27.1.24

“L'immensità” - Emanuele Crialese (Itália/França, 2022)

Sinopse:
Década de 1970. Clara (Penélope Cruz) e Felice Borghetti (Vincenzo Amato) acabam de se mudar com os três filhos para um novo apartamento no centro de Roma. Adriana (Luana Giuliani), a filha de 12 anos, desde sempre se sentiu como uma alienígena pois, apesar de ter nascido num corpo de menina, sabe que é um rapaz. Aproveitando esta mudança para um bairro onde ninguém a conhece, resolve apresentar-se como sendo do sexo masculino. No meio do grupo de jovens que ali habita está Sara (Penélope Nieto Conti), uma rapariga por quem Adriana se apaixona. Mas essa circunstância só vai aumentar a tensão entre os pais, que há muito atravessam uma crise conjugal.
Comentário: Emanuele Crialese é um roteirista e cineasta italiano. Dirigiu “Once We Were Strangers” (1997), “Respiro” (2002), “Novo Mundo” (2006) e “Terra Firme” (2011). “L'immensità” é o primeiro filme que vejo dele. Em entrevista concedida ao Festival de Veneza, Crialese declarou que nasceu biologicamente mulher e que este longa - que se concentra em uma família italiana dos anos 1970, em que a filha mais velha se identifica como um menino e sofre com as relações tensas com os pais - tem uma livre inspiração em sua própria vida.
Wendy Ide do site The Guardian nos conta que “aqui está uma tendência latente de violência na Roma dos anos 1970, uma sensação de que a cidade está prestes a se despedaçar. Na pressa de se desenvolver, áreas carentes são demolidas para dar lugar a apartamentos novos e reluzentes e a uma onda crescente de riqueza. Recantos do deserto urbano cheios de mistério e envoltos em juncos – playgrounds proibidos para os três filhos de Clara (Penélope Cruz) – desaparecem quase da noite para o dia. O fato de a própria cidade estar enfrentando um processo de transição não é por acaso. O último filme de Emanuele Crialese (...) é em parte, uma turbulenta e semiautobiográfica história de maioridade focada na filha mais velha de Clara, Adri (Luana Giuliani), de 12 anos, batizada de Adriana, mas que prefere usar o nome masculino Andrea (é uma história pessoal para Crialese, que revelou após a estreia do filme no ano passado que é um homem trans). A sociedade romana conservadora não simpatiza com uma criança que questiona a sua identidade de gênero; nem perdoa mulheres como a impulsiva e extremamente infeliz Clara, que não segue os limites. Dos dois personagens principais, Clara fornece a pedra de toque tonal do filme. Assim como ela, o filme se transforma em momentos de fantasia imprevisível – números musicais inspirados em programas de variedades da televisão. A música – pop italiano enérgico, baladas sentimentais – é empregada de forma inventiva, mas o uso de cores e figurinos é particularmente evocativo. O desafiador casaco amarelo açafrão de Clara a diferencia nas ruas da cidade; na escola católica, as meninas – e uma Andrea miserável e amotinada – usam túnicas brancas virginais em estilo sobrepeliz [vestimenta eclesiástica feita de tecido leve e branco, que se usa sobre a batina e desce até o meio do corpo], enquanto os meninos usam preto. Andrea, sugere o filme, está tentando reivindicar um lugar em um mundo que ainda vê em preto e branco”.
O que disse a crítica: Cecilia Barroso do site Cenas de Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: “Com muitos pontos positivos, ‘L’immensità’ é um filme que vai fácil e emociona em vários pontos. Tem algumas questões, como a demora da relação com a televisão, que acaba ganhando uma relevância grande na narrativa de repente, com longos e divertidos clipes musicais, mas nada que comprometa a experiência. O maior porém, talvez, seja o fato de deixar pelo caminho a situação das personagens, algo que se pode entender levando-se em consideração que se trata do recorte temporal de uma história não concluída”.
Glenn Kenny do site Roger Ebert também deu três estrelas. Disse: “Embora Luana Giuliani [que interpreta Adriana] seja uma artista notável, cujos olhos (...) são instrumentos incrivelmente adequados para registrar alegria ou angústia, o filme é, em última análise, sobre seu personagem em relação a Penélope Cruz. Não se pode ter certeza se isso foi explicitamente intencional ou se é apenas algo que acontece quando todas as imagens são agregadas. Seja qual for o caso, a luminosidade da atriz [Penélope Cruz] provavelmente vale o preço do ingresso”.
O que eu achei: Achei muito interessante a forma como Crialese resolveu contar a história de duas pessoas desajustadas – mãe e filha – apenas mostrando cenas do dia a dia da família composta por um casal com três filhos e sua relação com outros membros da família e outras pessoas do convívio diário. De fato, bastaria observar um pouco mais atentamente as pessoas que nos cercam para identificarmos o muito que todos fazemos para nos adaptar aos papéis que nos são dados. Eu mesma, que nasci nos anos 60 e ainda era criança nos anos 1970 (época em que o filme se passa), não tinha consciência de quantas relações tóxicas tive ao longo da vida. Na verdade, naquele período, essa expressão nem existia, nada se questionava pois tudo estava aparentemente no seu devido lugar. Quantas personagens como Clara, a mãe, já vimos por aí? Mulheres que precisariam ser mais contidas, mas que são mais alegres ou mais bonitas do que deveriam. E quantas Adrianas, a filha de 12 anos que já percebeu que nasceu com uma alma masculina num corpo feminino e precisa aprender a lidar com isso junto aos membros da família, também já vimos por aí? Não que tenha melhorado muito dos anos 70 pra cá mas, sem dúvida, era muito pior. É um filme que emociona pois por trás das cenas alegres que a vida em família tem, pode haver algo bastante sombrio que não está sendo observado, sombrio o suficiente para te fazer pensar que o desajustado é você.