
Comentário: David Cronenberg (1943) é um cineasta canadense que capturou em seus filmes, por meio de um estilo único, as paranoias sociais e relacionadas ao corpo dos nossos tempos. Assisti dele os excelentes "Marcas da Violência" (2005), "Senhores do Crime" (2007), "Mapa para as Estrelas" (2014) e "Crimes do Futuro" (2022), os bons "A Hora da Zona Morta" (1983), "Crash - Estranhos Prazeres" (1996), "eXistenZ" (1999), "Um Método Perigoso" (2011) e "Cosmópolis" (2012) e o mediano "O Senhor dos Mortos" (2025). Desta vez vou conferir "Scanners - Sua Mente Pode Destruir" (1981).
Leonardo Campos do site Plano Crítico escreveu: "Em 1981, David Cronenberg já possuía mais prestígio dentro do espaço de produção cinematográfica. Os seus filmes respeitavam determinadas convenções narrativas 'autorais', originados de uma postura realizadora que buscou fazer diferente em um campo similar ao de produção hollywoodiana, mostrando-se refratário aos cânones impostos pela indústria, com produções que trafegavam na contramão do tradicional, numa atitude que lhe permitiu conquistar uma dimensão mais vasta de público, além de não ser unanimidade e permitir uma vasta abertura na recepção de suas obras, ainda reinterpretadas décadas depois de lançadas.
Desde 'Stereo', veiculado em 1969, o cineasta se empenhou em apresentar reflexões sobre a subjetividade das relações entre tecnologia e o corpo humano, tema que podemos observar em 'Calafrios', 'Enraivecida na Fúria do Sexo' e 'Filhos do Medo', as suas produções até 1981, temática expandida que percorre toda a sua carreira, em nuances diferenciadas, mas convergentes, sendo o frenético 'Scanners – Sua Mente Pode Destruir', uma das reflexões que representam esse campo de interação conflitante, isto é, a aproximação e a repulsa entre o homem e a máquina, o 'tradicional' e a 'nova ordem'.
Mas, afinal, quem e o que são os scanners? Capazes de interagir por telepatia e ocasionar o controle mental alheio, as figuras em questão possuem capacidades extra-sensoriais. Podem ler a mente, comandar atos alheios e até mesmo destruir pessoas fisicamente. Criados após uma experiência laboratorial que perde o controle, conflito dramático que embase boa parte dos filmes na carreira de Cronenberg, os scanners se unificam como uma organização terrorista, tendo como foco a quintessência da ficção cientifica: a dominação e o poder.
Também responsável pelo roteiro, David Cronenberg nos apresenta o mundo dos scanners em detalhes, 'criaturas' que conforme (…) mencionado, detém poderes telecinéticos e telepáticos incomuns. Uma corporação intitulada CONSEC busca incessantemente pessoas para as suas experiências e vai encontrar em Darryl Revok (Michael Ironside) uma espécie de 'herói da resistência maligna'. Renegado, Revok também é scanner, mas promove uma guerra contra as investidas da empresa. Para detê-lo, a CONSEC envia outro scanner, Cameron Vale (Stephen Lack), personagem que chega para estabelecer a 'guerra de titãs' ao longo dos 103 minutos de vastas cenas de ação, explosão e morte.
Ao acompanhar essa jornada que sai do discurso visceral direto para a o conflito mental no que tange aos processos de transformação dos indivíduos, somos informados que o Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan) desenvolveu experiências com ephemerol, um medicamento altamente perigoso injetado em mulheres grávidas. Tal como esperado, o procedimento traz terríveis efeitos colaterais, pois essa substância permite o surgimento de novos scanners, algo que faz aumentar as chances das estratégias de dominação organizadas por Revok, o 'malvado', contrário ao bondoso e ético Cameron, o scanner comandado a 'fazer a coisa certa'.
Aqui, a mutação da identidade não está exatamente na transformação do corpo de um ou mais indivíduos, mas na projeção no 'outro'. Numa leitura que faz o nariz do objeto de análise sangrar, os 'monstros' de 'Scanners – Sua Mente Pode Destruir' trafegam pela hibridização dos corpos pela via mental. O cérebro é o foco da narrativa, seu ponto nevrálgico. Dentre tantas cenas, a passagem com a virtualização da mente quando um scanner lê o conteúdo de uma ligação é deveras interessante e condizente com a panorâmica temática do filme focado na relação entre corpo, mente e máquinas. A personagem Kim (Jennifer O’Neill) cumpre a missão de interagir com o 'mocinho' no combate com o 'monstro', elo comercial para permitir maior adesão das plateias, nem sempre interessadas em tramas herméticas demais.
