filme os personagens tomam uma decisão (...) impossível de aceitar por julgá-la absurda, artificial e inverossímil (...). Ainda assim, a força de 'Foi Apenas um Acidente' se mantém graças à história do próprio Panahi, não sendo difícil imaginar como várias das discussões presentes na obra refletem debates que ele provavelmente testemunhou ou das quais participou tanto durante seu período na prisão quanto em conversas com antigos companheiros de ativismo quando se encontrava em liberdade. E neste caso o contexto extra filme faz toda a diferença".
O que disse a crítica 2: Wallace Andrioli do site Plano Aberto avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: No encerramento, o filme "confirma sua implicação consequente na situação sócio-política do Irã, escapando de qualquer possibilidade de equivalência das ações, entre o que os ex-prisioneiros sofreram no passado e sua vingança presente. A última cena, ainda que atravessada por ironia e até certa crueldade com o protagonista, não extrai disso propriamente prazer narrativo, ao menos não a ponto de se sobrepor ao reconhecimento lamentoso da necessidade de abandonar qualquer ingenuidade no confronto com o autoritarismo. O que reforça uma característica do cinema de Panahi que, fase após fase, nunca deixou de existir: a forte indexação na realidade do mundo filmado, manifesta na encenação naturalista, na recorrente presença de atores não profissionais e das paisagens urbanas e rurais de seu país e, claro, na interminável disposição para comentar criticamente a opressão de um regime teocrático".
O que eu achei: Considerar o contexto de vida do próprio cineasta é um bom ponto de partida para se começar a ver esse filme que conta a história de Vahid, um mecânico que, por acaso, encontra o homem que acredita ter sido seu torturador na prisão. Ele o sequestra decidido a se vingar, mas a única pista sobre a identidade dele é o som peculiar de sua perna protética. A ideia, a princípio, é enterrá-lo vivo, mas como ter certeza de que é ele mesmo? Vahid então sai em busca de outras vítimas libertas em busca de confirmação. O filme foi feito no Irã, filmado às escondidas, já que Jafar Panahi já foi preso duas vezes acusado de "fazer propaganda negativa contra o governo". Toda sua equipe teve que trabalhar dessa forma, procurando evitar locais muito movimentados e produzindo boa parte do material dentro de uma van. Mesmo assim eles receberam a visita de fiscais. Foi necessário esconder o filme para conseguir tirá-lo do país e fazer a edição na França. Depois do anúncio de que o filme iria ser exibido em Cannes, vários membros da equipe, como as atrizes Hadis (a noiva) e Mariam (a fotógrafa), foram intimadas para interrogatórios e pressionadas. Ebrahim Azizi (que interpreta o torturador) contou que recebeu telefonemas estranhos de números desconhecidos. Recentemente, um dos roteiristas chamado Mehdi Mahmoudian, foi preso em Teerã por ter assinado uma carta aberta que acusa o líder supremo do Irã de crimes contra a humanidade, dentro de uma série de protestos que o regime insiste em enquadrar como ameaça à ordem. Sabendo de tudo isso, o filme adquire ainda mais relevância transformando-se num ato de resistência, mostrando uma sociedade que tenta lidar com memórias traumáticas e uma extrema falta de liberdade, discutindo ética, justiça, vingança e moral, dentre outras coisas. O final é surpreendentemente engenhoso. Me lembrou um outro filme chamado "A Morte e a Donzela" (1994) do Polanski, adaptado de uma peça de teatro escrita por um chileno exilado que escapou do regime de Pinochet chamado Ariel Dorfman, que conta a história de uma mulher casada com um advogado, que recebe em sua casa o suposto homem que a torturou e a estuprou quando ela fazia militância política. O tempo passa e o tema permanece atual. O filme foi indicado ao Oscar como um representante da França e está concorrendo nas categorias Roteiro Original e Filme Internacional. Boa pedida.
