22.10.23

“A Casa” - Sharunas Bartas (Lituânia/Portugal/França, 1997)

Sinopse:
Uma mansão em ruínas: indivíduos de todos os tipos, idades e condições comem, vagam, descansam ou praticam atividades diversas lá dentro. Mas sempre em estrito silêncio.
Comentário: Sharunas Bartas é um cineasta lituano nascido em 1964. Ele estudou cinema em Moscou. Estreou na direção com o curta “Tofolaria” (1986) e, em 1991, dirigiu o primeiro longa-metragem: “Three Days”. Bartas também é diretor de outros longas, como “Poucos de Nós” (1996), “Liberdade” (2000), “Sete Homens Invisíveis” (2005), “Eastern Drift” (2010), “Peace to Us in Our Dreams” (2015) e “Frost” (2017), dentre outros. “A Casa” (1997) é o primeiro longa que assisto do diretor.
O roteiro foi escrito por Bartas em parceria com Yekaterina Golubeva. O filme se abre com a aproximação de uma imagem de uma mansão enquanto o narrador lê uma carta confessional escrita para sua mãe sobre a incapacidade de comunicação entre eles. O filme não tem diálogos, só sons e imagens, como se uma câmara indiscreta acompanhasse o quotidiano dos habitantes dessa casa. O filme, que nasceu sem argumento, conta a história da mulher das marionetes, do homem dos livros e de outros habitantes que passam e passaram pela casa. Inicialmente previsto para ser filmado em Portugal, o filme foi rodado na Lituânia.
O que disse a crítica: Cláudio Alves do site Magazine HD escreveu: “Sharunas Bartas não é um realizador que agrade a qualquer cinéfilo. Para se dizer bem a verdade, encontrar alguém que realmente adore os seus severos trabalhos de silêncios prolongados é quase como encontrar uma agulha num palheiro. Mas para quem esteja na mesma sintonia que este peculiar cineasta lituano, os seus filmes poderão ser autênticas revelações cinematográficas. ‘A Casa’, produzido por Paulo Branco, foi um dos seus primeiros projetos a ser atacado com uma crítica recorrente - que Bartas estava a se repetir sem desenvolver nada no seu percurso como realizador. Isso pode ser bem verdade, mas se Bartas nunca evolui o seu discurso cinematográfico pelo menos aperfeiçoou-o nesta obra, onde a palavra humana é somente presente em dois monólogos sendo o silêncio, o vazio espacial e a força da face humana os principais elementos construtivos de toda a experiência. Assombroso, hipnótico e frustrante, este filme é um estudo em melancolia existencialista expressa através de uma formalidade severa mas belíssima na sua qualidade lírica. O conceito do lar nunca foi abordado deste modo na história do cinema e só por isso, este é um filme a se recordar”.
O site A Sétima Arte publicou: “A casa e a mãe são, claro, metáforas da pátria que serão exploradas nas duas horas que se seguem. Parece-me que ‘A Casa’ é o filme em que Bartas finalmente aceita o trauma do passado recente do país que ele sempre expressou em sua obra. Consequentemente, o filme também parece um somatório dos filmes anteriores do diretor (pode-se dizer que os personagens dos filmes anteriores de Bartas repetem aqui seus papéis) e um caldeirão de todas as influências de Tarkovski que caracterizaram seu trabalho (...). Filmado quase inteiramente em um ambiente interno, (...) a própria casa pode ser um espaço abstrato (...) representando a mente do protagonista com sua configuração espacial desorientada como o tabuleiro de xadrez do filme. Além disso, também temos a sensação de que Bartas está tentando resolver a questão da teoria versus prática – cinismo frio versus otimismo caloroso – no que diz respeito à sua política, enquanto testemunhamos o protagonista finalmente queimar os livros, página por página, que ele havia mantido até agora firmemente contra seu peito”.
O que eu achei: Esta é minha primeira experiência com o cinema do lituano Sharunas Bartas. O filme começa e termina com uma narração dirigida à mãe, enquanto todo o miolo do filme mostra imagens e sons sem nenhum tipo de fala ou conexão entre eles. A maior parte dessas imagens ocorre dentro de uma casa, nos seus diversos cômodos. Nesse local há homens, mulheres e animais fazendo as mais diversas atividades como um homem que joga xadrez contra si mesmo, uma mulher que apresenta um espetáculo de marionetes silencioso, uma mesa com pessoas sentadas bebendo vinho solenemente ou um cachorro que se alimenta de restos que ficaram sobre a mesa de jantar. Com isso, o resultado é basicamente um filme experimental, sem uma narrativa aparentemente lógica, que flerta com o surrealismo. Cenas que poderiam estar abrigadas dentro do inconsciente de alguém, podendo ser oriundas de um sonho ou representar um passeio pelos diversos compartimentos que compõem uma memória. Sua acumulação de símbolos, metáforas e situações se prestam às mais diversas interpretações, como um enigma a ser decifrado. Não fosse sua duração – 1h58m – poderia ser um trabalho de videoarte exposto numa galeria, dada sua grande beleza visual e trilha sonora equilibrada que te embalam para algum lugar além do racional. O final, que mostra o lado de fora da casa cercado por carros do exército e tanques de guerra, nos dá pistas de que essa mãe é, na verdade, sua pátria, a Lituânia, que viveu a separação da URSS no início dos anos 90 (este filme é de 1997) e em como a separação política destilou um sentimento de inutilidade e resignação no seu povo. É um filme para poucos que exige paciência, entrega e especialmente abertura para ver algo completamente fora da caixinha.