
Comentário: Rodrigo Sorogoyen (1981) é um cineasta espanhol, neto do cineasta Antonio del Amo e que frequentemente trabalha em parceria com Isabel Peña. Ele foi indicado ao Prêmio Goya por "Estocolmo" (2013), por "Que Deus nos Salve" (2016), pelo curta-metragem "Mãe" (2017) e por "O Candidato" (2018) que levou os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Seu curta-metragem "Mãe" (2017) também foi indicado ao Oscar de Melhor Curta. "As Bestas" (2022) é o primeiro filme que vejo dele.
Roger Lerina do site Matinal nos conta tratar-se de uma "coprodução franco-espanhola, [que] conta uma tensa história de cobiça, ressentimento social e xenofobia marcada pelas excelentes interpretações dos franceses Denis Ménochet e Marina Foïs.
Em 'As Bestas', Ménochet e Foïs interpretam Antoine e Olga, um casal francês que mora no interior da Galicia – região do noroeste da Espanha que faz fronteira com Portugal ao sul e cujo idioma local mistura espanhol com português. Com grandes planos de cultivar a terra e vender vegetais no mercado local como forma de ganhar a vida, o ex-professor e a sua solidária esposa deixaram para trás a sua vida confortável na França para procurarem um novo começo.
O sonho idílico, no entanto, azeda: a desconfiança de parte da pequena comunidade com relação ao casal estrangeiro ganha fôlego quando uma negociação de venda de terras com uma grande empresa coloca os franceses no campo oposto ao liderado pelos vizinhos, os brutos irmãos Anta – interpretados pelos ótimos Luis Zahera e Diego Anido. A animosidade crescente se espalha então por toda a aldeia, chegando a um ponto de conflito sem retorno.
Indicado ao Oscar em 2019 pelo curta igualmente impactante 'Mãe' (2017), Rodrigo Sorogoyen assina com Isabel Peña o roteiro de 'As Bestas', inspirado em uma história real registrada antes no documentário 'Santoalla' (2016). 'Estudamos o caso para conhecê-lo e, assim, para nos distanciar dele, e transformá-lo em nossa ficção. Nós conhecíamos, ou acreditávamos que conhecíamos, as pessoas envolvidas. Nós sabíamos, ou pensávamos que sabíamos, suas motivações, seus sonhos. E então começamos a criar nossos personagens para a ficção. Mudamos seus nomes, idade, nacionalidade. Não queríamos contar a história verdadeira, mas algo inspirado naquele evento', explica o diretor, referindo-se ao episódio policial verdadeiro envolvendo um casal holandês que morava em uma aldeia espanhola.
'Um problema financeiro, mas também de identidade, no que diz respeito à propriedade da terra. Ameaças, orgulho, convivência difícil, explosões de violência, medo. Esses dois últimos elementos acabaram se tornando os eixos centrais sobre os quais a história se apoiava: violência e medo', resume Sorogoyen.
Além do casal protagonista interpretado por dois grandes nomes do cinema francês contemporâneo, 'As Bestas' também contou em seu elenco com atores não profissionais, a fim de ampliar a autenticidade da história. Entre os intérpretes sem experiência em atuação, está José Manuel Fernández Blanco, que encarna o emblemático personagem Pepiño – e que morreu em agosto de 2022, sem ter conseguido assistir ao filme concluído.
Enquanto os roteiristas investigavam sobre a área onde se passaria a história, descobriram que, todos os anos, em várias aldeias próximas, é festejada 'a rapa das bestas' – uma rude celebração popular que consiste em cortar as crinas dos animais selvagens para remover quaisquer parasitas antes de liberar os animais de volta para as montanhas. A chocante e primitiva sequência de abertura de 'As Bestas' é uma referência a esse costume local.
'Decidimos introduzir essa tradição, que tem um poder visual esmagador em nossa história. O título menciona isso, mas, também, uma das cenas centrais tentaria ser uma alegoria do ‘rapa’. Quem é a besta? Antoine tenta ser pacífico diante da violência dos irmãos, mas nunca consegue se separar dela', define o cineasta.
Colocando lado a lado as motivações dos antagonistas, 'As Bestas' pinta um retrato pessimista sobre a convivência pacífica na alteridade. Nessa paisagem negativa, a personagem de Marina Foïs – vista recentemente em filmes tão distintos quanto a comédia 'Tudo Sob Descontrole' (2022) quanto no drama 'A Sindicalista' (2022) – surge como uma força feminina resiliente que encara a barbárie em nome da lealdade familiar e da resistência iluminista".
