18.1.26

“Misericórdia” - Alain Guiraudie (França/Espanha/Portugal, 2024)

Sinopse:
 
Jérémie (Félix Kysyl) volta à sua cidade natal para o funeral do seu antigo patrão (Serge Richard), o padeiro do vilarejo. Ao chegar, ele decide permanecer por mais algum tempo ao lado de Martine (Catherine Frot), a viúva do homem. Essa presença acaba perturbando o ambiente ao criar uma desavença com o filho da mulher, Vincent (Jean-Baptiste Durand).
Comentário: Alain Guiraudie (1964) é um escritor, cineasta, ator e roteirista francês. Seu quarto longa, "Um Estranho no Lago" (2012), recebeu o prêmio de Melhor Diretor na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes. "Na Vertical" (2016) concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes. "Um Herói Anônimo" (2022) foi o filme de abertura da mostra Panorama na Berlinale 2022. “Misericórdia” (2024) é o primeiro filme que vejo dele.
Jorge Pereira Rosa do site C7nema nos conta que "Começando com um funeral e terminando num cemitério, 'Misericórdia' segue Jérémie, que retorna a Saint-Martial para o funeral de um antigo chefe. Ele fica alojado com Martine, a viúva, por alguns dias, mas entre um desaparecimento misterioso (...) e um abade com intenções estranhas, a sua curta estadia na vila toma um rumo inesperado.
'Os meus filmes são sempre povoados por eventos improváveis, num cinema que faço também improvável', disse o cineasta ao C7nema (...) numa entrevista por ocasião do Rendez-vous d’Unifrance à Paris. 'Se contar a alguém a história do meu filme sem que o vejam, as pessoas vão desconfiar. Mas procuro sempre neles uma fidelidade ao real. O filme tem que ter a sua própria coerência. (…) Os personagens vêm diretamente da minha experiência juvenil no interior rural francês, mas são de alguma forma intemporais [invariável, eterno, perene]'.
Assumindo a importância de Pedro Almodóvar em toda a sua carreira, mas apontando 'o vaudeville, Hitchcock e Fritz Lang' como as principais referências para este 'Misericórdia', Guiraudie relembra que 'morte e desejo são elementos que funcionam bem no cinema' e que o grande motor do seu filme é o mistério. 'E dois dos grandes mistérios da vida são a morte e o desejo', dispara, afastando a ideia de alguns críticos e espectadores que evocaram Pasolini e 'Teorema' (1968) como inspiração para 'Misericórdia': 'Não é uma referência e quando fiz o filme não pensei no 'Teorema', que por acaso nem é o que mais aprecio dos seus filmes', explica o cineasta. 'Depois de lançar o filme e de me falarem da obra do Pasolini, fiz o exercício de procurar no 'Misericórdia' o 'Teorema', chegando à conclusão que é exatamente o contrário dele. O protagonista não dorme com ninguém, enquanto o de Teorema dorme com todos; não temos uma família burguesa, nem tão pouco proletária, mas no campo popular; o jogo do desejo no filme do Pasolini é colocado numa forma teórica que implodirá com a família burguesa, no meu temos um arranjo familiar mais bizarro. Até mesmo o final do meu filme é o contrário do Pasolini. Na verdade, esse filme funciona como uma contrarreferência'.
Félix Kysyl, que o cineasta descobriu há 10 anos através do casting de um filme que não fez, assumiu em 'Misericórdia' o seu primeiro papel como protagonista, sendo acompanhado no elenco por Catherine Frot, que o cineasta pensou imediatamente quando estava escrevendo o roteiro: 'Habitualmente a vemos em comédias descaradas, mas, para mim, é uma das raras estrelas francesas, uma diva, que consegue com autenticidade passar pela trabalhadora de uma padaria numa pequena vila. Não conseguiria pôr a Catherine Deneuve ou a Isabelle Huppert nesse papel, pois transmitem uma ideia mais burguesa. Por causa disso pensei muito rapidamente na Catherine Frot, por este seu lado popular. E isso dá também credibilidade ao filme. Tenho sempre medo das escolhas pois penso sempre se os atores escolhidos funcionam naquele papel e são críveis. Foi muito agradável trabalhar com ela e acho que ela assumiu muito bem a personagem, que às vezes pisa o terreno do maligno, mas também da sinceridade e frontalidade'".
O filme foi eleito pelos críticos e pelos leitores da revista Cahiers du Cinéma como o melhor de 2024.
O que disse a crítica 1: Victor Russo do site Filmes & Filmes avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: "O que torna 'Misericórdia' tão delicioso e inesquecível é como Guiraudie molda essa narrativa hitchcockiana a partir de um personagem que veste várias máscaras, enquanto parece sentir algum remorso por suas atitudes, nos gritos dormindo ou a possibilidade de suicídio (ou seria essa uma outra persona só para nos manipular?), tudo isso dentro de uma dinâmica de humor extremamente saborosa, o riso pelo inesperado e pelo nervoso da improvisação".
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Esta capacidade de provocar o espectador sem recorrer ao choque, nem o espetáculo em modo clickbait [técnica de marketing que utiliza imagens sensacionalistas e exageradas para gerar curiosidade e atrair o maior número possível de cliques em um link] (...) faz de 'Misericórdia' uma obra muito especial, provocadora, embora permaneça simples, linear, acessível em sua compreensão de ações e atividades. Dispensando estripulias de direção e recursos vaidosos de roteiro, Guiraudie propõe um filme discretamente genial".
O que eu achei: Esta frase dita pelo próprio diretor Alain Guiraudie resume bem a experiência: “Os meus filmes são sempre povoados por eventos improváveis, num cinema que faço também improvável”. A premissa é simples e crível: um rapaz volta à sua cidade natal para o funeral do antigo patrão, o padeiro do vilarejo, e decide permanecer por mais alguns dias ao lado da viúva, apesar do claro descontentamento do filho do falecido. O que ocorre durante essa estadia, porém, é altamente improvável, pouco usual e instigante, gerando estranhamento a cada ação e a cada diálogo. Se por um lado isso provoca um certo desconforto no espectador - te fazendo pensar "será que estou gostando disso?" - por outro ele nos faz pensar em como o filme dialoga com a questão da inovação na arte. Pintar hoje como Michelangelo pintava no século XVI é belo e confortável para quem vê, mas o que haveria de novo nesse gesto na atualidade? Não estaria justamente na capacidade de fazer diferente, de deslocar expectativas, o grande trunfo de uma obra de arte contemporânea? É por aí que o filme mostra seu valor. Prepare-se para decodificar um grande volume de diálogos peculiares, que mantêm a atenção do começo ao fim, enquanto tentamos adivinhar até onde esse roteiro fascinante e original vai chegar. Se há algum conforto, ele vem da fotografia, que explora ao máximo as belas paisagens da pequena vila francesa e a natureza outonal ao redor. O resto é desafio.