28.1.24

“Viver” - Oliver Hermanus (Reino Unido/Japão/Suécia, 2022)

Sinopse:
1953. Numa Londres destruída pela Segunda Guerra Mundial, Williams (Bill Nighy), um funcionário público veterano, é uma peça impotente na engrenagem burocrática de uma cidade que luta para se reconstruir. Enterrado em papelada no escritório, William sente há muito que leva uma existência vazia e sem sentido. Certo dia, um diagnóstico médico arrasador obriga-o a fazer um balanço da sua vida e a tentar alcançar a satisfação, antes que ela fique fora do seu alcance.
Comentário: Oliver Hermanus é um cineasta e escritor sul-africano. “Viver” é o primeiro filme que vejo dele. Com roteiro de Kazuo Ishiguro, o filme é uma adaptação de uma obra do Akira Kurosawa também chamada “Viver” (no original seria “Ikiru”), do ano de 1952.
A premissa é basicamente a mesma: um funcionário público que passou toda sua vida trabalhando sem nada produzir recebe a notícia de que está com uma doença terminal e começa a correr contra o tempo para viver aquilo que ele nunca viveu, antes que seja tarde demais.
João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema nos conta que o remake situa “os acontecimentos numa época paralela ao original japonês, início dos anos 1950, conferindo uma universalidade à trama. Os burocratas carreiristas da nossa era digital, malgrado as aparências que enganam, costumam repetir esses comportamentos – salvo as exceções de sempre, claro. No filme, com seus ternos bem cortados e chapéus-coco combinando, os funcionários públicos especialistas em movimentar papel comportam-se com a premissa de que arriscar o pescoço é a maneira mais certa de perder a cabeça – qualquer iniciativa fora da caixinha pode criar problemas e atrapalhar suas carreiras. É sempre melhor passar a bola para outro departamento, que por sua vez vai repassar para outro departamento, e assim por diante. O objetivo, quando o funcionário senta em cima do processo, é não causar dano. O interesse público, hélas, fica em segundo plano, indefinidamente”.
Numa entrevista, o ator Bill Nighy definiu seu trabalho em “Viver” dizendo: “Esse tipo de filme pode ser edificante quando você sai do cinema. A tragédia realmente traz esperança. Não entendo como isso funciona, mas funciona. Você apenas espera fazer um bom trabalho que possa te levar a algo melhor”.
O filme concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e de Melhor Ator para Bill Nighy.
O que disse a crítica: João Garção Borges do site HD avaliou com o equivalente a 3,25 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Belíssima direção de fotografia e notável exercício de luz e sombras onde sobressaem cores quentes que nos recordam outras eras e outras atmosferas. Muito cuidada a reconstituição dos anos cinquenta na Inglaterra, sobretudo visível nos pormenores das ruas e áreas emblemáticas da capital britânica onde a maioria dos personagens deste filme circula. Magnífica a matriz, ou melhor, as matrizes literária e cinematográfica, que se revelam aqui e agora numa série de correspondências plasmadas no plano ficcional, que não deixa por isso de constituir um argumento novo e com diferenças que não alteram o essencial, ou seja, a história de um homem que no fundo se apercebe de que nos limites do seu equilíbrio existencial a vida vale muito mais do que a rotina burocrática de uma profissão que esmaga pela inércia face aos resultados práticos e pelo peso da burocracia”.
Raphael Camacho do Cine Pop avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Ele achou “as atuações de Bill Nighy e Aimee Lou Wood (...] estupendas” e completou dizendo que “o projeto, que ainda conta com uma belíssima trilha sonora assinada pela compositora francesa Emilie Levienaise-Farrouch, nos faz refletir constantemente sobre como vivemos a nossa própria vida”.
O que eu achei: Este filme é um remake do filme “Viver” (Ikiru) rodado em 1952, no Japão, por Akira Kurosawa. O que Oliver Hermanus fez foi basicamente levar a trama do Japão pra a Inglaterra, mantendo a mesma época - anos 1950 - e mantendo a mesmíssima história que mostra a estafante burocracia do serviço público. O personagem principal - que no original se chamava Kanji Watanabe e agora passa a ser o sr. Williams - há anos trabalha sem muito produzir. Sua vida vem passando batida até ele receber um diagnóstico médico que vai fazê-lo passar a ter pressa de construir algo produtivo ou, ao menos, prazeroso. Curioso que, apesar de eu ser grande fã do Kurosawa, achei o original arrastado e tedioso. O remake segue pelo mesmo caminho. Tem uma ambientação dos anos 50 muito bem construída, uma trilha sonora que combina com os sentimentos aqui expostos, uma bela fotografia, mas nada disso consegue compensar a falta de interesse do enredo e a ineficaz densidade dos sentimentos emanados pelos personagens. A única vantagem do remake sobre o original é que o original demorava em torno de 2h30m para terminar e este leva 1h42m para chegar ao seu desfecho. É daqueles filmes edificantes bons para passar na Sessão da Tarde, mas que raramente despertam meu interesse.