
Comentário: Por conta de ter vencido o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e de ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, resolvi conferir “Close” do diretor belga Lukas Dhont de quem já vi o ótimo “Girl” (2018). A história gira em torno de dois amigos de treze anos, Léo (Eden Dambrine) e Rémi (Gustav De Waele), que na sua inocência infanto-juvenil desenvolvem uma amizade íntima, profunda e delicada, levando os amigos da escola a achar que eles formam um casal homoafetivo sendo que, na verdade, nem eles sabem muito bem de onde vem tanto afeto. Essa amizade é repentinamente interrompida e algumas questões que precisam de respostas vêm à tona.
O que disse a crítica: Segundo Michel Gutwilen do site Plano Crítico, “A escolha por parte de Dhont em nunca dar um ponto final à questão no filme, preferindo-se manter na zona cinzenta que permite múltiplas leituras, parece condizer com sua ideia de não rotular os protagonistas, deixando que eles mesmo respondam por si, a partir de suas ações, em um filme que explora muito as nuances da gestualidade e menos da fala, além de respeitar o processo de descoberta afetiva destes personagens tão confusos dentro da normalidade da idade. Afinal, se não está na idade deles saberem o que são ainda, por que deveríamos saber?”.
Daniel Oliveira do Cinematório gostou muito. Escreveu: “Dhont e seu longa nunca definem a natureza específica da relação entre Léo e Rémi. Porque ela não importa, eles são crianças. Mas é inquestionável que o motivo por trás dos eventos trágicos da trama é a homofobia. E um dos méritos do filme é que não há nenhum personagem radical ou violentamente preconceituoso, homofóbico, misógino. O que o cineasta quer mostrar é como vivemos num mundo que ensina a garotos que eles não podem demonstrar afeto um pelos outros - que ser 'homem' é violência, não amor. E convida o espectador a observar as consequências dessa perversa lógica cultural”.
Lucas Pistilli do Cineset também gostou muito. Ele disse: “Entender os pormenores da trama e reconhecer os talentos envolvidos (...) não torna o filme mais fácil de assistir: ‘Close’ é um filme lindo, intenso e duro sobre o fim da infância. Ele argumenta que crianças falam sobre tudo e que a vida adulta começa quando essa habilidade se esvai. No silêncio que resta, culpa, dor e vergonha nascem para ocupar as mentes que outrora só pensavam em soldados de mentirinha”.
O que eu achei: O filme navega o tempo todo pelas entrelinhas transitando naquela área do cérebro onde as coisas não são tão facilmente entendidas e explicáveis, assim como ocorre na passagem da infância para a juventude. Vai frustrar quem espera respostas claras e definitivas, mas agradará quem valoriza um cinema mais sensível e cheio de tonalidades. O filme, como disse Pistilli, confirma o diretor belga como um dos maiores expoentes do cinema queer da atualidade. É filme para ver e refletir.