O filme foi exibido na mostra Premiere no Festival de Cannes de 2022 e ganhou na Espanha nove prêmios Goya, além de levar o francês César de Melhor Filme Estrangeiro.
O que disse a crítica 1: Diandra Guedes do site Canal Tech gostou. Disse: "Até onde a intolerância pode levar o ser humano? Essa é a pergunta que guia o filme espanhol 'As Bestas' (...). Com um argumento simples, mas roteiro e montagem impecáveis, o longa esmiúça na tela como a relação com o diferente pode ser brutal".
O que disse a crítica 2: Wallace Andrioli do site Plano Aberto avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Sorogoyen demonstra plena compreensão dos personagens, do que os separa e os une, transitando de uma conversa bem-articulada, extensa e dolorosa (...) para outra de poucas palavras e mais olhares de mútuo entendimento. No fim das contas, o que torna 'As Bestas' um grande filme é essa postura relativamente generosa, mesmo com aqueles responsáveis por atos atrozes, aberta portanto ao humano em suas contradições e impasses. Característica manifesta também na forma, já que seus planos-sequência não nascem de um desejo exibicionista tout court [sem haver nada a acrescentar], mas da busca por dar aos atores a possibilidade de expressar as nuances de figuras complexas lidando com situações difíceis".
O que eu achei: Surpreendeu positivamente o longa "As Bestas" (2022) do diretor espanhol Rodrigo Sorogoyen. O filme começa mostrando uma celebração popular chocante e primitiva denominada "a rapa das bestas" que consiste em agarrar animais selvagens – na cena são mostrados cavalos – para cortar suas crinas com a finalidade de remover quaisquer parasitas antes de liberar os animais de volta para as montanhas. Esse costume de fato ocorre na Galícia – essa região ao noroeste da Espanha que faz fronteira com Portugal – onde vamos acompanhar a vida de Antoine (Denis Menochet) e Olga (Marina Fois), dois franceses que se mudaram para a região e lá estão estabelecidos, vendendo verduras para sobreviver. Se a ideia era ir pra lá para viver uma vida pacata, a convivência com os vizinhos não colabora. O que ocorre é que existe um projeto de implantação de uma fazenda de energia eólica no local e, enquanto os locais aceitam a verba proposta para deixar suas casas com algum dinheiro no bolso e irem tentar uma vida nova em outro local, o casal francês não aceita, colocando o projeto em suspensão. Com isso o conflito entre eles está instaurado. A partir desse ponto de tensão, “As Bestas” se impõe como um thriller psicológico de rara intensidade. Sorogoyen constrói o conflito não apenas como um embate entre personagens, mas como um choque de mundos: tradição versus progresso, pertencimento versus estrangeiridade, coletividade versus resistência individual. O que poderia ser apenas uma disputa sobre terras e dinheiro se transforma em um estudo denso sobre ressentimento, orgulho ferido, xenofobia e violência latente. Um dos maiores méritos do filme está na maneira como o diretor trabalha a atmosfera. A paisagem rural da Galícia - isolada, bruta, quase hostil - deixa de ser mero cenário para se tornar parte ativa da narrativa, ampliando a sensação de claustrofobia e insegurança. A câmera é precisa, inquieta quando precisa ser, e silenciosa quando o peso dramático pede contenção. As longas cenas de confronto verbal são hipnotizantes, sustentadas por uma tensão quase insuportável, mostrando um domínio absoluto de ritmo e encenação. As atuações são outro ponto forte. Denis Ménochet entrega uma performance monumental, contida e ao mesmo tempo explosiva. Seu Antoine é obstinado, orgulhoso, mas também vulnerável, um homem que parece não perceber o quanto sua resistência o coloca em risco. Marina Foïs, por sua vez, cresce ainda mais na segunda parte do filme, conduzindo a narrativa com uma força silenciosa e uma dor que transborda em pequenos gestos. O elenco de apoio, especialmente os homens locais, contribui para a sensação de ameaça constante, sem precisar recorrer a vilanias óbvias ou unidimensionais. É justamente essa recusa ao maniqueísmo que faz de “As Bestas” um filme tão potente. Não há respostas fáceis, nem caminhos reconfortantes. O espectador é colocado em um terreno moral instável, onde todos parecem, em alguma medida, vítimas de um sistema maior do que eles. Ainda assim, o filme não relativiza a violência, nem tenta romantizar o ódio: ele o expõe em sua crueza, obrigando-nos a encará-lo. Excelente.