Esse espetáculo que promove o corpo e a mente como partes integrantes de uma guerra muito além do simbólico é orquestrado por um cineasta que flerta de maneira eficiente com a linguagem do vídeo, afinal, 'Scanners – A Sua Mente Pode Destruir' é um filme sobre a era do vídeo, bem como antecipação de questões abordadas em 'Videodrome – A Síndrome do Vídeo', sua realização subsequente, igualmente polêmica, complexa e com debates ainda muito atuais. Em suma: pertinente".
O design de som é de Peter Burgess, a edição é de Ronald Sanders, a supervisão de maquiagem e efeitos especiais é de Dick Smith, o design de produção é de Carol Spier e a direção de fotografia de Mark Irwin.
O que disse a crítica 1: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "Como um filme ruim pode ser tão bom? É possível algo rudimentar e simplista ser, de fato, instigante e delicioso de assistir? (...) Quando há extremado talento, como no caso de David Cronenberg, até mesmo em realizações tortas abundam lampejos magistrais que teimam em contradizer chavões e obviedades. Alguns momentos geralmente não salvam o todo, mas em se tratando de 'Scanners: Sua Mente Pode Destruir', como ficar alheio, por exemplo, à visceralidade da ligação psíquica homem/máquina (premonição?) ocorrida em dado momento, e mesmo ao bloco final que, a despeito de sua inocuidade enquanto manifestação (e fraco justamente pela revelação 'sem peso'), traz inesquecível duelo psíquico, cujas maiores vítimas são, vejam só, os corpos?"
O que disse a crítica 2: Gabriel Paixão do site Boca do Inferno avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "O que torna 'Scanners' um grande filme é a complexidade dos personagens: nenhum deles é totalmente bom ou ruim, eles apenas têm motivações diferentes para seus atos, bem próximo da realidade. As interpretações são convincentes, com destaque para Michael Ironside, perfeito para o papel de Darryl Ravok, ficando difícil imaginar como seria outro em seu lugar. E a atmosfera de tensão criada por Cronenberg causada pela ameaça iminente de uma conspiração é outro grande feito do filme".
O que eu achei: David Cronenberg sempre demonstrou pouco interesse pelo horror como algo externo ou sobrenatural. Seus filmes preferem investigar o medo que nasce do cotidiano e da própria condição humana: a televisão, os automóveis, a ciência que corrompe a carne. Em "Scanners – Sua Mente Pode Destruir" (1981), esse terror emerge da mente, mais especificamente de poderes parapsicológicos induzidos por medicamentos, transformando o inconsciente em uma arma imprevisível. A premissa é direta e perturbadora: indivíduos conhecidos como 'scanners' possuem a capacidade de invadir, manipular e literalmente destruir outras pessoas. Cronenberg trata essa habilidade não como dom, mas como maldição, uma força difícil de controlar e potencialmente devastadora. A famosa cena da explosão da cabeça, que se tornou ícone do cinema de horror dos anos 1980, funciona como uma síntese do que o filme propõe: a ideia de que o pensamento, quando levado ao limite, pode ser tão violento quanto qualquer arma física. No entanto, "Scanners" também revela algumas fragilidades. Apesar do sucesso comercial e do status cult adquirido ao longo dos anos, o próprio Cronenberg reconheceu problemas na narrativa. Isso fica evidente na condução do roteiro, que por vezes parece irregular no desenvolvimento dos personagens. A mitologia envolvendo corporações, experimentos médicos e conflitos ideológicos entre scanners é instigante, mas nem sempre bem articulada, dando a sensação de que o filme lança ideias mais interessantes do que consegue aprofundar. Ainda assim, há mérito na forma como Cronenberg articula temas recorrentes de sua filmografia: o medo da ciência fora de controle, a invasão do corpo e da mente, e a fragilidade das fronteiras entre o humano e aquilo que ele próprio cria. "Scanners" talvez não tenha a coesão narrativa de obras posteriores do diretor, mas já aponta com clareza sua obsessão pelo horror que nasce de dentro, um horror silencioso, cotidiano e inevitável. O filme fez tanto sucesso que ganhou duas continuações: "Scanners II: The New Order" (1991) e "Scanners III: The Takeover" (1992), ambas dirigidas por Christian Duguay sem o envolvimento criativo de Cronenberg. Quem viu, disse que ambas tem um apelo mais comercial, não chegando nem aos pés da do Cronenberg. Boa pedida.
