24.1.26

“Kung Fu Panda 4” – Mike Mitchell (EUA, 2024)

Sinopse:
Po precisa encontrar e treinar um novo Dragão Guerreiro depois de ser escolhido como o Líder Espiritual do Vale da Paz. No entanto, ele sequer imagina que uma feiticeira perversa está tentando trazer todos os vilões-mestres já derrotados por Po diretamente do reino espiritual.
Comentário: A saga “Kung Fu Panda”, gira em torno do atrapalhado Po Ping, um urso panda filho de um ganso, apaixonado por artes marciais, mais especificamente pelo kung fu. Ele quer criar um estilo de luta próprio, mas não parece levar lá muito jeito já que como todo panda ele é gorducho e preguiçoso.
Em “Kung Fu Panda 1” (2008), a primeira animação da série, estamos na China da antiguidade. Po trabalha na loja de macarrão da sua família e sonha em transformar-se em um mestre de kung fu. Seu sonho se torna realidade quando, inesperadamente, deve cumprir uma profecia antiga e estudar a arte marcial com seus ídolos, os Cinco Furiosos: um grupo de mestres composto pelos sábios Macaco, Louva-A-Deus, Víbora, Garça e Tigresa. Po precisa de toda a sabedoria, força e habilidade que conseguir reunir para proteger seu povo de um leopardo da neve malvado.
Na sequência veio “Kung Fu Panda 2” (2011). Po, que já se tornou um Dragão Guerreiro e é um habilidoso lutador de artes marciais, enfrenta um antigo inimigo, agora ainda mais mortal: um pavão misterioso chamado Lorde Shen, que acredita numa profecia que afirma que sua derrocada virá das mãos daquele que combina o preto com o branco, o claro com o escuro. Do lado do panda, além dos quatro furiosos, vão se juntar o Crocodilo, Rino Trovão e Boi Toró. É neste longa que ficamos sabendo que Po é adotado e o que, de fato, aconteceu com seus pais.
A terceira animação, “Kung Fu Panda 3” (2016), mostrou Po reencontrando seu verdadeiro pai, há muito desaparecido. Os dois seguem até um vilarejo paradisíaco habitado apenas por pandas. No entanto, logo são ameaçados pela proximidade do iaque Kai, um vilão sobrenatural que vem cruzando a China e derrotando todos os mestres em kung fu. Po precisou então treinar os amáveis pandas do lugar para se tornarem guerreiros e defenderem-se de Kai, deixando de ocupar a posição de aluno para lecionar.
E agora finalmente temos “Kung Fu Panda 4” (2024), também da DreamWorks Animation e distribuído pela Universal Pictures. A trama é a seguinte: depois de três aventuras arriscando sua própria vida para derrotar os mais poderosos vilões, Po, o Grande Dragão Guerreiro, é escolhido para se tornar o Líder Espiritual do Vale da Paz. A escolha em si já é problemática ao colocar o mestre de kung fu mais improvável do mundo em um cargo como esse e além disso, ele precisa encontrar e treinar um novo Dragão Guerreiro antes de assumir a honrada posição. Enquanto ele tenta compreender que precisará deixar a sua função para dar um novo passo em sua jornada, ele se depara com Zhen, uma raposa com muitas habilidades que parece ser a aposta ideal para ser treinada, mas que não gosta muito desta ideia. Como se os desafios já não fossem o bastante, a Camaleoa, uma feiticeira perversa, tenta trazer de volta todos os vilões derrotados por Po do reino espiritual.
Célio Silva do site G1 nos diz que “Depois que ‘Kung Fu Panda 3’ (...), parecia que a franquia iria terminar. Dava a impressão de que a série não tinha mais o que mostrar para o público. Mas em Hollywood, finais são relativos. Por isso, depois de oito anos, [surge] ‘Kung Fu Panda 4’. Ao contrário dos filmes anteriores, que traziam algo de diferente para a franquia na parte técnica ou no enredo, ‘Kung Fu Panda 4’ quase não tem novidades. Quase tudo já foi visto antes, na série ou em outras animações. O diretor Mike Mitchel, (...) não parece estar preocupado em adicionar elementos para tornar seu filme mais original. Assim, o cineasta e sua equipe de animadores reaproveitam cenas de luta dos personagens que deram certo no passado e que devem agradar aos fãs menos exigentes”.
O longa concorreu à Melhor Animação no Oscar 2025 perdendo para “Flow” (2024).
O que disse a crítica 1: Odie Henderson, do The Boston Globe, não gostou. Ele expressou desapontamento com a vilã e as sequências de ação do filme, concluindo: "Gostei das três primeiras aventuras do Dragão Guerreiro, mas a melhor coisa que ele pode fazer agora é dar a esta série um skadoosh [um fim] muito necessário, enviando-a para descansar no reino espiritual cinematográfico”.
O que disse a crítica 2: Frank Scheck do The Hollywood Reporter gostou. Escreveu: "Com seus novos cenários e personagens, incluindo o vencedor do Oscar Ke Huy Quan como um pangolim líder de um covil de ladrões e Ronnie Chieng como um peixe que vive na boca de um pelicano, ‘Kung Fu Panda 4’ visa claramente revigorar a franquia. Mas é realmente mais do mesmo, o que não é uma coisa tão ruim quando você considera que a série arrecadou cerca de 1,8 bilhão de dólares até agora (e isso sem incluir os projetos spin-off, incluindo várias séries de televisão e vídeos jogos). Seu apelo ainda reside em grande parte na performance vocal hilária de Black, que não perdeu nada de seu charme”.
O que eu achei: “Kung Fu Panda 4” (2024) se apresenta como o mais recente - e quem sabe último - capítulo de uma franquia iniciada em 2008 com uma animação surpreendentemente sensível e espirituosa. Se as continuações já haviam perdido parte do frescor, esta quarta entrada vai além: ela repete fórmulas e é relativamente confusa, como se nem o próprio filme soubesse muito bem para onde quer ir. É difícil não pensar em como isso é comum em franquias cujo primeiro filme dá muito certo - e esse foi, sem dúvida, o caso de “Kung Fu Panda”. A obra original combinava humor, carisma e uma delicada dimensão espiritual, algo raro em animações comerciais. Aqui, essa camada mais reflexiva simplesmente desaparece. Em seu lugar, restam sequências de ação frenéticas, montadas para manter tudo em constante movimento, mas sem verdadeiro impacto dramático. A sensação é de um filme que luta para justificar a própria existência. Falta-lhe a inteligência calorosa e a inventividade visual do primeiro, substituídas por uma narrativa apressada e personagens que parecem cumprir funções mecânicas dentro do roteiro. Nem mesmo as piadas, antes um dos grandes trunfos da série, conseguem funcionar: são previsíveis, pouco inspiradas e raramente arrancam mais do que um sorriso automático. É notória a ausência de entusiasmo por quem desenvolveu o roteiro. Nada aqui soa urgente, criativo ou realmente necessário. Tudo parece protocolar, como se a franquia estivesse apenas cumprindo tabela, sustentada pela ideia de faturar mais um pouco aproveitando-se do reconhecimento da marca e não por uma ideia forte que justificasse um novo capítulo. No fim, “Kung Fu Panda 4” acaba sendo indicado apenas para um público muito pouco exigente. Para quem guarda alguma memória afetiva do primeiro filme, o resultado tende mais à frustração do que à nostalgia.