Roger Lerina do site Matinal nos conta tratar-se de uma "coprodução franco-espanhola, [que] conta uma tensa história de cobiça, ressentimento social e xenofobia marcada pelas excelentes interpretações dos franceses Denis Ménochet e Marina Foïs.
Em 'As Bestas', Ménochet e Foïs interpretam Antoine e Olga, um casal francês que mora no interior da Galicia – região do noroeste da Espanha que faz fronteira com Portugal ao sul e cujo idioma local mistura espanhol com português. Com grandes planos de cultivar a terra e vender vegetais no mercado local como forma de ganhar a vida, o ex-professor e a sua solidária esposa deixaram para trás a sua vida confortável na França para procurarem um novo começo.
O sonho idílico, no entanto, azeda: a desconfiança de parte da pequena comunidade com relação ao casal estrangeiro ganha fôlego quando uma negociação de venda de terras com uma grande empresa coloca os franceses no campo oposto ao liderado pelos vizinhos, os brutos irmãos Anta – interpretados pelos ótimos Luis Zahera e Diego Anido. A animosidade crescente se espalha então por toda a aldeia, chegando a um ponto de conflito sem retorno.
Indicado ao Oscar em 2019 pelo curta igualmente impactante 'Mãe' (2017), Rodrigo Sorogoyen assina com Isabel Peña o roteiro de 'As Bestas', inspirado em uma história real registrada antes no documentário 'Santoalla' (2016). 'Estudamos o caso para conhecê-lo e, assim, para nos distanciar dele, e transformá-lo em nossa ficção. Nós conhecíamos, ou acreditávamos que conhecíamos, as pessoas envolvidas. Nós sabíamos, ou pensávamos que sabíamos, suas motivações, seus sonhos. E então começamos a criar nossos personagens para a ficção. Mudamos seus nomes, idade, nacionalidade. Não queríamos contar a história verdadeira, mas algo inspirado naquele evento', explica o diretor, referindo-se ao episódio policial verdadeiro envolvendo um casal holandês que morava em uma aldeia espanhola.
'Um problema financeiro, mas também de identidade, no que diz respeito à propriedade da terra. Ameaças, orgulho, convivência difícil, explosões de violência, medo. Esses dois últimos elementos acabaram se tornando os eixos centrais sobre os quais a história se apoiava: violência e medo', resume Sorogoyen.
Além do casal protagonista interpretado por dois grandes nomes do cinema francês contemporâneo, 'As Bestas' também contou em seu elenco com atores não profissionais, a fim de ampliar a autenticidade da história. Entre os intérpretes sem experiência em atuação, está José Manuel Fernández Blanco, que encarna o emblemático personagem Pepiño – e que morreu em agosto de 2022, sem ter conseguido assistir ao filme concluído.
Enquanto os roteiristas investigavam sobre a área onde se passaria a história, descobriram que, todos os anos, em várias aldeias próximas, é festejada 'a rapa das bestas' – uma rude celebração popular que consiste em cortar as crinas dos animais selvagens para remover quaisquer parasitas antes de liberar os animais de volta para as montanhas. A chocante e primitiva sequência de abertura de 'As Bestas' é uma referência a esse costume local.
'Decidimos introduzir essa tradição, que tem um poder visual esmagador em nossa história. O título menciona isso, mas, também, uma das cenas centrais tentaria ser uma alegoria do ‘rapa’. Quem é a besta? Antoine tenta ser pacífico diante da violência dos irmãos, mas nunca consegue se separar dela', define o cineasta.
Colocando lado a lado as motivações dos antagonistas, 'As Bestas' pinta um retrato pessimista sobre a convivência pacífica na alteridade. Nessa paisagem negativa, a personagem de Marina Foïs – vista recentemente em filmes tão distintos quanto a comédia 'Tudo Sob Descontrole' (2022) quanto no drama 'A Sindicalista' (2022) – surge como uma força feminina resiliente que encara a barbárie em nome da lealdade familiar e da resistência iluminista".
O filme foi exibido na mostra Premiere no Festival de Cannes de 2022 e ganhou na Espanha nove prêmios Goya, além de levar o francês César de Melhor Filme Estrangeiro.
