
Comentário: Sebastián Lelio nasceu na cidade de Mendoza, na Argentina, mas mudou-se ainda muito cedo para o Chile, onde foi criado. Assisti dele o ótimo “Uma Mulher Fantástica” (2017), obra que lhe rendeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Jonathan Firmino do site Techtudo nos conta que "O Milagre" é uma adaptação do livro homônimo publicado em 2016 da escritora Emma Donoghue, que assina o roteiro junto com Alice Birch e Sebastián Lelio. A história é a seguinte: em uma comunidade rural na Irlanda, em 1862, a enfermeira inglesa Elizabeth Wright (Florence Pugh) é chamada para acompanhar o jejum de Anna O'Donnell (Kíla Lord Cassidy), uma criança de 11 anos que não come há quatro meses. Junto dela, uma freira (Josie Walker) também acompanha o caso. Elizabeth enxerga a suposta abstinência com ceticismo, mas na aldeia todos acreditam se tratar de um milagre. Firmino diz que “Para escrever o romance, Donoghue se inspirou nos casos de ‘virgens jejuadoras’ da era vitoriana. Garotas adolescentes que deixavam de comer na espera de serem abençoadas pela penitência. Os casos eram vistos pela sociedade da época como ‘provação divina’ e eram incentivados por lideranças religiosas. Entretanto, de acordo com estudos médicos posteriores, as alegações de jejum por meses ou anos foram consideradas fraudes e parte das garotas sofriam do que hoje é conhecido como anorexia nervosa, distúrbio alimentar vinculado à preocupação excessiva com o peso”.
O que disse a crítica: José Geraldo Couto do IMS achou bom. Escreveu: “’O Milagre’ (...) é um filme de extrema atualidade, embora ambientado na Irlanda de meados do século XIX. Dez ou vinte anos atrás, seu entrecho (...) talvez soasse datado e obsoleto, mas o fanatismo religioso e o negacionismo científico que ganharam fôlego nos últimos tempos lhe conferiram vigor e contundência. (...) Em termos de produção, é o trabalho mais ambicioso do chileno Sebastián Lelio (...), que se moveu com desenvoltura na cuidadosa reconstituição de época, evitando sucumbir ao peso do academicismo. Concorrem para isso o prólogo e o epílogo metalinguísticos, mostrando o set e as condições de filmagem e estabelecendo um distanciamento crítico com o que é narrado. Claro que isso não é novidade, pelo menos desde Brecht e Godard, mas é sempre saudável lembrar ao espectador que ele está diante de uma realidade fabricada. Além disso, Lelio evitou a armadilha em que caem tantas produções de época, que é a de tudo submeter à verossimilhança da reconstituição e ao esplendor da direção de arte. Aqui, ele inverte a equação: a construção visual do filme, com sua iluminação de pintura barroca (sobretudo nas cenas internas) e sua minuciosa composição cromática, ajudam a ressaltar o sentido central do relato. Num ambiente sombrio, puxando para o ocre, o marrom e o cinza, o vestido azul-celeste da enfermeira Elizabeth se destaca como um corpo estranho, um grito de cor, um respiro num mundo quase monocromático. Num momento epifânico do filme, uma rara abertura do céu nublado espalha o azul pelos campos, como o verde dos olhos que se derrama pela plantação na célebre canção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Essa poesia visual, à parte o prólogo e o epílogo mencionados, mantém-se nos limites da narrativa clássica, mas usa seus recursos de forma criativa e expressiva, impedindo a queda na banalidade tão comum nesse tipo de produção. Mesmo o desfecho um tanto forçado e edificante não chega a comprometer o conjunto da obra”.
Marcelo Müller do site Papo de Cinema também avaliou como bom. Disse: “Vidrados em mais uma interpretação visceral da talentosa Florence Pugh, somos levados por um caminho menos ambivalente do que seria possível imaginar tendo em vista a quebra inicial da ilusão do cinema. Porém, talvez esteja nisso a chave para compreender as intenções do longa-metragem que ainda conta com ótimas fotografia (de Ari Wegner) e direção de arte (de Grant Montgomery). Mesmo depois de o cineasta escancarar a natureza falsa (‘tudo não passa de um filme’), somos convidados a nos comprometer com a lógica cinematográfica, torcendo por A ou B, na expectativa sobre o que vai acontecer. Seria então isso também aplicável à fé, ou seja, ela independe da obtenção de uma ‘verdade’ mundana, de fatos, estando associada ao desejo de acreditar? Revigorante assistir a um filme que não oferece respostas, mas perguntas instigantes”.
