
Comentário: Clint Bentley (1985) é um cineasta e roteirista norte-americano. Ele estreou como diretor com "Jockey" (2021), depois, em parceria com o roteirista e produtor Greg Kwedar, ele coescreveu "Sing Sing" (2023). "Sonhos de Trem" (2025) é o primeiro filme que vejo dele.
Cleide Klock, correspondente da rádio francesa RFI em Los Angeles, publicou uma matéria no UOL onde diz: " Ao entrar no elevador para fazer entrevistas sobre o filme 'Sonhos de Trem' (Netflix), a primeira coisa que ouvi de um jornalista americano foi: 'Qualquer frame do filme dá um quadro maravilhoso'. Ele não sabia que o diretor de fotografia era brasileiro, mas sem perceber, acabou me dando a manchete e resumiu exatamente o que tantos profissionais têm repetido sobre o trabalho de Adolpho Veloso.
O nome de Veloso circula nas principais publicações de Hollywood, entre os favoritos na corrida ao Oscar na categoria de Melhor Fotografia. (...)
Veloso, que mora em Portugal e carrega o Brasil na memória e no olhar, veio a Hollywood para participar do lançamento do filme e das campanhas de premiações. E parece ainda se surpreender com essa repercussão. 'É muito louco. Você nunca imagina, quando está filmando, que isso vai acontecer. Não é uma coisa que faz muito sentido, ao mesmo tempo, é tão surreal que eu prefiro nem pensar tanto. E é um ano extremamente difícil, com muito filme bom, acho que é um dos melhores anos do cinema nos últimos tempos', contou à RFI.
Ele confessa que, como muitos artistas, vive crises profundas durante o processo. 'É incrível ter esse reconhecimento, principalmente pela quantidade de crises profundas durante o processo, filmando, que você acha que nunca mais vai filmar na vida. A primeira vez que assisti esse filme no cinema, pensei: 'Meu Deus, isso está horrível, nunca mais vou conseguir trabalho'. E ver essa reação agora, que é o completo oposto, dá forças para seguir'.
Em 'Sonhos de Trem', dirigido por Clint Bentley e inspirado na novela de Denis Johnson, acompanhamos Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador do início do século XX, que vive longos períodos longe da família. A atmosfera é de recordações borradas, sensações e silêncios, algo que nasceu de forma muito consciente entre Clint e Adolpho. 'A gente queria muito que, ao assistir ao filme, parecesse que você estivesse vendo as memórias de alguém, quase como se encontrasse uma caixa com fotos antigas e tentasse entender a vida daquela pessoa, às vezes meio fora de ordem, e você tenta entender quem foi aquela pessoa por aquelas fotos', explica.
Filmado inteiramente no estado de Washington em apenas 29 dias, um feito raro para um longa de época, o projeto exigiu uma maratona por florestas intocadas, vales, zonas devastadas e cenários naturais extremos. A natureza no filme é praticamente uma personagem. 'Num filme de época, às vezes é difícil para quem o assiste se conectar, porque tudo é tão diferente. Então queríamos trazer mais realidade, mais conexão. Filmamos só com luz natural e uma câmera bem orgânica, como se você estivesse lembrando de algo que viveu'.
Veloso (...) encontrou na história de Grainier uma identificação imediata. 'Quando o diretor me mandou o roteiro, pensei: essa vida é basicamente a minha. Esse cara que fica meses longe de casa, trabalhando com gente que talvez nunca mais vai ver... é assim para quem faz cinema. Voltar para casa sempre é estranho, leva dias para sentir que você pertence de novo. Tem as questões de perda, de imigração, da gente ser estrangeiro numa terra diferente, e isso tem consequências'.
A trajetória até Hollywood foi, como ele mesmo diz, 'aos poucos'. Começou filmando no Brasil, trabalhou com Heitor Dhalia, assinou filmes e documentários, entre eles 'On Yoga', que chamou a atenção de Clint Bentley. Quando Bentley preparava 'Jockey' (2021), buscava justamente alguém que transitasse entre ficção e documentários. Encontrou Veloso e o contactou por e-mail. Anos depois, 'Sonhos de Trem' se tornaria o segundo filme da dupla. (...)
