
Comentário: Oliver Hermanus é um cineasta e escritor sul-africano. “Viver”
é o primeiro filme que vejo dele. Com roteiro de Kazuo Ishiguro, o filme é uma
adaptação de uma obra do Akira Kurosawa também chamada “Viver” (no original
seria “Ikiru”), do ano de 1952.
A premissa é basicamente a mesma: um funcionário público
que passou toda sua vida trabalhando sem nada produzir recebe a notícia de que
está com uma doença terminal e começa a correr contra o tempo para viver aquilo
que ele nunca viveu, antes que seja tarde demais.
João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema nos conta que
o remake situa “os acontecimentos numa época paralela ao original japonês,
início dos anos 1950, conferindo uma universalidade à trama. Os burocratas
carreiristas da nossa era digital, malgrado as aparências que enganam, costumam
repetir esses comportamentos – salvo as exceções de sempre, claro. No filme,
com seus ternos bem cortados e chapéus-coco combinando, os funcionários
públicos especialistas em movimentar papel comportam-se com a premissa de que
arriscar o pescoço é a maneira mais certa de perder a cabeça – qualquer
iniciativa fora da caixinha pode criar problemas e atrapalhar suas carreiras. É
sempre melhor passar a bola para outro departamento, que por sua vez vai
repassar para outro departamento, e assim por diante. O objetivo, quando o
funcionário senta em cima do processo, é não causar dano. O interesse
público, hélas, fica em segundo plano, indefinidamente”.
Numa entrevista, o ator Bill Nighy definiu seu trabalho
em “Viver” dizendo: “Esse tipo de filme pode ser edificante quando você sai do
cinema. A tragédia realmente traz esperança. Não entendo como isso funciona,
mas funciona. Você apenas espera fazer um bom trabalho que possa te levar a
algo melhor”.
O filme concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e
de Melhor Ator para Bill Nighy.
O que disse a crítica: João Garção Borges do site HD avaliou com o equivalente a
3,25 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Belíssima direção de fotografia e notável
exercício de luz e sombras onde sobressaem cores quentes que nos recordam
outras eras e outras atmosferas. Muito cuidada a reconstituição dos anos
cinquenta na Inglaterra, sobretudo visível nos pormenores das ruas e áreas
emblemáticas da capital britânica onde a maioria dos personagens deste filme
circula. Magnífica a matriz, ou melhor, as matrizes literária e cinematográfica,
que se revelam aqui e agora numa série de correspondências plasmadas no plano
ficcional, que não deixa por isso de constituir um argumento novo e com
diferenças que não alteram o essencial, ou seja, a história de um homem que no
fundo se apercebe de que nos limites do seu equilíbrio existencial a vida vale
muito mais do que a rotina burocrática de uma profissão que esmaga pela inércia
face aos resultados práticos e pelo peso da burocracia”.
Raphael Camacho do Cine Pop avaliou com 5 estrelas, ou
seja, obra-prima. Ele achou “as atuações de Bill Nighy e Aimee
Lou Wood (...] estupendas” e completou dizendo que “o projeto, que ainda
conta com uma belíssima trilha sonora assinada pela compositora
francesa Emilie Levienaise-Farrouch, nos faz refletir constantemente sobre
como vivemos a nossa própria vida”.
O que eu achei: Este filme é um remake do filme “Viver” (Ikiru) rodado em
1952, no Japão, por Akira Kurosawa. O que Oliver Hermanus fez foi basicamente
levar a trama do Japão pra a Inglaterra, mantendo a mesma época - anos 1950 - e
mantendo a mesmíssima história que mostra a estafante burocracia do serviço
público. O personagem principal - que no original se chamava Kanji Watanabe e agora
passa a ser o sr. Williams - há anos trabalha sem muito produzir. Sua vida vem
passando batida até ele receber um diagnóstico médico que vai fazê-lo passar a
ter pressa de construir algo produtivo ou, ao menos, prazeroso. Curioso que,
apesar de eu ser grande fã do Kurosawa, achei o original arrastado e tedioso. O
remake segue pelo mesmo caminho. Tem uma ambientação dos anos 50 muito bem
construída, uma trilha sonora que combina com os sentimentos aqui expostos, uma
bela fotografia, mas nada disso consegue compensar a falta de interesse do enredo e a ineficaz
densidade dos sentimentos emanados pelos personagens. A única vantagem do
remake sobre o original é que o original demorava em torno de 2h30m para
terminar e este leva 1h42m para chegar ao seu desfecho. É daqueles filmes
edificantes bons para passar na Sessão da Tarde, mas que raramente despertam meu interesse.