10.1.26

"Anselm – O Barulho do Tempo" - Wim Wenders (França/Alemanha, 2023)

Sinopse:
Por mais de dois anos, o cineasta Wim Wenders acompanhou o pintor e escultor alemão Anselm Kiefer. O documentário retrata os mais de 50 anos de carreira do artista, além de suas memórias na Alemanha e os seus dias na França, onde vive atualmente. Wenders apresenta uma experiência cinematográfica da obra de Kiefer, que explora a existência humana e o movimento cíclico da história, inspirado pela literatura, pela poesia, pela ciência e pela religião.
Comentário: O site Wikipédia nos conta que Anselm Kiefer (1945) é um pintor e escultor alemão. Estudou com Peter Dreher e Horst Antes no final da década de 1960. Suas obras incorporam materiais como palha, cinzas, argila, chumbo e goma-laca.
Os poemas de Paul Celan influenciaram o desenvolvimento dos temas de Kiefer sobre a história alemã e os horrores do Holocausto, assim como os conceitos espirituais da Cabala.
Quando tinha 18 anos, Kieffer partiu para uma viagem de um ano para visitar lugares na Holanda, Bélgica e França que tinham associações com Van Gogh. Trechos do diário que ele manteve indicam o quão fortemente ele foi influenciado por Van Gogh.
Em toda a sua obra, Kiefer dialoga com o passado e aborda temas tabus e controversos da história recente. Temas relacionados ao regime nazista são particularmente relevantes em seu trabalho; por exemplo, a pintura 'Margarete' (óleo e palha sobre tela) foi inspirada no conhecido poema de Celan "Todesfuge" (Fuga da Morte).
Suas obras são caracterizadas por uma disposição inabalável de confrontar o passado sombrio de sua cultura e o potencial não realizado, em trabalhos que são frequentemente feitos em grande escala, confrontadora e adequada aos temas.
Também é característico de seu trabalho encontrar assinaturas e nomes de pessoas de importância histórica, figuras lendárias ou lugares históricos. Todos esses são sigilos codificados através dos quais Kiefer busca processar o passado, resultando na associação de seu trabalho com os movimentos Novo Simbolismo e Neoexpressionismo.
Kiefer vive e trabalha na França desde 1992. Desde 2008, vive e trabalha principalmente em Paris. Em 2018, ele recebeu a cidadania austríaca.
Carlos Alberto Mattos no seu site Carmattos nos diz: "Se você quer saber detalhes da vida e do pensamento de Anselm Kiefer, é melhor consultar os livros ou a internet. Esse documentário de Wim Wenders não está interessado em explanações didáticas, nem elucubrações de curadoria. 'Anselm – O Som do Tempo' (Anselm – Das Rauschen der Zeit) limita-se, quase sempre, a fazer a câmera passear pela superfície dos quadros imensos, circundar as esculturas impactantes ou deambular pelo seu atual estúdio gigantesco, um antigo complexo fabril no sul da França.
Vemos Kiefer em pleno trabalho, sem nenhum pincel. Suas ferramentas são espátulas de metal, cabos de aço, maçaricos. Os materiais abrangem areia, palha, escombros, chumbo derretido, gesso, fogo, etc. Os processos variam entre artesanais, industriais e alquímicos. A escala das obras requer grandes galpões, guindastes e outros equipamentos de construção civil. O pintor circula por esses espaços, às vezes em bicicleta, geralmente em silêncio. Em certos momentos, não sabemos a diferença entre obra e ambiente circundante. Não vi a versão em 3D [existe uma versão em 3D para ser vista com óculos especiais], mas posso imaginar o efeito da profundidade, que deve tornar tudo aquilo ainda mais intrigante e espetacular.
Wenders insere algumas vinhetas ficcionais com o filho de Kiefer no papel do pai mais jovem e o menino Anton Wenders, seu sobrinho-neto, para evocar a infância de Anselm, envolvido pelos murmúrios do passado alemão. A história da Alemanha – sobretudo os ecos do Holocausto –, assim como mitos germânicos, gregos e judaicos, ecoa profundamente na pintura filosófica de Kiefer. Sua admiração pelo poeta judeu romeno Paul Celan e pelo filósofo alemão Martin Heidegger transparece literalmente em muitos quadros.
Heidegger foi simpatizante do nazismo, e o próprio Kiefer foi acusado de incidir em práticas duvidosas, como fotografar-se fazendo a saudação hitlerista em vários locais da Europa. Sua explicação era de que protestava contra o esquecimento. Wenders aborda essa polêmica retroativamente, incluindo a declaração de Kiefer de que não poderia afirmar o que ele seria em 1939, seis anos antes de nascer. Ou seja, o retrato político do artista fica aberto à especulação de cada um de nós.
Recorrendo a materiais de arquivo e projeções no ateliê, o documentário recupera fases anteriores da carreira de Kiefer, desde a época mais figurativa, passando pelo aprendizado com Joseph Beuys e a consagração nos EUA. A tênue cronologia se conclui com a magnífica exposição no Palácio dos Doges de Veneza em 2022.
