7.2.26

"Apocalipse nos Trópicos" – Petra Costa (Brasil, 2025)

Sinopse:
Quando uma democracia termina e uma teocracia começa? O documentário investiga a crescente influência que líderes evangélicos exercem sobre a política brasileira. Entrelaçando passado e presente, apresenta um espelho inquietante para o resto do mundo.
Comentário: Petra Costa (1983) é uma cineasta, roteirista, produtora e narradora brasileira, cofundadora da produtora Busca Vida Filmes e membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Assisti dela os documentários "Elena" (2012) e “Democracia em Vertigem” (2019). Desta vez vou conferir "Apocalipse nos Trópicos" (2025).
O documentário investiga a crescente influência de lideranças evangélicas na política brasileira e como uma teologia de viés apocalíptico passou a moldar discursos e estratégias do bolsonarismo e da extrema-direita. O filme discute a tensão entre democracia e projetos de poder de caráter teocrático, situando essa disputa no centro da crise política recente do país.
A narrativa adota um formato de ensaio pessoal, característica recorrente na filmografia da diretora, que parte de inquietações próprias para tentar compreender os grupos e líderes com os quais discorda. A partir de imagens de arquivo, registros de manifestações públicas e entrevistas, o documentário reconstrói episódios-chave do cenário político brasileiro contemporâneo, relacionando religião, mobilização popular e projetos de poder.
Um dos eixos centrais é a ascensão de Jair Bolsonaro e a importância estratégica do apoio evangélico para a consolidação de seu governo. O filme destaca a atuação de figuras influentes como o pastor Silas Malafaia, com quem a diretora obtém acesso direto, além de apresentar entrevistas com o próprio Bolsonaro e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, oferecendo visões contrastantes sobre o papel da religião na política nacional.
Ao abordar a instrumentalização da fé para fins políticos, o documentário questiona os limites entre convicção religiosa e manipulação ideológica, levantando preocupações sobre o impacto do fundamentalismo no funcionamento das instituições democráticas. Ao mesmo tempo, sua abordagem pessoal e declaradamente crítica gerou debates sobre o alcance de sua análise e sobre o fato de dialogar sobretudo com um público já alinhado a posições progressistas.
O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Veneza, foi bem recebido em vários circuitos internacionais, chegou à lista dos pré-selecionados ao Oscar e está indicado ao BAFTA.
O que disse a crítica 1: Gilberto Nascimento do site Intercept Brasil não gostou. Ele disse que o filme relata bem a tragédia no Brasil com a eleição de Bolsonaro em 2018, mas que o pastor Silas Malafaia ganhou uma proporção muito maior do que, de fato, ele tem no segmento. Disse que apesar de midiático, sua igreja (a Assembleia Vitória em Cristo) é apenas um ramo, entre os menores, da Assembleia de Deus. Os ramos do Belém, em São Paulo, e Madureira são os maiores e os que mais elegem políticos no Brasil, exercendo assim mais influência. Mas que só Malafaia e seu grupo falam no filme de Petra Costa.
O que disse a crítica 2: Caio Coletti do site Omelete avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: "Na onipresente narração em off - marca registrada de todos os seus filmes (...) -, Petra Costa admite que, devido a uma criação laica, leu a Bíblia essencialmente pela primeira vez enquanto preparava 'Apocalipse nos Trópicos'. (...) É claro que o filme não passa incólume de certas miopias, consequência direta do cinema rigidamente autocentrado que Costa clamou para si desde o começo da filmografia. É assim que escapam pelas rachaduras de uma investigação sincera algumas presunções que só poderiam vir de alguém em certa posição social, cercada de certos elementos culturais".
O que eu achei: Li tantas críticas negativas sobre o documentário indicado ao Oscar e que agora concorre ao BAFTA, que pensei até em não ver, mas o resultado para mim foi, ao contrário, uma surpresa extremamente positiva. Quem acompanhou o mínimo de noticiário na época sabe como o inelegível foi eleito e o que se deu na sequência com o envolvimento de membros do exército. O recorte que Petra faz nesse documentário sobre o livro do Apocalipse pode não cobrir todos os motivos que levaram o Brasil a esse estado de coisas, pode até ser considerado simplista, mas não deixa de ser muito elucidativo pois ele entra na alma do evangélico ortodoxo, explicando as crenças que norteiam pessoas que acreditam piamente num fim do mundo decretado por Deus, com a derrota de Satanás e de todos os seus representantes e a salvação dos crentes em Jesus. Eu nunca havia me atentado na forma como essa crença era uma porta aberta para manipular milhares de pessoas a acreditar que juntas - totalizando com outras subdivisões de evangélicos 30% do eleitorado brasileiro - elas poderiam ajudar Deus a cumprir com 'aquilo que já estava escrito'. Para ajudar Deus nesse seu projeto seria preciso eleger um tolo, uma espécie de marionete manipulável sem muita capacidade de raciocínio para que Ele pudesse agir. No filme há uma passagem que mostra o inelegível já eleito na igreja de Malafaia – o grande protagonista do documentário – dizendo: "Deus escolheu as coisas vis, de pouco valor, as desprezíveis, que podem ser descartadas, as que ninguém dá importância, para confundir, para que nenhuma carne se vanglorie diante dele. Foi por isso que Deus te escolheu. Deus escolheu as coisas loucas, fracas, vis e desprezíveis". Ou seja, o candidato B preenchia todos os requisitos. A presença do coronavírus que devastou o mundo com tantas mortes também veio muito a calhar para alimentar esse raciocínio. Se no livro do Apocalipse é mencionada a abertura do quarto selo, onde é dado poder para matar a quarta parte da Terra por meio da peste além da espada (armamentos), fome e feras; se mais adiante no livro, durante o toque das trombetas, é descrito que um terço da humanidade seria morto, como não acreditar que esse momento havia mesmo chegado e abraçar essa causa divina ajudando o Criador a acabar com tudo para que a Terra pudesse renascer num novo tempo no qual a morte não existiria mais, 'nem o luto, nem o pranto, nem a dor'. Enfim, uma aula sobre os perigos da teocracia. Obrigatório.