
Comentário: Sharunas Bartas é um cineasta lituano nascido em 1964. Ele
estudou cinema em Moscou. Estreou na direção com o
curta “Tofolaria” (1986) e, em 1991, dirigiu o primeiro
longa-metragem: “Three Days”. Bartas também é diretor de outros longas,
como “Poucos de Nós” (1996), “Liberdade” (2000),
“Sete Homens Invisíveis” (2005), “Eastern Drift” (2010), “Peace
to Us in Our Dreams” (2015) e “Frost” (2017), dentre outros. “A Casa” (1997) é o primeiro longa que assisto do diretor.
O roteiro foi escrito por Bartas em parceria com
Yekaterina Golubeva. O filme se abre com a aproximação de uma imagem de uma
mansão enquanto o narrador lê uma carta confessional escrita para sua mãe sobre
a incapacidade de comunicação entre eles. O filme não tem diálogos, só sons e
imagens, como se uma câmara indiscreta acompanhasse o quotidiano dos habitantes
dessa casa. O filme, que nasceu sem argumento, conta a história da mulher das
marionetes, do homem dos livros e de outros habitantes que passam e passaram
pela casa. Inicialmente previsto para ser filmado em Portugal, o filme foi
rodado na Lituânia.
O que disse a crítica: Cláudio Alves do site Magazine HD escreveu: “Sharunas Bartas
não é um realizador que agrade a qualquer cinéfilo. Para se dizer bem a
verdade, encontrar alguém que realmente adore os seus severos trabalhos de
silêncios prolongados é quase como encontrar uma agulha num palheiro. Mas para
quem esteja na mesma sintonia que este peculiar cineasta lituano, os seus
filmes poderão ser autênticas revelações cinematográficas. ‘A Casa’,
produzido por Paulo Branco, foi um dos seus primeiros projetos a ser atacado
com uma crítica recorrente - que Bartas estava a se repetir sem desenvolver
nada no seu percurso como realizador. Isso pode ser bem verdade, mas se Bartas
nunca evolui o seu discurso cinematográfico pelo menos aperfeiçoou-o nesta
obra, onde a palavra humana é somente presente em dois monólogos sendo o
silêncio, o vazio espacial e a força da face humana os principais elementos
construtivos de toda a experiência. Assombroso, hipnótico e frustrante, este
filme é um estudo em melancolia existencialista expressa através de uma
formalidade severa mas belíssima na sua qualidade lírica. O conceito do lar
nunca foi abordado deste modo na história do cinema e só por isso, este é um filme
a se recordar”.
O site A Sétima
Arte publicou: “A casa e a mãe são, claro, metáforas da pátria que serão
exploradas nas duas horas que se seguem. Parece-me que ‘A Casa’ é o filme em que
Bartas finalmente aceita o trauma do passado recente do país que ele sempre
expressou em sua obra. Consequentemente, o filme também parece um somatório dos
filmes anteriores do diretor (pode-se dizer que os personagens dos filmes
anteriores de Bartas repetem aqui seus papéis) e um caldeirão de todas as
influências de Tarkovski que caracterizaram seu trabalho (...). Filmado quase
inteiramente em um ambiente interno, (...) a própria casa pode ser um espaço
abstrato (...) representando a mente do protagonista com sua configuração
espacial desorientada como o tabuleiro de xadrez do filme. Além disso, também
temos a sensação de que Bartas está tentando resolver a questão da teoria
versus prática – cinismo frio versus otimismo caloroso – no que diz respeito à
sua política, enquanto testemunhamos o protagonista finalmente queimar os
livros, página por página, que ele havia mantido até agora firmemente contra
seu peito”.
O que eu achei: Esta é minha primeira experiência com o cinema do lituano
Sharunas Bartas. O filme começa e termina com uma narração dirigida à mãe,
enquanto todo o miolo do filme mostra imagens e sons sem nenhum tipo de fala ou
conexão entre eles. A maior parte dessas imagens ocorre dentro de uma casa, nos
seus diversos cômodos. Nesse local há homens, mulheres e animais fazendo as
mais diversas atividades como um homem que joga xadrez contra si mesmo, uma
mulher que apresenta um espetáculo de marionetes silencioso, uma mesa com
pessoas sentadas bebendo vinho solenemente ou um cachorro que se alimenta de
restos que ficaram sobre a mesa de jantar. Com isso, o resultado é basicamente
um filme experimental, sem uma narrativa aparentemente lógica, que flerta com o surrealismo.
Cenas que poderiam estar abrigadas dentro do inconsciente de alguém, podendo
ser oriundas de um sonho ou representar um passeio pelos diversos compartimentos
que compõem uma memória. Sua acumulação de símbolos, metáforas e situações se
prestam às mais diversas interpretações, como um enigma a ser decifrado. Não
fosse sua duração – 1h58m – poderia ser um trabalho de videoarte exposto numa
galeria, dada sua grande beleza visual e trilha sonora equilibrada que te embalam para
algum lugar além do racional. O final, que mostra o lado de fora da casa
cercado por carros do exército e tanques de guerra, nos dá pistas de que essa
mãe é, na verdade, sua pátria, a Lituânia, que viveu a separação da URSS no início dos anos
90 (este filme é de 1997) e em como a separação política destilou um sentimento
de inutilidade e resignação no seu povo. É um filme para poucos que exige
paciência, entrega e especialmente abertura para ver algo completamente fora da caixinha.