31.3.20

"Fausto" - Friedrich W. Murnau (Alemanha, 1926)

Sinopse: Um arcanjo (Werner Fuetterer) e o demônio Mephisto (Emil Jannings) fazem uma aposta: o mundo será entregue ao demônio, se este conseguir corromper a alma de um homem justo e destruir tudo que há de divino nele. Fausto (Gösta Ekman), um velho médico, torna-se o objeto desta aposta. Quando a peste negra secretamente espalhada por Mephisto atinge a sua aldeia, Fausto passa a acreditar que Deus é indiferente diante do sofrimento humano. Ele então evoca Mephisto, que lhe oferece um acordo. Fausto pode ter tudo o que desejar, da capacidade de curar o seu povo até a restauração de sua juventude, desde que abra mão de sua alma.
Comentário: Friedrich W. Murnau (1888 -1931) foi um dos mais importantes realizadores do cinema mudo, do cinema expressionista alemão e do estilo Kammerspiel. "Nosferatu" (1922), uma adaptação pessoal da novela "Dracula", de Bram Stoker, é o filme mais conhecido da sua obra (em boa parte perdida), juntamente com "A Última Gargalhada" (1924) e "Fausto" (1926). Em 1926, emigrou para Hollywood, onde, antes de morrer prematuramente aos 43 anos, realizaria o aclamado "Aurora" (1927). Vários de seus filmes estão perdidos. O seu último trabalho, "Tabu" (correalização com Robert Flaherty), foi filmado nos mares do sul, longe dos grandes estúdios e estreado postumamente. Atualmente é um filme cultuado, e marca uma quebra com a estética dos seus filmes anteriores. Assisti dele as obras-primas "Nosferatu" (1922) e "Aurora" (1927), os excelentes "A Última Gargalhada" (1924) e "Tartufo" (1925) e o curioso “Caminhada Noite Adentro” (1920). Desta vez vou conferir "Fausto" (1926).
Em 2014 o SESC organizou uma mostra de cinema expressionista chamada "Sombras que Assombram" e publicou o seguinte texto - que contém spoilers - no catálogo da mostra: "Se 'Fausto' for comparado a 'A Última Gargalhada', 'Nosferatu' e 'Aurora', três outras obras de Murnau, sua potência estética pode ficar abalada. Definitivamente, 'Fausto' não é a obra-prima desse cineasta fantástico, que morreu prematuramente aos 42 anos, mas configura-se como característica do cinema alemão dos anos 1920 e da sua estética expressionista, e situa-se muito acima de tantas obras realizadas em sua época.
Fausto é um velho cientista seduzido pelo demônio, Mefistófeles, interpretado por Emil Jannings. Primeiramente, o cientista obtém poderes para curar a peste, mas como esses poderes vinham das forças obscuras, ele não conseguia curar perante a imagem da cruz e logo o povo o vê como encarnação do diabo e o rechaça. Depois, Fausto é seduzido para ter de volta a sua juventude, e o diabo lhe apresenta a imagem de uma linda princesa e lhe promete intervir para fazê-la ficar apaixonada por ele. Depois de experimentar novamente a juventude, Fausto não quer mais voltar a ser um velho e faz um pacto eterno, vendendo sua alma. Entediado, Fausto pede ao diabo para voltar para sua aldeia, onde se apaixona pela bela Gretchen. Ao se apaixonar por ela, Fausto perde o controle dos seus sentimentos, mata o irmão da amada e é obrigado a fugir deixando-a grávida e desonrada em sua cidade. Toda essa tragédia foi arquitetada pelo diabo.
Como em todo filme alemão dos anos 1920, o bem triunfa sobre o mal. Não se trata necessariamente da vitória do mocinho, tal como o personifica o cinema de Hollywood, mas sim um sucesso do ideal sobre as pessoas. Essa distinção é fundamental, porque não existe no cinema alemão a imagem do mocinho redentor que personifica o bem, crucial é que o bem supere o mal. Trata-se da supremacia do bem coletivo sobre o indivíduo. 
O tema do endemoniamento é mais uma vez encarnado nos filmes alemães dos anos 1920. A atmosfera fantástica também domina essas histórias, inclusive com a personificação humana do diabo salientando seu aspecto mágico. Se pensarmos no filme 'O Sétimo Selo', de Ingmar Bergman, podemos enxergar nítidas marcas da estética de 'Fausto', em especial, a construção da imagem do inferno na Terra e a opção em situar a história na Idade Medieval. Mas, evidentemente, Bergman, produzindo sua obra trinta anos depois, aprofundou o tema da contradição inerente à ideia de Deus e do diabo. 
Apesar de não flertar com a estética caligarista, em 'Fausto' observa-se ainda assim uma preservação do artificialismo da imagem. Surpreendentemente, esse filme se desenvolve como uma fantasia, um delírio, e se afasta da narrativa realista de 'A Última Gargalhada', mas aproxima-se da tragédia. Essa tragédia, em parte, está explicitada na narrativa, na mise-en-scène e na interpretação dos atores, mais exagerada do que em outras obras de Murnau. Os traços medievalistas, tão típicos das obras expressionistas, encontram eco também nesse filme, no decór, nos figurinos e na temática do diabo influindo na vida humana.
Já a ideia do Kammerspiel, implementada em 'A Última Gargalhada' por Murnau dois anos antes, não foi levada em consideração em 'Fausto'. Há muita utilização de diálogo por meio de intertítulos e a câmera também não se movimenta tanto, apenas em poucas cenas. O realismo também é abandonado, o universo fantasioso e fantástico predomina sobremaneira. 
Em 'Fausto', nota-se a influência do romantismo alemão do século 19, a começar pela escolha de Murnau por realizar uma adaptação da obra mais célebre de Goethe, escritor ícone do romantismo alemão. Essa herança do romantismo no expressionismo se faz presente não só fisicamente, na produção das imagens, mas também é de ordem espiritual, incrustada e firme, tal como a marca inconteste de um carimbo. 
Como um típico filme expressionista, ele explora cenários construídos, artificiais. Até a natureza é concebida de maneira ornamental e reforça o artificialismo de 'Fausto'. Tudo, incluindo também o inferno, surge, na tela como um ambiente que nos suscita estranhamento. A imagem final que fica de 'Fausto' é a de uma experiência sensorial, mítica, irreal e delirante. 
O que eu achei: Trata-se do último filme de Murnau produzido na Alemanha já que após o sucesso desse projeto o diretor vai para Hollywood. "Fausto" foi um projeto ambicioso, foi o filme mais caro produzido na Europa até aquele momento. O roteiro é de Hans Kyser, que usa como base várias versões da lenda de "Fausto", como o poema de Goethe e a peça teatral de Christopher Marlowe. Em tempos de coronavírus, a temática é bem atual já que a história se passa durante a pandemia de febre bubônica ocorrida no fim da Idade Média. Essa pandemia é que vai servir de pano de fundo para que a história do alquimista, que não consegue achar a cura para essa doença, se desenrole, negando a Deus e fazendo um pacto com o Diabo. O filme é mudo, esteticamente acima da média e conta com a presença do excelente Emil Jannings no papel de Mephisto.