Sem a preocupação de explicar Kiefer, 'Anselm' se concentra em expor virtualmente a diversidade, a rusticidade e a dimensão colossal da obra".
O que disse a crítica 1: João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: " O cinema já foi vítima de vários crimes em nome da 'arte imersiva', em particular depois do 3D contemporâneo. O filme de Wenders, com seu foco afiado e uso da estereoscopia – técnica usada para se obter efeito tridimensional, através de duas imagens obtidas em pontos diferentes – quer deslizar para a textura física das obras. É ver para crer".
O que disse a crítica 2: Raissa Ferreira do site Filmes e Filmes avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "Ainda que busque esse resgate ao passado, como entregando a Anselm a chance de se reencontrar com seu eu da infância, passando por como tudo que o formou faz parte de suas obras, não existe uma brecha para uma relação íntima ou empática com esse objeto de estudo, o veremos como parte de uma mitologia criada por Wim Wenders, mas que também é um pedaço concreto da realidade, da história da arte e da Alemanha, tão material quanto suas criações artísticas. O sentir, que não é palpável, fica por conta desse olhar tão fascinante do diretor, que transforma cada peça em algo mágico, as registrando (principalmente no uso do 3D) como quem quer guardar suas impressões mais reais do que é possível enxergar, pois objetos assim tão duros não existem além desse mundo que podemos tocar".
O que eu achei: Em “Anselm - O Som do Tempo” (2023), Wim Wenders realiza mais do que um documentário sobre um grande artista: ele constrói uma experiência sensorial, filosófica e quase hipnótica, capaz de diluir as fronteiras entre cinema, pintura, memória e pensamento. Depois da investigação poética da dança em "Pina" (2011), o cineasta volta a explorar as possibilidades do 3D, agora não como mero efeito tecnológico, mas como ferramenta expressiva para penetrar na densidade física e simbólica da obra de Anselm Kiefer. Mesmo assistindo à versão convencional, é impossível não imaginar o impacto vertiginoso que a projeção tridimensional deve provocar: uma verdadeira vertigem estética, como se o espectador pudesse atravessar as telas e caminhar dentro delas. O filme opera como um ensaio visual, apagando os limites entre representação e criação. Wenders não se contenta em explicar Kiefer; ele nos convida a habitar seu universo. As texturas do aço, do chumbo, do concreto e das superfícies queimadas ganham uma presença quase tátil, enquanto a câmera desliza pelos espaços monumentais como se explorasse um território mental. Há uma imersão profunda no imaginário do artista alemão, cuja obra sempre lidou com o peso da história, da ruína e da memória coletiva. Essa dimensão temporal também se manifesta na delicada encenação das diferentes fases da vida de Kiefer, atualmente com 80 anos de idade: o próprio filho do artista interpreta o pai jovem, enquanto o sobrinho-neto de Wim Wenders, encarna Anselm criança. Esse gesto reforça a ideia de continuidade, herança e transmissão, como se o tempo não fosse uma linha reta, mas uma matéria viva, moldável, atravessada por ecos e reincidências. Um dos momentos mais fascinantes do documentário é a visita à propriedade La Ribaute, onde Kiefer viveu por 15 anos. São cerca de 40 hectares transformados numa espécie de laboratório onírico: torres enigmáticas, cubos colossais, esculturas monumentais e uma intrincada rede de túneis subterrâneos compõem um espaço que parece menos um ateliê e mais um prolongamento do inconsciente. Caminhar por ali, através do olhar de Wenders, é como percorrer um sonho arqueológico, no qual cada objeto guarda camadas de sentido e silêncio. A obra de Kiefer, como o filme deixa claro, é atravessada pelos traumas da história alemã, especialmente os fantasmas do Holocausto, e por um vasto repertório de mitologias germânicas, gregas e judaicas. Sua admiração pelo poeta Paul Celan e pelo filósofo Martin Heidegger emerge de forma quase literal em muitas telas, onde palavras, nomes e referências se incorporam fisicamente à matéria pictórica. O documentário, ao recorrer a imagens de arquivo, revisita também etapas decisivas da carreira do artista: a fase mais figurativa, o aprendizado com Joseph Beuys, a consagração internacional, sobretudo nos EUA, e a grandiosa exposição no Palácio dos Doges, em Veneza. Wenders não evita as zonas de sombra que cercam o artista. A controversa relação de Heidegger com o nazismo e as próprias acusações dirigidas a Kiefer - como no trabalho fotográfico no qual ele mesmo aparece fazendo a saudação nazista - são abordadas com cuidado e sem simplificações. A justificativa do pintor, de que buscava provocar uma reflexão sobre o esquecimento histórico, é apresentada ao lado de uma declaração perturbadora: a impossibilidade de saber que posição ele teria assumido em 1939, antes mesmo de nascer. O filme, sabiamente, não fecha esse debate; deixa o julgamento em aberto, convidando o espectador a elaborar suas próprias interpretações sobre o lugar ético e político da arte. Trata-se de um filme para ser degustado, absorvido lentamente, como quem percorre uma exposição sem mapa. Ao final, permanece a impressão de se ter atravessado não apenas a trajetória de um artista, mas um vasto campo de ideias, memórias e inquietações. Excelente.