Quando lhe pergunto se leva algo do Brasil para seus filmes, a resposta vem quase antes da pergunta terminar: 'O nosso jeitinho'. Não no sentido estereotipado, mas na criatividade diante do impossível, no drible às burocracias rígidas de sets americanos. 'Aqui tudo é muito engessado e a gente não está acostumado com isso. Aqui, você tem uma ideia e já ouve um não: isso custa tanto, precisa disso, daquilo. E às vezes não precisa de tudo isso. Digo, e se a gente só fizer assim? E funciona'.
Conto a ele que vários jornalistas comentaram comigo espontaneamente sobre a fotografia do filme, sem saber que ele era brasileiro. Veloso abre um sorriso tímido, um pouco surpreso, um pouco orgulhoso. É o tipo de reconhecimento que o Brasil inteiro deveria ouvir. E talvez ouça, quem sabe, no palco do Oscar".
O longa já abocanhou o Critics' Choice Award na categoria Melhor Fotografia e o Prêmio AFI (American Film Institute) na categoria Melhor Filme do Ano. Agora segue rumo ao Oscar onde concorre nas categorias Filme, Roteiro Adaptado, Fotografia e Canção Original (Nick Cave e Bryce Dessner).
O que disse a crítica 1: Vitor Velloso do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "'Sonhos de Trem' é um filme guiado para produzir belas imagens, quadros perfeitos e sequências marcantes, e isso se torna problemático quando vemos cenas inteiras que são mantidas na obra apenas com o intuito de gerar um impacto visual forte, a mise-en-scène estruturada em uma lógica para guiar os personagens para a melhor luz e enquadramento. Enquanto a fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, faz o longa se movimentar junto com seu excelente trabalho (...) o filme funciona em um ritmo mais fluido, mas quando a direção reconfigura suas ideias para construir esse impacto, o longa parece artificial (...). A narração de Will Patton só transforma o filme em algo ainda mais fadado a uma fórmula".
O que disse a crítica 2: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Sonhos de Trem' chega à beira de sugerir um espírito nas árvores por onde Grainier caminha, mas cria um espírito ao passear entre elas. Tanto Robert quanto nós somos transformados em observadores, do tempo, da terra e de nós mesmos. A maior parte dos filmes existem como uma obra de arte na tela, algo que vemos e deixamos. Alguns, como 'Sonhos de Trem', fazem algo ainda mais especial. Eles destroem os limites. Vivem dentro de nós, e nos deixam viver dentro deles".
O que eu achei: Robert Grainier é o personagem chave de "Sonhos de Trem" (2025). Ele é um personagem fictício, criado por Denis Johnson no livro que deu origem ao filme, mas sua trajetória soa profundamente verdadeira porque está enraizada na história americana: a de milhares de trabalhadores anônimos que ajudaram a construir o país no início do século XX. Lenhadores e operários das ferrovias, como o próprio Robert, enfrentavam terrenos hostis, jornadas exaustivas e riscos constantes, numa era de industrialização acelerada, logo após a Guerra Civil. O filme captura esse contexto sem didatismo, deixando que ele emerja dos gestos, dos silêncios e principalmente da paisagem. O roteiro, assinado por Clint Bentley e Greg Kwedar (os mesmos de "Sing Sing") permanece fiel ao espírito poético, estranho e fragmentado do livro. Para alcançar essa autenticidade, os roteiristas viajaram pelo Noroeste do Pacífico, visitando áreas que inspiraram Johnson e ouvindo relatos de famílias ligadas a esses ofícios por gerações. Esse cuidado se traduz numa narrativa que funciona menos como uma biografia e mais como uma meditação sobre perda, passagem do tempo e transformação, como se a vida desses homens anônimos fosse apenas um ponto numa vastidão que só pode ser percebida através de uma visão mais ampla, representada no longa como um voo sobre o país ou uma visão de um astronauta a partir da lua, como sugere a transmissão televisiva de 1969 que Grainier vê na TV. É um filme extremamente delicado. Tinha tudo para escorregar para o melodrama, mas passa longe disso. Em vez de sublinhar emoções, opta por um tom contemplativo, quase silencioso, que transforma a experiência num poema em forma de cinema. É um filme lento que convida à escuta, à observação e à empatia. Um filme para alimentar a alma. A fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso e que concorre ao Oscar, é um dos grandes trunfos. O longa também disputa as estatuetas de Filme, Roteiro Adaptado e Canção Original, com a bela composição de Nick Cave e Bryce Dessner que acompanha os créditos finais. No elenco, Joel Edgerton entrega um protagonista contido e comovente, bem amparado pelos excelentes William H. Macy e Felicity Jones. Uma obra sensível, madura, profundamente humana que, com certeza, vale ser vista.