Leonardo Campos do site Plano Crítico escreveu: "Em 1981, David Cronenberg já possuía mais prestígio dentro do espaço de produção cinematográfica. Os seus filmes respeitavam determinadas convenções narrativas 'autorais', originados de uma postura realizadora que buscou fazer diferente em um campo similar ao de produção hollywoodiana, mostrando-se refratário aos cânones impostos pela indústria, com produções que trafegavam na contramão do tradicional, numa atitude que lhe permitiu conquistar uma dimensão mais vasta de público, além de não ser unanimidade e permitir uma vasta abertura na recepção de suas obras, ainda reinterpretadas décadas depois de lançadas.
Desde 'Stereo', veiculado em 1969, o cineasta se empenhou em apresentar reflexões sobre a subjetividade das relações entre tecnologia e o corpo humano, tema que podemos observar em 'Calafrios', 'Enraivecida na Fúria do Sexo' e 'Filhos do Medo', as suas produções até 1981, temática expandida que percorre toda a sua carreira, em nuances diferenciadas, mas convergentes, sendo o frenético 'Scanners – Sua Mente Pode Destruir', uma das reflexões que representam esse campo de interação conflitante, isto é, a aproximação e a repulsa entre o homem e a máquina, o 'tradicional' e a 'nova ordem'.
Mas, afinal, quem e o que são os scanners? Capazes de interagir por telepatia e ocasionar o controle mental alheio, as figuras em questão possuem capacidades extra-sensoriais. Podem ler a mente, comandar atos alheios e até mesmo destruir pessoas fisicamente. Criados após uma experiência laboratorial que perde o controle, conflito dramático que embase boa parte dos filmes na carreira de Cronenberg, os scanners se unificam como uma organização terrorista, tendo como foco a quintessência da ficção cientifica: a dominação e o poder.
Também responsável pelo roteiro, David Cronenberg nos apresenta o mundo dos scanners em detalhes, 'criaturas' que conforme (…) mencionado, detém poderes telecinéticos e telepáticos incomuns. Uma corporação intitulada CONSEC busca incessantemente pessoas para as suas experiências e vai encontrar em Darryl Revok (Michael Ironside) uma espécie de 'herói da resistência maligna'. Renegado, Revok também é scanner, mas promove uma guerra contra as investidas da empresa. Para detê-lo, a CONSEC envia outro scanner, Cameron Vale (Stephen Lack), personagem que chega para estabelecer a 'guerra de titãs' ao longo dos 103 minutos de vastas cenas de ação, explosão e morte.
Ao acompanhar essa jornada que sai do discurso visceral direto para a o conflito mental no que tange aos processos de transformação dos indivíduos, somos informados que o Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan) desenvolveu experiências com ephemerol, um medicamento altamente perigoso injetado em mulheres grávidas. Tal como esperado, o procedimento traz terríveis efeitos colaterais, pois essa substância permite o surgimento de novos scanners, algo que faz aumentar as chances das estratégias de dominação organizadas por Revok, o 'malvado', contrário ao bondoso e ético Cameron, o scanner comandado a 'fazer a coisa certa'.
Aqui, a mutação da identidade não está exatamente na transformação do corpo de um ou mais indivíduos, mas na projeção no 'outro'. Numa leitura que faz o nariz do objeto de análise sangrar, os 'monstros' de 'Scanners – Sua Mente Pode Destruir' trafegam pela hibridização dos corpos pela via mental. O cérebro é o foco da narrativa, seu ponto nevrálgico. Dentre tantas cenas, a passagem com a virtualização da mente quando um scanner lê o conteúdo de uma ligação é deveras interessante e condizente com a panorâmica temática do filme focado na relação entre corpo, mente e máquinas. A personagem Kim (Jennifer O’Neill) cumpre a missão de interagir com o 'mocinho' no combate com o 'monstro', elo comercial para permitir maior adesão das plateias, nem sempre interessadas em tramas herméticas demais.
