23.2.20

“Bacurau” - Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles (Brasil, 2019)

Sinopse: Pouco após a morte de dona Carmelita (Lia de Itamaracá), aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa. Ao mesmo tempo drones passeiam pelos céus e estrangeiros chegam à cidade pela primeira vez. Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, Teresa (Bárbara Colen), Domingas (Sônia Braga), Acácio (Thomas Aquino), Plínio (Wilson Rabelo), Lunga (Silvero Pereira) e outros habitantes chegam à conclusão de que estão sendo atacados.
Comentário: Kleber Mendonça Filho (1968) é um diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema brasileiro. Já assisti dele os ótimos “O Som ao Redor” (2012) e "Aquarius" (2016). Desta vez vou conferir "Bacurau" (2019).
Trata-se de um roteiro original escrito pelos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O projeto foi desenvolvido ao longo de vários anos e surgiu do interesse dos diretores em trabalhar com elementos do cinema de gênero dentro de um contexto brasileiro, articulando referências ao faroeste, ao thriller e à ficção científica.
A história se passa em um futuro próximo e acompanha os moradores de um pequeno vilarejo do sertão que, após a morte de uma liderança local, passam a perceber mudanças estranhas em seu entorno, incluindo o desaparecimento da cidade de mapas digitais. A narrativa é construída de forma gradual, apresentando primeiro o cotidiano da comunidade antes de revelar o conflito central que envolve agentes externos.
As filmagens ocorreram principalmente no sertão do Rio Grande do Norte, em povoados da região de Parelhas e Acari, com a participação de moradores locais como figurantes e apoio logístico das comunidades. A vila de Bacurau foi criada a partir da adaptação de locações reais, integrando construções existentes e cenografia adicional.
O elenco reúne atores de diferentes gerações e trajetórias no cinema brasileiro, como Sônia Braga, Udo Kier, Karine Teles, Bárbara Colen, Thomas Aquino e Silvero Pereira. A personagem Lunga, interpretada por Silvero Pereira, foi concebida como uma figura de liderança marginal ligada à memória de conflitos anteriores da região, ampliando o arco narrativo da resistência da comunidade.
“Bacurau” teve estreia mundial no Festival de Cannes de 2019, onde recebeu o Prêmio do Júri, o que impulsionou sua circulação internacional. O filme foi exibido em diversos festivais e lançado comercialmente em vários países, alcançando ampla repercussão crítica e pública.
Do ponto de vista formal, o filme combina cenas de observação do cotidiano com sequências de ação mais explícitas, além de empregar trilha sonora que mistura música brasileira, temas eletrônicos e referências ao cinema de suspense. A montagem e o desenho de som contribuem para a mudança progressiva de tom ao longo da narrativa, acompanhando a transição do registro cotidiano para o confronto direto.
O que eu achei: Em “Bacurau” (2019), Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles constroem um filme que transita por múltiplos gêneros - do faroeste ao thriller, da ficção científica ao cinema político - sem nunca perder de vista o centro humano e coletivo de sua narrativa. Ambientado em um vilarejo do sertão brasileiro que, de repente, desaparece dos mapas, o filme parte de um estranhamento inicial para revelar um conflito maior, envolvendo forças externas que tratam a comunidade como território descartável. “Bacurau” não é um daqueles filmes que busca agradar o espectador a todo custo. Passa-se em torno de uma hora se questionando onde de fato a trama pretende chegar, mas ela chega lá, unindo todas as pontas soltas e chegando à catarse. Funciona como um retrato do nosso Brasil onde a violência ocorre neste exato instante em alguma terra indígena, periferia ou fronteira. A força do filme está na maneira como articula o coletivo como protagonista. Diferentemente de narrativas centradas em heróis individuais, aqui é a própria comunidade que reage, se organiza e se defende. Os personagens são apresentados de forma fragmentada, mas, pouco a pouco, constrói-se uma rede de vínculos, memórias e códigos internos que dão consistência àquele espaço. O museu da cidade, longe de ser apenas um detalhe cênico, funciona como arquivo simbólico de resistências passadas e prenúncio das que ainda virão. Visualmente, “Bacurau” aposta em uma encenação precisa dos espaços do sertão e dos interiores da vila, explorando a geografia como parte ativa da dramaturgia. A trilha sonora, que combina referências populares e elementos de suspense, reforça a atmosfera híbrida do filme, oscilando entre celebração e ameaça. “Bacurau” conjuga invenção formal e comentário social, usando o cinema de gênero como ferramenta para pensar pertencimento, violência e autodeterminação. Ao transformar uma pequena comunidade em centro de uma narrativa de enfrentamento, o filme propõe um gesto de afirmação coletiva que é, ao mesmo tempo, político e profundamente cinematográfico. Um filme urgente.