Cleide Klock, correspondente da rádio francesa RFI em Los Angeles, publicou uma matéria no UOL onde diz: " Ao entrar no elevador para fazer entrevistas sobre o filme 'Sonhos de Trem' (Netflix), a primeira coisa que ouvi de um jornalista americano foi: 'Qualquer frame do filme dá um quadro maravilhoso'. Ele não sabia que o diretor de fotografia era brasileiro, mas sem perceber, acabou me dando a manchete e resumiu exatamente o que tantos profissionais têm repetido sobre o trabalho de Adolpho Veloso.
O nome de Veloso circula nas principais publicações de Hollywood, entre os favoritos na corrida ao Oscar na categoria de Melhor Fotografia. (...)
Veloso, que mora em Portugal e carrega o Brasil na memória e no olhar, veio a Hollywood para participar do lançamento do filme e das campanhas de premiações. E parece ainda se surpreender com essa repercussão. 'É muito louco. Você nunca imagina, quando está filmando, que isso vai acontecer. Não é uma coisa que faz muito sentido, ao mesmo tempo, é tão surreal que eu prefiro nem pensar tanto. E é um ano extremamente difícil, com muito filme bom, acho que é um dos melhores anos do cinema nos últimos tempos', contou à RFI.
Ele confessa que, como muitos artistas, vive crises profundas durante o processo. 'É incrível ter esse reconhecimento, principalmente pela quantidade de crises profundas durante o processo, filmando, que você acha que nunca mais vai filmar na vida. A primeira vez que assisti esse filme no cinema, pensei: 'Meu Deus, isso está horrível, nunca mais vou conseguir trabalho'. E ver essa reação agora, que é o completo oposto, dá forças para seguir'.
Em 'Sonhos de Trem', dirigido por Clint Bentley e inspirado na novela de Denis Johnson, acompanhamos Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador do início do século XX, que vive longos períodos longe da família. A atmosfera é de recordações borradas, sensações e silêncios, algo que nasceu de forma muito consciente entre Clint e Adolpho. 'A gente queria muito que, ao assistir ao filme, parecesse que você estivesse vendo as memórias de alguém, quase como se encontrasse uma caixa com fotos antigas e tentasse entender a vida daquela pessoa, às vezes meio fora de ordem, e você tenta entender quem foi aquela pessoa por aquelas fotos', explica.
Filmado inteiramente no estado de Washington em apenas 29 dias, um feito raro para um longa de época, o projeto exigiu uma maratona por florestas intocadas, vales, zonas devastadas e cenários naturais extremos. A natureza no filme é praticamente uma personagem. 'Num filme de época, às vezes é difícil para quem o assiste se conectar, porque tudo é tão diferente. Então queríamos trazer mais realidade, mais conexão. Filmamos só com luz natural e uma câmera bem orgânica, como se você estivesse lembrando de algo que viveu'.
Veloso (...) encontrou na história de Grainier uma identificação imediata. 'Quando o diretor me mandou o roteiro, pensei: essa vida é basicamente a minha. Esse cara que fica meses longe de casa, trabalhando com gente que talvez nunca mais vai ver... é assim para quem faz cinema. Voltar para casa sempre é estranho, leva dias para sentir que você pertence de novo. Tem as questões de perda, de imigração, da gente ser estrangeiro numa terra diferente, e isso tem consequências'.
A trajetória até Hollywood foi, como ele mesmo diz, 'aos poucos'. Começou filmando no Brasil, trabalhou com Heitor Dhalia, assinou filmes e documentários, entre eles 'On Yoga', que chamou a atenção de Clint Bentley. Quando Bentley preparava 'Jockey' (2021), buscava justamente alguém que transitasse entre ficção e documentários. Encontrou Veloso e o contactou por e-mail. Anos depois, 'Sonhos de Trem' se tornaria o segundo filme da dupla. (...)
Quando lhe pergunto se leva algo do Brasil para seus filmes, a resposta vem quase antes da pergunta terminar: 'O nosso jeitinho'. Não no sentido estereotipado, mas na criatividade diante do impossível, no drible às burocracias rígidas de sets americanos. 'Aqui tudo é muito engessado e a gente não está acostumado com isso. Aqui, você tem uma ideia e já ouve um não: isso custa tanto, precisa disso, daquilo. E às vezes não precisa de tudo isso. Digo, e se a gente só fizer assim? E funciona'.
