27.7.23

“Medida Provisória” - Lázaro Ramos (Brasil, 2020)

Sinopse:
 
Estamos no Brasil do futuro. O governo brasileiro decreta uma medida provisória que obriga os cidadãos negros a se mudar para a África na intenção de retomar as suas origens. A aprovação afeta diretamente a vida do casal formado pela médica Capitú (Taís Araújo) e pelo advogado Antonio (Alfred Enoch), além de seu primo, o jornalista André (Seu Jorge), que mora com eles no mesmo apartamento.
Comentário: Trata-se da adaptação da peça teatral “Namíbia, Não”, escrito por Aldri Anunciação. É a estreia do ator Lázaro Ramos na direção, que já havia trabalhado na direção da referida peça em 2011. A história se passa no Brasil do futuro. O governo aprova uma medida provisória ordenando que os brasileiros negros, que eles chamam de “melanina acentuada”, sejam mandados de volta à África, provocando uma reação caótica e resistente daqueles oprimidos, com especial foco no casal Antônio (Enoch) e Capitu (Araújo), e o divertido André (Seu Jorge). Alê Garcia do site Omelete nos conta que “há mensagens claras aqui, que incomodam uma realidade estabelecida que não quer admitir sua ojeriza, que quer continuar a emular uma harmonia inexistente. E esta intenção sempre escamoteada, vai mostrando seus tentáculos por meio do domínio de processos, como o que atrasou a possibilidade de que o víssemos antes, muito antes, uma vez que a Ancine atrasou seu lançamento em mais de um ano, sem nunca justificar tal morosidade”.
O que disse a crítica: Kevin Rick do site Plano Crítico e Inácio Araújo da Folha de SP não gostaram. Rick escreveu: “importância temática é diferente de execução artística. Muitos filmes falam sobre racismo, feminismo, machismo, homofobia, representação cultural, entre outros tópicos relevantes, mas são pouquíssimos que o fazem com qualidade artística. E, para mim, essa frase anterior resume minha péssima experiência com a obra, mais próxima de um cartaz de protesto nas ruas do que uma experiência cinematográfica verdadeiramente reflexiva”. 
Garcia gostou, classificou como ótimo. Disse: “com uma premissa tão simples quanto dolorosamente absurda - porque é, sim, assustador pensar que há verdade na intolerância tratada nesta obra - em ‘Medida Provisória’, Lázaro Ramos ‘só’ precisa se concentrar em construir o melhor na lógica interna da sua narrativa, tirar o máximo do seu elenco e se deleitar com suas possibilidades imagéticas. E ele consegue isso. Porque sabe que, apesar da experiência na direção de programas e especiais televisivos, cinema é outra coisa. E esta outra coisa - provavelmente muito mais resultado do ator sensível que é, e, portanto, generoso com os atores que, agora, passa a dirigir - Lázaro Ramos felizmente também domina, e muito bem”.
Vinícius Volcof do site Cinema com Rapadura também foi muito elogioso. Escreveu: “No contexto brasileiro atual, o filme é como um expurgo de um demiurgo que insiste em nos possuir: o racismo. É também um grito de afronta, de recusa à opressão histórica e persistente. Não é um ataque político a esse ou aquele governo, mas uma discussão de nossos erros enquanto nação, desde a formação do país. Uma ousadia gostosa de ver em um primeiro filme, surpreendentemente engraçada, cheia de ironias e piadinhas, mas verdadeiramente assustadora".
O que eu achei: A premissa é tão maluca e tão possível de acontecer que até assusta. Mérito de Aldri Anunciação que escreveu a peça. A adaptação para o cinema eu particularmente achei um pouco confusa, mas nada que faça do filme algo a ser descartado. Pelo contrário, temos urgência em tratar de certos temas e racismo é um deles. Então uma produção como essa vem bem a calhar. Atenção às atrizes Adriana Esteves – sempre impecável – e na Taís Araújo, esposa de Lázaro Ramos, que surpreende num papel onde sua beleza não se sobrepõe à sua interpretação. Outras participações interessantes: Emicida, Hilton Cobra e o próprio Aldri Anunciação (que escreveu a peça). Muito interessante também é o apêndice final criado por uma colagem sobre a luta do movimento negro brasileiro ao som da nossa eterna diva Elza Soares.