12.1.26

“Três Homens em Conflito” - Sergio Leone (Itália/Espanha/Alemanha Ocidental/EUA, 1966)

Sinopse:
Nos Estados Unidos, durante a Guerra de Secessão, um pistoleiro bom e misterioso (Clint Eastwood) tenta trabalhar em conjunto com um bandido mau (Lee Van Cleef) e um caçador de recompensas feio (Eli Wallach) para encontrar um tesouro escondido. Os homens são obrigados a forjar uma difícil aliança visto que cada um conhece apenas uma parte da localização da fortuna. O problema é que nenhum deles tem a intenção de dividir a riqueza.
Comentário: Sergio Leone (1929-1989) foi um cineasta italiano autor de famosos filmes que renovaram o gênero western. Assisti dele a obra-prima "Era Uma Vez na América" (1984) e os excelentes "Por um Punhado de Dólares" (1964) e "Era Uma Vez no Oeste" (1968). Desta vez vou conferir “Três Homens em Conflito”, o terceiro filme da ‘Trilogia dos Dólares’ também conhecida como ‘Trilogia do Homem Sem Nome’, que também inclui “Por um Punhado de Dólares” e “Por uns Dólares a Mais”.
Luke Buckmaster do site BBC Culture nos conta que “O legado do lendário diretor italiano ficou para sempre associado ao western espaguete, um subgênero de filmes produzidos nos anos 60 e 70, inspirado nos tradicionais filmes americanos de bangue-bangue. Eram produções feitas por diretores europeus, trabalhando com orçamentos menores, mas com um bravo espírito inovador.
Mas nenhum western espaguete ficou tão famoso quanto ‘Três Homens em Conflito’. O filme de Leoni conta a história de três foras-da-lei em busca de uma fortuna desaparecida. O filme apareceu em inúmeras listas de melhores produções ao longo dos anos, graças a técnicas revolucionárias de narrativas que foram usadas, ensinadas e roubadas por diretores de todas as partes do mundo.
A famosa cena do enfrentamento no cemitério é considerada por críticos e especialistas como um dos melhores exemplos de edição da história do cinema. E o impacto daqueles momentos é a razão pela qual o filme ainda ressona tão fortemente [mais de] meio século depois: não é apenas o que acontece, mas 'como' algo acontece.
Desde o começo, o filme dá pistas de que vai ser um festival de bravura visual. A primeira cena é uma longa tomada de um vale desértico. Mas tudo dura apenas segundos – Leone usa a paisagem para uma mudança de enfoque, e logo o rosto duro de um cowboy com a barba por fazer aparece em cena, perto o suficiente da câmera para que possamos ver suas narinas. Uma tomada à distância se transforma em um close-up extremo, sem cortes ou mudanças de posição da câmera. O recurso é tão elegante quanto ousado. A vastidão do cenário estabelece o contexto, anunciando uma história que terá um desenvolvimento marcado por guinadas traiçoeiras.
Tão importante quanto a edição é a trilha sonora que acompanha o filme, considerada uma das melhoras da história do cinema. Criada pelo maestro italiano Enio Morricone, a trilha entrou para o hall da fama do Grammy Awards. E um livro inteiro foi escrito sobre sua composição, que ao lado de trilhas como a de ‘Tubarão’ e ‘Star Wars’ está entre as mais rapidamente reconhecíveis da história do cinema.
Mas o clímax é mesmo a cena do cemitério, um momento de bravura cinematográfica em que os três protagonistas (interpretados por Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach) enfrentam-se em uma área coberta de cimento. (...)
‘Três Homens em Conflito’ até hoje tem influência no cinema. Mas nenhum diretor mostrou mais apreciação ao filme que Quentin Tarantino, para quem a produção é o maior feito da história do cinema. E, fiel à cartilha de que grandes artistas ‘roubam’, o diretor americano declara seu amor ao filme de Leone em boa parte de suas produções. (...) O filme inspirou muitos outros diretores, incluindo Martin Scorsese e Robert Zemeckis. E o sucesso [do personagem] ‘pistoleiro sem some’ transformou Clint Eastwood em um astro internacional".
O que disse a crítica 1: Ritter Fan do site Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “’Três Homens em Conflito’ é uma obra-prima indispensável que merece toda a reverência daqueles que se consideram amantes da Sétima Arte. Mas o melhor é que a carreira de Leone consegue, com suas três únicas obras seguintes que dirigiria por completo, alcançar outros patamares ainda. É quase inacreditável, mas é verdade”.
O que disse a crítica 2: Roberto Siqueira do site Cinema e Debate também avaliou com 5 estrelas. Escreveu: “Representante maior do estilo western espaguete, ‘Três Homens em Conflito’ encanta pela quantidade enorme de cenas esplendidamente bem filmadas, explorando todo o potencial das paisagens do velho oeste e extraindo o máximo da trama criada, demonstrando toda a competência de Sergio Leone como diretor. Mesmo muitos anos depois de seu lançamento, ainda se mantêm como um dos maiores westerns já lançados no cinema. Com cenas inesquecíveis, momentos de extrema tensão e imagens belíssimas, o filme consegue criar empatia com o espectador e mantê-lo sempre interessado na narrativa, de uma forma absolutamente competente e imperdível”.
O que eu achei: A versão que eu vi - estendida e restaurada - dura 178m pois combina cenas extras e material recuperado. Mas existem outras versões, como a versão italiana original que dura entre 177–182m; a versão internacional criada para exibições de cinema que dura 161m e as versões editadas para a tv que possuem menos de 150m com as cenas mais violentas censuradas. Independentemente do corte, "Três Homens em Conflito" confirma por que Sergio Leone redefiniu o faroeste ao transformá-lo em uma experiência mais operística, cruel e irônica. Aqui, o Velho Oeste deixa de ser território de heróis edificantes para se tornar um campo de sobrevivência moralmente ambíguo, povoado por figuras que agem por interesse, astúcia e pura necessidade. O trio central - o pragmatismo silencioso do bom Blondie, a brutalidade calculada do mau Angel Eyes e a energia caótica do feio Tuco - funciona como um jogo permanente de forças, no qual alianças são sempre provisórias e a confiança nunca é completa. A encenação é um espetáculo à parte. Os enquadramentos amplos dos desertos, contrastados com closes extremos de olhos e mãos são incríveis. A trilha sonora de Ennio Morricone, com seus temas memoráveis e pulsação quase hipnótica, dialoga com as imagens, ampliando a sensação de mito e grandiosidade, especialmente na célebre sequência final, em que música, montagem e atuação se fundem num clímax inesquecível. Ao mesmo tempo, o filme não perde o senso de humor nem o olhar crítico sobre a violência e a guerra. O pano de fundo da Guerra Civil Americana surge menos como reconstituição histórica e mais como um cenário de absurdo e desperdício humano, diante do qual a busca obsessiva pelo ouro ganha contornos quase trágicos. Por tudo isso, "Três Homens em Conflito" permanece um marco não apenas do faroeste, mas do próprio cinema moderno: um filme que ousa dilatar o tempo, brincar com arquétipos e transformar a violência em espetáculo estilizado, sem perder sua camada de comentário humano e histórico. Uma obra que se impõe pela personalidade e pela invenção formal e que, mesmo revista hoje, mantém intacta sua capacidade de fascinar. Excelente.