Conto a ele que vários jornalistas comentaram comigo espontaneamente sobre a fotografia do filme, sem saber que ele era brasileiro. Veloso abre um sorriso tímido, um pouco surpreso, um pouco orgulhoso. É o tipo de reconhecimento que o Brasil inteiro deveria ouvir. E talvez ouça, quem sabe, no palco do Oscar".
O longa já abocanhou o Critics' Choice Award na categoria Melhor Fotografia e o Prêmio AFI (American Film Institute) na categoria Melhor Filme do Ano. Agora segue rumo ao Oscar onde concorre nas categorias Filme, Roteiro Adaptado, Fotografia e Canção Original (Nick Cave e Bryce Dessner).
O que disse a crítica 1: Vitor Velloso do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "'Sonhos de Trem' é um filme guiado para produzir belas imagens, quadros perfeitos e sequências marcantes, e isso se torna problemático quando vemos cenas inteiras que são mantidas na obra apenas com o intuito de gerar um impacto visual forte, a mise-en-scène estruturada em uma lógica para guiar os personagens para a melhor luz e enquadramento. Enquanto a fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, faz o longa se movimentar junto com seu excelente trabalho (...) o filme funciona em um ritmo mais fluido, mas quando a direção reconfigura suas ideias para construir esse impacto, o longa parece artificial (...). A narração de Will Patton só transforma o filme em algo ainda mais fadado a uma fórmula".
O que disse a crítica 2: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Sonhos de Trem' chega à beira de sugerir um espírito nas árvores por onde Grainier caminha, mas cria um espírito ao passear entre elas. Tanto Robert quanto nós somos transformados em observadores, do tempo, da terra e de nós mesmos. A maior parte dos filmes existem como uma obra de arte na tela, algo que vemos e deixamos. Alguns, como 'Sonhos de Trem', fazem algo ainda mais especial. Eles destroem os limites. Vivem dentro de nós, e nos deixam viver dentro deles".
O que eu achei: Robert Grainier é o personagem chave de "Sonhos de Trem" (2025). Ele é um personagem fictício, criado por Denis Johnson no livro que deu origem ao filme, mas sua trajetória soa profundamente verdadeira porque está enraizada na história americana: a de milhares de trabalhadores anônimos que ajudaram a construir o país no início do século XX. Lenhadores e operários das ferrovias, como o próprio Robert, enfrentavam terrenos hostis, jornadas exaustivas e riscos constantes, numa era de industrialização acelerada, logo após a Guerra Civil. O filme captura esse contexto sem didatismo, deixando que ele emerja dos gestos, dos silêncios e principalmente da paisagem. O roteiro, assinado por Clint Bentley e Greg Kwedar (os mesmos de "Sing Sing") permanece fiel ao espírito poético, estranho e fragmentado do livro. Para alcançar essa autenticidade, os roteiristas viajaram pelo Noroeste do Pacífico, visitando áreas que inspiraram Johnson e ouvindo relatos de famílias ligadas a esses ofícios por gerações. Esse cuidado se traduz numa narrativa que funciona menos como uma biografia e mais como uma meditação sobre perda, passagem do tempo e transformação, como se a vida desses homens anônimos fosse apenas um ponto numa vastidão que só pode ser percebida através de uma visão mais ampla, representada no longa como um voo sobre o país ou uma visão de um astronauta a partir da lua, como sugere a transmissão televisiva de 1969 que Grainier vê na TV. É um filme extremamente delicado. Tinha tudo para escorregar para o melodrama, mas passa longe disso. Em vez de sublinhar emoções, opta por um tom contemplativo, quase silencioso, que transforma a experiência num poema em forma de cinema. É um filme lento que convida à escuta, à observação e à empatia. Um filme para alimentar a alma. A fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso e que concorre ao Oscar, é um dos grandes trunfos. O longa também disputa as estatuetas de Filme, Roteiro Adaptado e Canção Original, com a bela composição de Nick Cave e Bryce Dessner que acompanha os créditos finais. No elenco, Joel Edgerton entrega um protagonista contido e comovente, bem amparado pelos excelentes William H. Macy e Felicity Jones. Uma obra sensível, madura, profundamente humana que, com certeza, vale ser vista.