1.1.26

“Arca de Noé” – Alois Di Leo & Sérgio Machado (Brasil/Índia, 2024)

Sinopse:
Tom, um guitarrista talentoso e pragmático, e Vini, um poeta romântico e sonhador, são uma dupla carismática e caótica de ratos. Quando o grande dilúvio se aproxima, apenas um macho e uma fêmea de cada espécie são permitidos na Arca de Noé. Tom consegue entrar, mas Vini fica para fora e vai precisar de uma boa sorte do destino para se juntar ao amigo.
Comentário: Ana Raquel Lelles do site Metrópoles nos conta que a animação foi inspirada por poemas de Vinicius de Moraes. Segundo ela, “o filme conta a história de Tom e Vini - em referência a Tom Jobim e Vinicius - uma dupla de ratinhos que embarcam na arca de Noé. A obra, que é um musical, tem canções dos discos Arca de Noé 1 e 2, do eterno Poetinha.
Dirigido por Alois Di Leo e Sérgio Machado, o elenco também é de peso: Rodrigo Santoro, Marcelo Adnet, Alice Braga, Júlio Andrade e Lázaro Ramos são os protagonistas. Outros artistas também dublam personagens, como Ingrid Guimarães, Adriana Calcanhotto e o casal Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso.
‘A ideia de levar ‘Arca de Noé‘ para o cinema veio da Susana, filha mais velha do Vinicius, ela procurou o Walter Salles e a mim com o desejo de transformar as canções e poemas que fazem parte do imaginário brasileiro há décadas, num longa de animação. Foi um sonho acalentado por nós durante anos. Quando ficou pronto, foi uma grata surpresa descobrir o quanto a poesia de Vinicius é internacional, já que o filme foi vendido praticamente pro mundo inteiro, incluindo países como Camboja e Vietnã’, comenta o diretor Sérgio Machado.
Machado destaca que essa é a maior animação brasileira já produzida com coprodução internacional. ‘O desafio de fazer um projeto à altura da obra do Vinicius nos instigou desde o início. Desde o começo havia uma vontade de fazer um filme o mais aberto possível, não poupamos esforços, foram mais de uma centena de animadores, no Brasil, Estados Unidos e Índia trabalhando para viabilizar o projeto’, afirma Sérgio Machado”.
A história da animação segue a base da trama bíblica da Arca de Noé, mas com algumas alterações. A principal delas são os protagonistas: os ratinhos Tom e Vini que, na proximidade de um grande dilúvio em que podem entrar na arca apenas um macho e uma fêmea, os dois tentam dar um jeito de sobreviver e entrarem juntos na arca, precisando ainda enfrentar o leão controlador Baruk. Em meio a isso, convivem com diversos outros animais e a busca por se manter um longo tempo no mar com pouca comida.
O que disse a crítica 1: Robledo Milani do site Papo de Cinema avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: “Se a dupla diminuta tinha tudo para ser o destaque em participações pontuais e envolventes, esse potencial logo se dissipa pela presença constante de ambos. (...) Em um elenco de dubladores gigante – e muitas vezes subaproveitado – quem consegue dizer a que veio é mesmo Lázaro Ramos (leão) e Alice Braga (como a menina Nina, o elo humano com os animais), seja pela experiência que demonstram na função, pela desenvoltura e trabalho criativo que empregam em suas vozes e pelas figuras curiosas que ajudam a criar”.
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com o equivalente a 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “A animação representa uma tentativa importantíssima de estabelecer um filme do meio, capaz de dialogar com crítica e público, ou seja, de promover reflexão crítica enquanto diverte com acenos à cultura pop e à música brasileira. Os diretores (...) não ignoram nenhuma parcela da sociedade, compreendendo a necessidade de abraçar tanto os grupos modernos quanto os conservadores, tanto a cultura popular quanto a erudita, tanto a Bíblia quanto a comunidade LGBQTIA+”.
O que eu achei: Inspirado em poemas de Vinícius de Moraes e em canções dos discos Arca de Noé 1 e 2, o longa de animação dirigido por Alois Di Leo e Sérgio Machado propõe uma releitura livre e contemporânea da conhecida narrativa bíblica do dilúvio. A ideia de atualizar esse imaginário, mesclando música, humor e temas atuais como identidade de gênero e convivência é, em princípio, interessante e coerente com o espírito lúdico da obra de Vinícius. No entanto, o resultado final oscila entre momentos inventivos e outros menos envolventes, o que faz com que o filme funcione mais como uma experiência simpática do que propriamente marcante. A presença das canções dos álbuns é um dos pontos altos do filme, conferindo charme e certo apelo nostálgico à narrativa. Ainda assim, a adaptação opta por um tom bastante livre em relação à história bíblica original, o que acabou gerando forte reação de parte do público cristão. A transformação da arca em um espaço quase alegórico, a humanização e a  caricaturização de figuras tradicionais e o humor aplicado a temas religiosos foram vistos por alguns como uma descaracterização do texto sagrado. A polêmica se intensificou com acusações de que o filme conteria mensagens consideradas inadequadas por setores mais conservadores, especialmente às alusões feitas a questões de gênero e sexualidade. Embora essas leituras estejam mais ligadas a interpretações subjetivas do que a elementos explícitos da narrativa, elas ajudaram a alimentar um debate maior sobre os limites entre liberdade criativa e respeito à tradição religiosa. Nesse sentido, "Arca de Noé" (2024) acabou sendo menos discutido como obra artística e mais como objeto de disputa simbólica. Do ponto de vista cinematográfico, o filme é irregular. A animação tem momentos visualmente interessantes, mas também sofre com o ritmo instável, o que faz com que a atenção do espectador se disperse em diversos trechos. A proposta é charmosa, mas nem sempre consegue sustentar o encantamento do início ao fim.