29.4.24

“O Olho do Diabo” - Ingmar Bergman (Suécia, 1960)

Sinopse:
O Diabo (Stig Järrel) fica intrigado com um terçol que subitamente aparece em seu olho. Seus conselheiros mais capazes informam que o motivo da moléstia é uma jovem (Bibi Andersson) que se casará virgem, dando uma vitória sem precedentes para o Céu e trazendo vergonha ao Inferno. O Diabo ainda tem alguns dias para tentar contornar o problema, e usará a arma secreta que tem nas mãos, Don Juan (Jarl Kulle), que será mandado de volta à vida para tentar seduzir a jovem.
Comentário: Ingmar Bergman (1919-2007) é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá a seus filmes. Sua produção engloba em torno de uns 60 filmes. Assisti dele 18 filmes, dentre eles as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957), "Persona" (1966), "O Ovo da Serpente" (1977) e "Sonata de Outono" (1978). Desta vez vou conferir “O Olho do Diabo” (1960).
Luiz Santiago do site Plano Crítico nos conta tratar-se de “uma comédia baseada em uma peça radiofônica antiga de Oluf Bang, um autor dinamarquês. Bergman pegou a premissa dessa obra – ‘O Retorno de Don Juan’ - e escreveu uma história à sua própria maneira (...). Ele não gostou de nada e jogou fora todo o primeiro tratamento, escrevendo-o novamente, de ponta a ponta. O resultado, o diretor certa vez definiu em entrevista, como ‘uma peça de teatro mal feita’. O fato é que Bergman jamais quis fazer ‘O Olho do Diabo’. Sua história com este enredo começou quando ele, em reunião com o CEO da Svensk Filmindustri, Carl Anders Dymling, propôs a filmagem da folclórica balada medieval ‘As Meninas de Töre em Vänge’. Dymling negou imediatamente o pedido e solicitou que Bergman dirigisse uma comédia, se possível a peça (ou uma versão dela) de Oluf Bang. Bergman recusou. O impasse foi resolvido com um acordo proposto pelo cineasta: embora detestasse a ideia, ele faria a comédia que Dymling tanto queria se o empresário o permitisse adaptar ‘As Meninas de Töre em Vänge’. O acordo foi fechado e assim nasceram ‘A Fonte da Donzela’ e ‘O Olho do Diabo’. Na versão de Bergman, Don Juan (Jarl Kulle) vem à Terra por ordens de Satã (Stig Järrel). Seguindo o provérbio irlandês que abre o filme, ‘A castidade de uma mulher é um terçol no olho do Diabo’, o texto coloca o mandatário do Inferno incomodado com um terçol que ele logo descobre ser resultado de uma virgem de 20 anos que está para casar-se. Segundo os valores infernais, seria desastroso se isso acontecesse. Era preciso que alguém fizesse alguma coisa. Então a ‘arma secreta’ do Diabo, acompanhada do servo Pablo (Sture Lagerwall) e de um guardião (Ragnar Arvedson) que se transforma em um gato preto, é enviada para fazer a jovem cair em tentação e, com isso, ‘manter o equilíbrio’ das coisas malignas na Terra”. Quem conta a história é um apresentador, que divide tudo em atos e discute os fatos e conclusões.
O que disse a crítica 1: Rubens Ewald Filho do site UOL Cinema não gostou. Escreveu: “Não há a menor vontade de esconder a teatralidade nas intervenções do próprio diabo e diversos asseclas como um padre que vira gato preto. Embora seja a princípio interessante, não se desenvolve bem e falha justamente no que seria central: a sedução. Provoca alguns sorrisos, nada mais. Feito logo depois do Premiado com o Oscar ‘A Fonte da Donzela’, nunca chegou a ser lançado comercialmente no Brasil. Agora sabemos por que”.
O que disse a crítica 2: Luiz Santiago do site Plano Crítico achou muito bom. Disse: “Cínico, o roteiro de ‘O Olho do Diabo’ não deixa ninguém vencer por completo, embora todos pareçam, de alguma forma, satisfeitos com o final. Entre uma missão cumprida, um orgulho mantido e a maldade do Diabo em ação, temos aqui um material leve e textualmente limitado de Bergman, mas ainda assim, repleto de excelentes e engraçadas alfinetadas no comportamento das pessoas (especialmente nas que se colocam como ‘livres de pecado’) e nas instituições sociais. Uma comédia incomum, que ri da inocência e que se põe melancólica ao entender o que o amor pode fazer com uma pessoa, mesmo alguém que a vida e a eternidade inteira se blindou contra os sentimentos, achando que o desejo e as fervorosas paixões lhe bastavam. Até que descobre que não é bem assim”.
O que eu achei: Não é a última bolacha do pacote mas, sendo Bergman, até o não tão bom é bom. Como nos contou o Luiz Santiago do site Plano Crítico, ele fez esse filme a contragosto. É - ou tenta ser – uma comédia, gênero que não era muito a praia de Bergman, mas por exigência do CEO da Svensk Filmindustri ele meio que foi obrigado. Então não espere nenhuma obra-prima do cineasta, mas vale ver nem que seja por curiosidade.