Neusa Barbosa do site Cineweb publicou: "Por 15 anos, o diretor iraniano Jafar Panahi esteve proibido de viajar ao exterior, uma das muitas restrições de quem, nesse período, foi condenado à prisão, esteve em solitária, fez greve de fome e foi proibido de filmar - o que não impediu que continuasse realizando filmes como 'Isto Não é Um Filme', 'Táxi Teerã', 'Três Faces' e 'Sem Ursos', colhendo prêmios em festivais internacionais como Cannes e Berlim.
A proibição foi suspensa em 2025 e Panahi pôde, em maio último, estar presente na concorrida sessão oficial de seu novo filme em Cannes, 'Foi Apenas Um Acidente', que terminou vencendo a Palma de Ouro, concedida por um júri presidido pela atriz Juliette Binoche. Em 2010, quando o cineasta foi preso no Irã e por isso impedido de ir a Cannes para integrar o júri, a atriz francesa ergueu um cartaz com o nome dele ao receber o próprio prêmio de interpretação, por outro filme iraniano, 'Cópia Fiel', de Abbas Kiarostami. Toda essa circunstância trabalhou a favor do filme, mas nada disso deve obscurecer o fato de que a obra fala por si só, em sua complexidade política e força dramática.
No enredo, um homem, Vahid (Vahid Mobasseri), julga reconhecer um antigo algoz que o torturou na prisão - que se deu também por motivos políticos. A partir daí, fica obcecado com a captura do suposto agente, Eghbal (Ebrahim Azizi), recorrendo a outros ex-presos que sofreram em suas mãos, como a fotógrafa Shiva (Mariam Ashfari), uma noiva em seu vestido de casamento, Gol (Hadis Pakbaten), e outro homem, Hamid (Mohammed Ali Elyasmehr), para assegurar-se de sua identidade, sobre a qual restam dúvidas.
Numa trama que se desenvolve entre uma caminhonete, as ruas da cidade e alguns lugares ermos, Panahi constrói seu drama ético, que suscita todo tipo de questão. Se de um lado é um thriller - este homem é ou não o agente Eghbal? -, também é um relato moral. Até que ponto é legítimo que vítimas exercitem o olho por olho, dente por dente, contra aqueles que, contra elas, impuseram agressões, execuções encenadas e ameaças, inclusive de estupro?
O cineasta dá voz às vítimas, que carregam cicatrizes profundas, porque os efeitos da tortura, de algum modo, nunca se dissipam completamente, especialmente os psíquicos. E cada uma tem seu entendimento sobre a vingança. Mas também, a certa altura, se dá voz a este agente do Estado, que perdeu uma perna lutando na Síria e tem uma noção bastante pessoal do que é servir ao governo.
No auge da sua forma como roteirista e diretor, Panahi cria um filme denso, cheio de camadas, inclusive de humor - a noiva e a passagem pelo hospital são dois desses momentos exemplares, sem nunca comprometer o grande arco de valores sendo colocados em primeiro plano.
A própria filmagem de 'Foi Apenas um Acidente' ocorreu cheia de percalços. Mesmo filmando em parte dentro de uma caminhonete, também para atrair menos atenção, a equipe recebeu a visita de fiscais e se mobilizou para esconder o filme, prevenindo a hipótese de que fosse confiscado - conforme relatou o diretor na coletiva em Cannes.
Depois do anúncio de que o filme iria a Cannes, sobretudo nas duas semanas anteriores, vários membros da equipe, como as atrizes Hadis e Mariam, foram intimadas para interrogatórios e pressionadas. Ebrahim Azizi contou que recebeu telefonemas estranhos de números desconhecidos. Um corroteirista do filme foi preso.
As restrições do regime iraniano contra os artistas, no entanto, continuam. Na semana que o filme estreou no Brasil, chegou a notícia de que o diretor foi novamente condenado a um ano de prisão, proibido por dois anos de viajar para fora do Irã e também de associar-se a grupos políticos e sociais.
No entanto, como afirmou Panahi em Cannes: 'É um absurdo e até surrealista que se coloquem artistas na prisão. Ao fazer isso, lhes damos ideias, lhes abrimos um mundo novo'. Seu próprio filme, segundo ele, nasceu de inúmeras conversas com pessoas que conheceu na prisão. 'Na verdade, não fomos nós que criamos o filme, foi a República Islâmica. Então, eles devem saber que, quando prendem um artista, devem assumir as consequências'".
