
Comentário: Trata-se de mais um filme do diretor sérvio Emir Kusturica de quem já assisti ao ótimo “Vida Cigana” (1989), aos bons “Você se Lembra de Dolly Bell?” (1981) e “Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios” (1985) e ao não tão bom “A Vida é Um Milagre” (2004). O filme tem quase três horas de duração e se baseia numa peça de teatro de Dusan Kovacevic. Começa na Segunda Guerra e termina com a região mergulhada em outro conflito: a guerra dos Bálcãs que despedaçou a antiga Iugoslávia.
O que disse a crítica: José Geraldo Couto, colunista da Folha de SP, que classificou o filme como ótimo, escreveu: “já as primeiras cenas expõem o estilo selvagem, sem meias tintas de Kusturica: em Belgrado, ao amanhecer de um domingo de 1941, dois turbulentos boêmios, Crni e Marko, voltam da farra dando tiros para o alto, seguidos por uma ruidosa banda. Se já começa estridente, ‘Underground’ parece entrar numa espiral ascendente de loucura. Um bombardeio nazista atinge o zoológico da cidade, matando algumas feras e deixando outras à solta pelas ruas, o que coloca em cena um dos motivos recorrentes do diretor: o contraponto entre homens e bichos, a realçar o que há de animal na conduta humana”.
Luiz Santiago do site Plano Crítico, considera o trabalho uma obra-prima do diretor. Ele disse: “Kusturica levou três anos para finalizar ‘Underground’ por completo, mas o resultado é simplesmente arrebatador. Sua predileção pelo fingimento teatral das interpretações, o diálogo com as artes e a metalinguagem, o desenho de produção caótico, a constante poesia no movimento interno dos planos (...), a mistura de gêneros cinematográficos, a crítica social, os figurinos anacrônicos, a fotografia pendendo para o tom sépia, o complemento do que o diretor havia iniciado dez anos antes em ‘Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios’, tudo está aqui em ‘Underground’. As quase três horas de filme são plenamente justificadas pela epopeia proposta pelo enredo e o seu significado final é do mais absoluto cinismo, o tom correto para pôr fim a uma jornada de guerra verdadeira, aquela que só é guerra quando um irmão mata um outro irmão”.
O que eu achei: O filme, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, de fato, é bem interessante. Dividido em três partes - a primeira se passa na Segunda Guerra durante a ocupação nazista da Iugoslávia; a segunda, 20 anos após o final da guerra; e a terceira, após a morte do Marechal Tito, perdurando até a Guerra dos Bálcãs – o filme procura ser didático, mostrando inclusive cenas de arquivo da época. Porém, quem conhece o estilo do diretor sabe que tudo isso vem embalado num ritmo frenético, surreal e caótico. Então veja com disposição para não perder o fio da meada. Atenção à animada trilha sonora que conta com composições de Goran Bregovic e com trechos da 9ª Sinfonia de Dvorák e da 3ª Sinfonia de Saint-Saëns, além da icônica canção “Lili Marleen”.