30.3.25

“O Banho do Diabo” – Severin Fiala & Veronika Franz (Áustria/Alemanha, 2024)

Sinopse:
Áustria, 1750. Em uma época em que as aldeias eram cercadas por florestas densas, uma mulher  profundamente religiosa (Anja Plaschg) casa-se com seu amado (David Scheid), mas sua mente e seu coração logo ficam pesados à medida que sua vida se torna uma longa lista de tarefas e expectativas. Dia após dia, ela fica cada vez mais presa em um caminho obscuro e solitário que a leva a desenvolver pensamentos malignos.
Comentário: Veronika Franz (1965) é uma cineasta austríaca que iniciou a carreira como jornalista de cinema. Desde 1997, trabalha com o diretor e produtor Ulrich Seidl como contribuidora artística e roteirista. Severin Fiala (1985) também é austríaco. Estudou roteiro e direção na Academia de Cinema de Viena. Juntos, a dupla dirigiu o documentário “Kern” (2012), sobre o ator e diretor Peter Kern, apresentado no Festival de San Sebastián; “Boa Noite, Mamãe!” (2014), que estreou no Festival de Veneza e foi premiado no BAFICI; e o filme em língua inglesa “O Chalé” (2019), exibido no Tallinn Black Nights. “O Banho do Diabo” (2024) é o primeiro filme que vejo deles.
O longa teve por base o livro "Suicide by Proxy in Early Modern Germany: Crime, Sin and Salvation" [Suicídio por Procuração na Alemanha Moderna: Crime, Pecado e Salvação] de autoria de Kathy Stuart, escrito em cima de registros judiciais históricos sobre um capítulo chocante e até então inexplorado da história europeia.
Jorge Pereira Rosa do C7nema nos conta que “Já com um certo culto em seu entorno, especialmente depois do sucesso de ‘Boa Noite, Mamãe’ (2014), que teve um remake norte-americano, a dupla de cineastas austríacos Veronika Franz e Severin Fiala apresentou no Festival de Berlim, na luta pelo Urso de Ouro, aquele que talvez seja o seu filme mais potente até agora: ‘O Banho do Diabo’ (2024).
Visitando o século XVIII no seu país, a dupla de cineastas, com o apoio na produção do conceituado Ulrich Seidl, conta-nos a história de Agnes (Anja Plaschg), uma jovem que se casa e passa o calvário de uma vida extremamente aborrecida e limitada à sua condição de mulher. Sem conseguir engravidar, progressivamente o seu estado mental vai se deteriorando, caindo na mais profunda depressão. É a partir desta história individual que Veronika Franz e Severin Fiala nos levam a um drama coletivo historicamente reportado com mais de 700 casos: o de mulheres que, impedidas de se suicidar porque nunca iam adquirir a ‘salvação’ por parte da igreja, cometeram crimes para conseguirem a própria morte e a ‘salvação’”.
Rosa entrevistou a dupla de realizadores e perguntou a eles sobre como se deu essa investigação histórica desses casos que eram frequentes no século XVIII. Fiala respondeu que eles não tiveram que investigar basicamente nada, pois todo o roteiro foi desenvolvido em cima do livro da norte-americana Kathy Stuart citado anteriormente. Ele contou que Stuart mantinha também um podcast onde falava sobre esses homicídios que algumas mulheres cometiam para serem mortas e não terem que se suicidar. O medo, segundo Stuart, é que o suicídio impediria a ‘salvação’ final que a Igreja concedia. Já os assassinos, esses poderiam ter o perdão antes de serem condenados à morte e seguir para o céu. A ideia era de que como suicida você teria que enfrentar o inferno.
Em sua pesquisa, Stuart identificou 700 casos. O pensamento dos diretores foi: - “como pode algo assim acontecer e nunca nos informarem disso nas aulas de história?” Eles então contataram a escritora e ela cedeu a eles todo o material da sua investigação, que incluía interrogatórios às mulheres.
Eles também disseram que “este é um filme sobre pessoas que não se encaixam no estabelecido e do que é esperado delas. A depressão é uma doença que não nasceu agora e este filme, embora reporte ao século XVIII, fala igualmente dos tempos modernos”.
Outra questão abordada por eles é que “‘naqueles tempos [século XVIII], a igreja era mesmo poderosa para aquelas pessoas. Atualmente, temos novos dogmas, mas naqueles tempos a igreja mexia na forma de como as pessoas viviam as suas vidas’. De qualquer forma, ‘olhando para a atualidade, ainda vemos atos terroristas inacreditáveis em nome da religião. E há estudos sobre essas pessoas, em particular os bombistas suicidas, que apontam a estados depressivos. Eles querem morrer sem ofender Deus e fazem-no através do assassinato, em nome de Deus. Assim escapam a uma sentença divina e encontram o paraíso’”.