O que eu achei: O filme começa e termina mostrando os bastidores do set de filmagem, informando com isso que tudo o que vamos ver é algo ficcional e fantasioso. Essa ideia me parece bem válida quando se fala de religião e de fé, de acreditar ou não em milagres, já que tudo vai depender mais da crença das pessoas do que da realidade dos fatos, sempre passíveis de interpretações distintas. O ritmo do filme é lento, mas nada enfadonho. Ele segue numa aparente simplicidade cuja complexidade está mais nas entrelinhas do que naquilo que nos é dado. A fotografia assinada pela australiana Ari Wegner - a mesma de “O Ataque dos Cães” - encanta, tanto pelos enquadramentos quanto pela paleta de cores. É um filme sobre crença, sobre sacrifício, sobre culpa, mas também sobre o machismo da conservadora sociedade irlandesa da época (1862). Ao final a grande questão é o quanto, de fato, nossa crença nos faz cegos. Estaríamos abertos à um novo ponto de vista ou a sede por estar certo fala mais alto do que a realidade dos fatos?
O que disse a crítica: José Geraldo Couto do IMS achou bom. Escreveu: “’O Milagre’ (...) é um filme de extrema atualidade, embora ambientado na Irlanda de meados do século XIX. Dez ou vinte anos atrás, seu entrecho (...) talvez soasse datado e obsoleto, mas o fanatismo religioso e o negacionismo científico que ganharam fôlego nos últimos tempos lhe conferiram vigor e contundência. (...) Em termos de produção, é o trabalho mais ambicioso do chileno Sebastián Lelio (...), que se moveu com desenvoltura na cuidadosa reconstituição de época, evitando sucumbir ao peso do academicismo. Concorrem para isso o prólogo e o epílogo metalinguísticos, mostrando o set e as condições de filmagem e estabelecendo um distanciamento crítico com o que é narrado. Claro que isso não é novidade, pelo menos desde Brecht e Godard, mas é sempre saudável lembrar ao espectador que ele está diante de uma realidade fabricada. Além disso, Lelio evitou a armadilha em que caem tantas produções de época, que é a de tudo submeter à verossimilhança da reconstituição e ao esplendor da direção de arte. Aqui, ele inverte a equação: a construção visual do filme, com sua iluminação de pintura barroca (sobretudo nas cenas internas) e sua minuciosa composição cromática, ajudam a ressaltar o sentido central do relato. Num ambiente sombrio, puxando para o ocre, o marrom e o cinza, o vestido azul-celeste da enfermeira Elizabeth se destaca como um corpo estranho, um grito de cor, um respiro num mundo quase monocromático. Num momento epifânico do filme, uma rara abertura do céu nublado espalha o azul pelos campos, como o verde dos olhos que se derrama pela plantação na célebre canção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Essa poesia visual, à parte o prólogo e o epílogo mencionados, mantém-se nos limites da narrativa clássica, mas usa seus recursos de forma criativa e expressiva, impedindo a queda na banalidade tão comum nesse tipo de produção. Mesmo o desfecho um tanto forçado e edificante não chega a comprometer o conjunto da obra”.
Marcelo Müller do site Papo de Cinema também avaliou como bom. Disse: “Vidrados em mais uma interpretação visceral da talentosa Florence Pugh, somos levados por um caminho menos ambivalente do que seria possível imaginar tendo em vista a quebra inicial da ilusão do cinema. Porém, talvez esteja nisso a chave para compreender as intenções do longa-metragem que ainda conta com ótimas fotografia (de Ari Wegner) e direção de arte (de Grant Montgomery). Mesmo depois de o cineasta escancarar a natureza falsa (‘tudo não passa de um filme’), somos convidados a nos comprometer com a lógica cinematográfica, torcendo por A ou B, na expectativa sobre o que vai acontecer. Seria então isso também aplicável à fé, ou seja, ela independe da obtenção de uma ‘verdade’ mundana, de fatos, estando associada ao desejo de acreditar? Revigorante assistir a um filme que não oferece respostas, mas perguntas instigantes”.
O que eu achei: O filme começa e termina mostrando os bastidores do set de filmagem, informando com isso que tudo o que vamos ver é algo ficcional e fantasioso. Essa ideia me parece bem válida quando se fala de religião e de fé, de acreditar ou não em milagres, já que tudo vai depender mais da crença das pessoas do que da realidade dos fatos, sempre passíveis de interpretações distintas. O ritmo do filme é lento, mas nada enfadonho. Ele segue numa aparente simplicidade cuja complexidade está mais nas entrelinhas do que naquilo que nos é dado. A fotografia assinada pela australiana Ari Wegner - a mesma de “O Ataque dos Cães” - encanta, tanto pelos enquadramentos quanto pela paleta de cores. É um filme sobre crença, sobre sacrifício, sobre culpa, mas também sobre o machismo da conservadora sociedade irlandesa da época (1862). Ao final a grande questão é o quanto, de fato, nossa crença nos faz cegos. Estaríamos abertos à um novo ponto de vista ou a sede por estar certo fala mais alto do que a realidade dos fatos?