
Comentário: Trata-se de um filme escrito e dirigido pela estreante em longas Carolina Markowicz, que conta a história de uma família - mãe (Maeve Jinkings), pai (Rômulo Braga) e o filho de 9 anos (Jean de Almeida Costa) - que toma uma decisão inusitada para, assim, poder receber em sua casa um traficante argentino que precisa se esconder por um tempo. A família não está no centro geográfico do seu estado, tampouco do município. Eles vivem em uma propriedade rural, com algumas poucas galinhas e com a carvoaria, fonte do sustento familiar. O contato exterior se dá basicamente com a família da vizinha Luciana (Camila Márdila) e com a enfermeira do posto de saúde. Então não haveria lugar melhor pra esconder alguém.
O que disse a crítica: Matheus Mans do site Esquina da Cultura gostou muito. Escreveu: “O mais interessante (...) é como a cineasta consegue mergulhar no Brasil profundo, em um brasileiro que foge dos retratos convencionais e que tem a figura da família tradicional em outro cenário - é o pai que luta pelo sustento, a mãe religiosa, o filho que precisa seguir tudo na linha. Quando esse personagem estrangeiro entra, o mais profundo de cada um vem à tona. A homossexualidade, o desejo pelo outro, a falta de afeto. É um emaranhado fatal de provocações”.
Marcelo Müller do site Papo de Cinema também foi bem elogioso. Escreveu: “O cinema frequentemente alimenta uma dicotomia reducionista entre as vivências urbana e rural. Muitas vezes as metrópoles são observadas como áreas de perdição onde os vícios tendem a superar as virtudes. E essa abordagem comumente tem como contraponto o campo idílico. Pensando na cinematografia brasileira, artistas como Humberto Mauro e Amácio Mazzaropi reiteraram em vários de seus filmes a ideia de um interior paradisíaco em que a vida transcorre de modo simples e menos asfixiante. Em ‘Carvão’, a cineasta Carolina Markowicz rompe com esse imaginário provinciano marcado por bondade e candura. Todavia, é preciso enfatizar já nos argumentos iniciais deste texto: ela não utiliza uma corrente de mal absoluto para eletrificar as tensões no local superficialmente terno e convidativo”.
Lucas Oliveira do site Cinematório fez uma reflexão crucial, ele disse: “’Carvão’ termina sendo um ótimo filme sobre a encruzilhada política na qual o Brasil se encontra. Como prosseguir enquanto uma parte considerável do país que tanto amamos abraça a barbárie? O que fazer depois da constatação de que, para mais da metade do eleitorado, tudo que passamos nestes quatro anos não teve ressonância alguma? Fechar os olhos, como se fez por tanto tempo, e acreditar no mito do ‘brasileiro cordial’ é a melhor solução? Temos um longo caminho pela frente para reconstruir os laços de fraternidade, empatia e afeto entre os cidadãos brasileiros, e recuperar o humanismo que deve ser o norte de um país grandioso como o Brasil”.
O que eu achei: Se eu gostei? Muito. A diretora Carolina Markowicz mantém a obra muito bem equilibrada entre o humor ácido e o suspense agonizante, mostra um Brasil pouco conhecido e pouco investigado entregando como resultado uma espécie de filme-denúncia com performances perfeitas e tensão constante. Atenção à competente atriz Maeve Jinkings, que interpreta a mãe Irene, e ao carismático menino Jean (Jean de Almeida Costa) com suas respostas afiadas. É filme para ver e rever. Imperdível.