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Ele criticou o fato das discussões entre os personagens se repetirem demasiadamente e disse que "na segunda metade do filme os personagens tomam uma decisão (...) impossível de aceitar por julgá-la absurda, artificial e inverossímil (...). Ainda assim, a força de 'Foi Apenas um Acidente' se mantém graças à história do próprio Panahi, não sendo difícil imaginar como várias das discussões presentes na obra refletem debates que ele provavelmente testemunhou ou das quais participou tanto durante seu período na prisão quanto em conversas com antigos companheiros de ativismo quando se encontrava em liberdade. E neste caso o contexto extra filme faz toda a diferença".
O que disse a crítica 2: Wallace Andrioli do site Plano Aberto avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: No encerramento, o filme "confirma sua implicação consequente na situação sócio-política do Irã, escapando de qualquer possibilidade de equivalência das ações, entre o que os ex-prisioneiros sofreram no passado e sua vingança presente. A última cena, ainda que atravessada por ironia e até certa crueldade com o protagonista, não extrai disso propriamente prazer narrativo, ao menos não a ponto de se sobrepor ao reconhecimento lamentoso da necessidade de abandonar qualquer ingenuidade no confronto com o autoritarismo. O que reforça uma característica do cinema de Panahi que, fase após fase, nunca deixou de existir: a forte indexação na realidade do mundo filmado, manifesta na encenação naturalista, na recorrente presença de atores não profissionais e das paisagens urbanas e rurais de seu país e, claro, na interminável disposição para comentar criticamente a opressão de um regime teocrático".
O que eu achei: Considerar o contexto de vida do próprio cineasta é um bom ponto de partida para se começar a ver esse filme que conta a história de Vahid, um mecânico que, por acaso, encontra o homem que acredita ter sido seu torturador na prisão. Ele o sequestra decidido a se vingar, mas a única pista sobre a identidade dele é o som peculiar de sua perna protética. A ideia, a princípio, é enterrá-lo vivo, mas como ter certeza de que é ele mesmo? Vahid então sai em busca de outras vítimas libertas em busca de confirmação. O filme foi feito no Irã, filmado às escondidas, já que Jafar Panahi já foi preso duas vezes acusado de "fazer propaganda negativa contra o governo". Toda sua equipe teve que trabalhar dessa forma, procurando evitar locais muito movimentados e produzindo boa parte do material dentro de uma van. Mesmo assim eles receberam a visita de fiscais. Foi necessário esconder o filme para conseguir tirá-lo do país e fazer a edição na França. Depois do anúncio de que o filme iria ser exibido em Cannes, vários membros da equipe, como as atrizes Hadis (a noiva) e Mariam (a fotógrafa), foram intimadas para interrogatórios e pressionadas. Ebrahim Azizi (que interpreta o torturador) contou que recebeu telefonemas estranhos de números desconhecidos. Recentemente, um dos roteiristas chamado Mehdi Mahmoudian, foi preso em Teerã por ter assinado uma carta aberta que acusa o líder supremo do Irã de crimes contra a humanidade, dentro de uma série de protestos que o regime insiste em enquadrar como ameaça à ordem. Sabendo de tudo isso, o filme adquire ainda mais relevância transformando-se num ato de resistência, mostrando uma sociedade que tenta lidar com memórias traumáticas e uma extrema falta de liberdade, discutindo ética, justiça, vingança e moral, dentre outras coisas. O final é surpreendentemente engenhoso. Me lembrou um outro filme chamado "A Morte e a Donzela" (1994) do Polanski, adaptado de uma peça de teatro escrita por um chileno exilado que escapou do regime de Pinochet chamado Ariel Dorfman, que conta a história de uma mulher casada com um advogado, que recebe em sua casa o suposto homem que a torturou e a estuprou quando ela fazia militância política. O tempo passa e o tema permanece atual. O filme foi indicado ao Oscar como um representante da França e está concorrendo nas categorias Roteiro Original e Filme Internacional. Boa pedida.