21.10.23

“A Filha Eterna” - Joanna Hogg (EUA/Reino Unido, 2021)

Sinopse:
Quando retornam à antiga casa de sua família, uma artista de meia-idade (Tilda Swinton) e sua mãe idosa (Tilda Swinton) precisam enfrentar segredos que estão há muito tempo enterrados. O lugar, que antes era uma mansão velha, se tornou um hotel quase vazio, assombrado por lembranças e fantasmas do passado. Agora Julie e Rosalind precisarão enfrentar essa experiência sobrenatural sinistra que une passado e presente.
Comentário: Joanna Hogg é uma cineasta e roteirista britânica. Dentre sua produção estão “Caprice” (1986), “Unrelated” (2007), “Archipelago” (2010), “Exibição” (2013), “The Souvenir” (2019) e “The Souvenir: Part II” (2021). “A Filha Eterna” é o primeiro filme que assisto dela. 
Richard Brody do site do site New Yorker nos conta tratar-se da terceira parte do filme “The Souvenir”. Ele diz: “Meu papel duplo favorito no cinema – além do de Charlie Chaplin , em ‘O Grande Ditador’, é claro – é o de mãe e filha interpretadas por Frances Farmer, em ‘Meu Filho é Meu Rival’, do Howard Hawks. Lembro-me disso pela espetacular conquista de Tilda Swinton como mãe e filha, no novo filme de Joanna Hogg, ‘A Filha Eterna’ (...). Ao contrário dos papéis de Farmer, que são secundários em relação ao personagem principal masculino do filme, pelo menos um dos dois personagens de Swinton está na tela em todas as cenas, e os poucos outros atores do filme estão em papéis coadjuvantes. ‘A Filha Eterna’ é basicamente uma obra de duas mãos para um ator, um surpreendente tour de force para a arte de Swinton e para a escrita e direção de Hogg - ainda mais por ser uma sequência, a terceira de uma série. Como em ‘The Souvenir’ (2019) e ‘The Souvenir: Parte II’ de Hogg (2021), Swinton interpreta Rosalind, a mãe de uma jovem estudante de cinema chamada Julie Hart (Honor Swinton Byrne, filha na vida real de Swinton). Agora, em ‘A Filha Eterna’, Julie retorna como uma mulher de meia-idade (Swinton) que, no frio final de novembro, leva a viúva idosa Rosalind (também Swinton) para breves férias no País de Gales, em um hotel remoto e majestoso. Elas estão lá para comemorar o aniversário de Rosalind; Julie está planejando fazer um filme sobre sua mãe”.
O que disse a crítica: Sheila O'Malley do site do Roger Ebert avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: “’A Filha Eterna’ é mais sobre um estado emocional do que qualquer outra coisa. A ilusão de que Tilda Swinton é Julie e Rosalind vem inteiramente da sensível performance dupla de Swinton. Hogg não usa truques de fotografia para colocá-las no quadro ao mesmo tempo. Julie e Rosalind são filmadas conversando uma com a outra. Quando elas finalmente aparecem juntas, é um sinal de que as coisas estão prestes a entrar na fase final. ‘A Filha Eterna’ parece um primeiro rascunho ou um esboço a ser preenchido mais tarde. Isso talvez se reflita nas dificuldades de Julie na tela até mesmo para escrever um esboço. Os contornos de Hogg, porém, são mais interessantes do que os produtos acabados de outras pessoas. Há sempre muito em que pensar”.
Daniel Oliveira do site Cinematório avaliou com 4 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “Swinton, essa mulher que carrega cinema em cada gesto de seu corpo e em cada expressão de seu rosto, é o grande trunfo do filme. A atriz não só constrói duas personagens absolutamente distintas e independentes, reproduzindo com perfeição os maneirismos e a trepidação neurótica e passiva-agressiva com que (sua filha) Honor Swinton Byrne construiu Julie nos dois longas anteriores, assim como a elegância britânica e afetuosa de Rosalind, mas é capaz de tornar a mera ação de passear com Louis (seu cachorro na vida real, diga-se de passagem) uma cena fascinante. Momentos como esses passeios com o cão, o jantar entre mãe e filha, as preparações para a cama e a noite de sono são recorrentes, dando à produção um caráter intencionalmente repetitivo, como ensaios e tentativas de Julie de conseguir encenar esse momento que vá lhe render um filme. Nessa estrutura reside a chave para decodificar a revelação final do longa, que ressignifica todos os elementos sonoros e visuais de ‘A Filha Eterna’ e faz do filme - assim como ‘The Souvenir’ e sua continuação - mais um retrato fascinante dos aspectos perversos, levemente insanos e perturbadores do processo criativo. Uma viagem aos recônditos mais secretos e pungentes da vida interior de um artista”.
O que eu achei: Eu não assisti “The Souvenir” (2019), nem “The Souvenir: Part II” (2021) da mesma diretora. Então caí nessa terceira parte sem conhecer os antecessores. De cara me chamou a atenção a beleza da fotografia que mostra um carro com motorista passando por uma estrada enevoada carregando Julie (a filha) e Louis (o cachorro). Ao chegar no hotel - antiga casa de sua família – é que a mãe de Julie aparece descendo do carro e daí toda a trama vai se passar centrada nessa relação entre mãe e filha, ambas interpretadas magistralmente por Tilda Swinton. Quando o filme termina quem deixa o hotel são novamente Julie e o cão, indicando que essa mãe é basicamente uma pessoa que só existe em suas memórias. O miolo do filme é lento e bastante reflexivo, flerta de leve com o gênero terror já que as memórias que a filha vai tentar elaborar para escrever um roteiro para o cinema está povoado de fantasmas. É um filme sobre o psicológico, sobre lembranças boas e ruins, sobre o passado e suas relações frustradas. Mas, mais do que isso, aparentemente toda a trilogia é sobre o processo criativo de um artista já que o que Julie realmente quer é escrever o tal roteiro. Então esse filme é mais sobre a filha do que sobre a mãe, já que escrever sobre alguém é sempre escrever sobre nós mesmos. Uma boa pedida. Atenção à belíssima locação toda filmada numa mansão em Soghton, Flintshire, no País de Gales.