Outro esclarecimento interessante foi dado a respeito do título do filme. Franz explica que “O Banho do Diabo” era uma expressão que no passado era usada para a melancolia. Segundo ela dizia-se que a pessoa estava “no banho com o Diabo”, refletindo bem o inferno interno que estas pessoas atravessam.
No filme é possível observar como era feito, no século XVIII, o tratamento para a melancolia: fazer uma abertura da pele na parte mais alta das costas, perto da nuca, para que esse veneno chamado melancolia pudesse sair do corpo. Outra crença de época que o filme mostra era a de que beber o sangue dos mortos curaria as pessoas da depressão.
O filme foi a escolha da Áustria para o Oscar 2025, mas não passou pela pré-seleção.
O que disse a crítica: Letícia Alassë do site Cine Pop avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Como experiência aterrorizante, ‘O Banho do Diabo’ está longe de ser ‘A Bruxa’, de Robert Eggers, o longa não tem suspense latente ou reviravoltas. Ele faz um ciclo para explicar a cena inicial através de Agnes e deixa em evidência o começo de um próximo na horripilante sequência final, tão desconfortante quanto ‘Midsommar – O Mal Não Espera a Noite’ (2019), de Ari Aster. (...) ‘O Banho do Diabo’ é a demarcação de uma época violenta às mulheres, onde a suas infelicidades - por conta da repressão - eram julgadas como histeria ou possessão demoníaca”.
Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “É evidente que os autores não defendem os maus-tratos a crianças, nem a flagelação feminina, muito pelo contrário. Em paralelo, a dupla ultrapassa a mera denúncia de uma exploração machista que perdura desde o início dos tempos. O longa-metragem estuda manifestações de distúrbios mentais antes de serem conhecidos por este nome (e, portanto, estudados ou compreendidos). Fazem da saída chocante, encontrada por Agnes e pela sociedade local, um exemplo metafórico das alternativas de independência oferecidas às mulheres em um sistema opressor.”
O que eu achei: A primeira coisa que é necessário saber antes de ver esse filme é que, apesar do título – “O Banho do Diabo”- este não é um filme de terror. Pode até ser um drama terrível, mas filme de terror não é. Na verdade, esse título foi escolhido muito em função do que ele representava no século XVIII, época em que o filme se passa. Quando uma pessoa estava melancólica ou depressiva dizia-se que ela estava “no banho com o Diabo”, expressão essa que caiu em desuso por conta da evolução que se deu na ciência com sua pesquisa e estudo das doenças mentais. A história que o longa conta gira em torno do que fazer quando a vida se torna insuportável. Os tratamentos da época envolviam fazer uma abertura na pele na parte mais alta das costas, perto da nuca, para que esse “veneno” pudesse sair do corpo ou esperar alguém morrer para tomar sangue fresco. Mas e se isso não funcionasse? Foi isso que a norte-americana Kathy Stuart quis descobrir. Baseando sua pesquisa em cima de registros judiciais históricos foi que ela escreveu o livro “Suicide by Proxy in Early Modern Germany: Crime, Sin and Salvation" (Suicídio por Procuração na Alemanha Moderna: Crime, Pecado e Salvação), no qual o filme se baseia, que conta a história de pessoas, especialmente mulheres, que não queriam se suicidar por conta do medo de não serem perdoadas por Deus e condenadas ao Inferno, e que então resolveram cometer algum crime para serem julgadas e condenadas à pena de morte, tendo direito à confissão e ao perdão de um representante da igreja antes de sua execução, garantindo assim um lugar no Céu. Apesar do tema pesado - a cena inicial vai fazer sua alma sair pela boca -, o filme é muito bem feito. Tem aquela fotografia de encher os olhos e atores muito competentes e bem dirigidos que resultam num filme hipnótico, desconfortável e perturbador que nos apresenta um capítulo desconhecido da história europeia e faz pensar em como as mulheres sofrem desde sempre, inseridas num sistema opressor com pouco respiro, o que leva fatalmente a uma rápida deterioração mental. O longa é austríaco, tem como protagonista a excelente atriz austríaca Anja Plaschg que sofreu de grave depressão quando perdeu seu pai e que assina a incrível trilha sonora que embala este drama de época, utilizando em suas músicas o pseudônimo Soup & Skin. O longa é trágico, arrepiante, mas vale cada minuto.