Esse espetáculo que promove o corpo e a mente como partes integrantes de uma guerra muito além do simbólico é orquestrado por um cineasta que flerta de maneira eficiente com a linguagem do vídeo, afinal, 'Scanners – A Sua Mente Pode Destruir' é um filme sobre a era do vídeo, bem como antecipação de questões abordadas em 'Videodrome – A Síndrome do Vídeo', sua realização subsequente, igualmente polêmica, complexa e com debates ainda muito atuais. Em suma: pertinente".
O design de som é de Peter Burgess, a edição é de Ronald Sanders, a supervisão de maquiagem e efeitos especiais é de Dick Smith, o design de produção é de Carol Spier e a direção de fotografia de Mark Irwin.
O que disse a crítica 1: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "Como um filme ruim pode ser tão bom? É possível algo rudimentar e simplista ser, de fato, instigante e delicioso de assistir? (...) Quando há extremado talento, como no caso de David Cronenberg, até mesmo em realizações tortas abundam lampejos magistrais que teimam em contradizer chavões e obviedades. Alguns momentos geralmente não salvam o todo, mas em se tratando de 'Scanners: Sua Mente Pode Destruir', como ficar alheio, por exemplo, à visceralidade da ligação psíquica homem/máquina (premonição?) ocorrida em dado momento, e mesmo ao bloco final que, a despeito de sua inocuidade enquanto manifestação (e fraco justamente pela revelação 'sem peso'), traz inesquecível duelo psíquico, cujas maiores vítimas são, vejam só, os corpos?"
O que disse a crítica 2: Gabriel Paixão do site Boca do Inferno avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "O que torna 'Scanners' um grande filme é a complexidade dos personagens: nenhum deles é totalmente bom ou ruim, eles apenas têm motivações diferentes para seus atos, bem próximo da realidade. As interpretações são convincentes, com destaque para Michael Ironside, perfeito para o papel de Darryl Ravok, ficando difícil imaginar como seria outro em seu lugar. E a atmosfera de tensão criada por Cronenberg causada pela ameaça iminente de uma conspiração é outro grande feito do filme".
O que eu achei: David Cronenberg sempre demonstrou pouco interesse pelo horror como algo externo ou sobrenatural. Seus filmes preferem investigar o medo que nasce do cotidiano e da própria condição humana: a televisão, os automóveis, a ciência que corrompe a carne. Em "Scanners – Sua Mente Pode Destruir" (1981), esse terror emerge da mente, mais especificamente de poderes parapsicológicos induzidos por medicamentos, transformando o inconsciente em uma arma imprevisível. A premissa é direta e perturbadora: indivíduos conhecidos como 'scanners' possuem a capacidade de invadir, manipular e literalmente destruir outras pessoas. Cronenberg trata essa habilidade não como dom, mas como maldição, uma força difícil de controlar e potencialmente devastadora. A famosa cena da explosão da cabeça, que se tornou ícone do cinema de horror dos anos 1980, funciona como uma síntese do que o filme propõe: a ideia de que o pensamento, quando levado ao limite, pode ser tão violento quanto qualquer arma física. No entanto, "Scanners" também revela algumas fragilidades. Apesar do sucesso comercial e do status cult adquirido ao longo dos anos, o próprio Cronenberg reconheceu problemas na narrativa. Isso fica evidente na condução do roteiro, que por vezes parece irregular no desenvolvimento dos personagens. A mitologia envolvendo corporações, experimentos médicos e conflitos ideológicos entre scanners é instigante, mas nem sempre bem articulada, dando a sensação de que o filme lança ideias mais interessantes do que consegue aprofundar. Ainda assim, há mérito na forma como Cronenberg articula temas recorrentes de sua filmografia: o medo da ciência fora de controle, a invasão do corpo e da mente, e a fragilidade das fronteiras entre o humano e aquilo que ele próprio cria. "Scanners" talvez não tenha a coesão narrativa de obras posteriores do diretor, mas já aponta com clareza sua obsessão pelo horror que nasce de dentro, um horror silencioso, cotidiano e inevitável. O filme fez tanto sucesso que ganhou duas continuações: "Scanners II: The New Order" (1991) e "Scanners III: The Takeover" (1992), ambas dirigidas por Christian Duguay sem o envolvimento criativo de Cronenberg. Quem viu, disse que ambas tem um apelo mais comercial, não chegando nem aos pés da do Cronenberg. Boa pedida.