O que disse a crítica 1: Diandra Guedes do site Canal Tech gostou. Disse: "Até onde a intolerância pode levar o ser humano? Essa é a pergunta que guia o filme espanhol 'As Bestas' (...). Com um argumento simples, mas roteiro e montagem impecáveis, o longa esmiúça na tela como a relação com o diferente pode ser brutal".
O que disse a crítica 2: Wallace Andrioli do site Plano Aberto avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Sorogoyen demonstra plena compreensão dos personagens, do que os separa e os une, transitando de uma conversa bem-articulada, extensa e dolorosa (...) para outra de poucas palavras e mais olhares de mútuo entendimento. No fim das contas, o que torna 'As Bestas' um grande filme é essa postura relativamente generosa, mesmo com aqueles responsáveis por atos atrozes, aberta portanto ao humano em suas contradições e impasses. Característica manifesta também na forma, já que seus planos-sequência não nascem de um desejo exibicionista tout court [sem haver nada a acrescentar], mas da busca por dar aos atores a possibilidade de expressar as nuances de figuras complexas lidando com situações difíceis".
O que eu achei: Surpreendeu positivamente o longa "As Bestas" (2022) do diretor espanhol Rodrigo Sorogoyen. O filme começa mostrando uma celebração popular chocante e primitiva denominada "a rapa das bestas" que consiste em agarrar animais selvagens – na cena são mostrados cavalos – para cortar suas crinas com a finalidade de remover quaisquer parasitas antes de liberar os animais de volta para as montanhas. Esse costume de fato ocorre na Galícia – essa região ao noroeste da Espanha que faz fronteira com Portugal – onde vamos acompanhar a vida de Antoine (Denis Menochet) e Olga (Marina Fois), dois franceses que se mudaram para a região e lá estão estabelecidos, vendendo verduras para sobreviver. Se a ideia era ir pra lá para viver uma vida pacata, a convivência com os vizinhos não colabora. O que ocorre é que existe um projeto de implantação de uma fazenda de energia eólica no local e, enquanto os locais aceitam a verba proposta para deixar suas casas com algum dinheiro no bolso e irem tentar uma vida nova em outro local, o casal francês não aceita, colocando o projeto em suspensão. Com isso o conflito entre eles está instaurado. A partir desse ponto de tensão, “As Bestas” se impõe como um thriller psicológico de rara intensidade. Sorogoyen constrói o conflito não apenas como um embate entre personagens, mas como um choque de mundos: tradição versus progresso, pertencimento versus estrangeiridade, coletividade versus resistência individual. O que poderia ser apenas uma disputa sobre terras e dinheiro se transforma em um estudo denso sobre ressentimento, orgulho ferido, xenofobia e violência latente. Um dos maiores méritos do filme está na maneira como o diretor trabalha a atmosfera. A paisagem rural da Galícia - isolada, bruta, quase hostil - deixa de ser mero cenário para se tornar parte ativa da narrativa, ampliando a sensação de claustrofobia e insegurança. A câmera é precisa, inquieta quando precisa ser, e silenciosa quando o peso dramático pede contenção. As longas cenas de confronto verbal são hipnotizantes, sustentadas por uma tensão quase insuportável, mostrando um domínio absoluto de ritmo e encenação. As atuações são outro ponto forte. Denis Ménochet entrega uma performance monumental, contida e ao mesmo tempo explosiva. Seu Antoine é obstinado, orgulhoso, mas também vulnerável, um homem que parece não perceber o quanto sua resistência o coloca em risco. Marina Foïs, por sua vez, cresce ainda mais na segunda parte do filme, conduzindo a narrativa com uma força silenciosa e uma dor que transborda em pequenos gestos. O elenco de apoio, especialmente os homens locais, contribui para a sensação de ameaça constante, sem precisar recorrer a vilanias óbvias ou unidimensionais. É justamente essa recusa ao maniqueísmo que faz de “As Bestas” um filme tão potente. Não há respostas fáceis, nem caminhos reconfortantes. O espectador é colocado em um terreno moral instável, onde todos parecem, em alguma medida, vítimas de um sistema maior do que eles. Ainda assim, o filme não relativiza a violência, nem tenta romantizar o ódio: ele o expõe em sua crueza, obrigando-nos a encará-lo. Excelente.