26.3.19

"O Homem Elefante" - David Lynch (EUA, 1980)

Sinopse: John Merrick (John Hurt) nasceu desfigurado e parecia estar condenado a uma triste existência como atração de um show de aberrações. Porém, um cirurgião londrino (Anthony Hopkins) o introduziu à sociedade. Apesar de suas dolorosas experiências, Merrick é gentil e inteligente e se torna convidado frequente nos salões vitorianos, mas precisa cobrir totalmente as feições deformadas.
Comentário: Trata-se do filme número 52 da lista dos 100 Essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: "'O Homem Elefante' conta a história de John Merrick (John Hurt), um homem de aparência muito desagradável, com o corpo todo deformado devido a uma doença, neurofibromatose múltipla. Seu comportamento, no entanto, é de um cavalheiro contido, adequado à época e ao local onde viveu: a Inglaterra da era vitoriana. Em virtude de suas feições causarem horror, o que lhe restou na sociedade foi trabalhar em circos exibindo-se como monstro. Com muita dificuldade de falar, também por causa da doença, era considerado um débil mental. No entanto, resgatado pelo médico Frederick Trevez (Anthony Hopkins), consegue se desenvolver e se integrar um pouco mais ao mundo. No hospital, conhece a senhora Kendal (Anne Bancroft), uma conhecida atriz, que o ajuda a construir alguma autoestima. O filme é baseado nas memórias escritas (reais) do médico Frederick Trevez. O início da película, que explora as cenas de Merrick no circo, parecem a introdução de um filme de terror. As imagens em preto-e-branco e o suspense que culmina com a revelação do rosto de Merrick lembram os clássicos do gênero do expressionismo alemão, em especial 'O Gabinete do Doutor Caligari' (1919). A princípio, o que se tem são menos as imagens do que as reações dos que assistem ao espetáculo. Conforme o filme avança, no entanto, o terror torna-se menos dependente do suspense e da imagem do homem deformado (embora reforçado por ela). Parte do desagrado em relação aos personagens passa a se localizar mais na perversão dos que exploraram a doença de Merrick como atração e fonte de diversão baseada nas emoções fortes que poderiam viver perto dele. Também o médico que o leva para ser tratado não pode ser inocentado. A exposição no circo é substituída pela sua apresentação em congressos médicos, agora sustentada pelo discurso de um motivo mais nobre e sério, a medicina em vez do picadeiro. Com este seu primeiro trabalho comercial, o diretor David Lynch obteve imenso reconhecimento artístico, o que lhe permitiu posteriormente investir numa trajetória autoral, distante dos cânones hollywoodianos de clareza narrativa". Marcelo Sobrinho do site Plano Crítico escreveu: "Até certo ponto, Lynch nos torna cúmplices dessa curiosidade. Merrick consegue ensinar a todos nós que há muito a ser descoberto para além das aparências e dos estereótipos. É particularmente emocionante a cena em que ele recita de cor todo o salmo 23. Esse é um dos primeiros momentos em que a própria câmera se rende a um contra-plongée que dignifica o protagonista e reivindica sua humanidade. Eis aqui o grande ponto em que a narrativa vira completamente para provar a grandeza daquele homem e a baixeza daqueles que o exploravam. O roteiro e a direção irrepreensíveis de Lynch nos convencem de que ele, Joseph Merrick, é que vivera anos cercado por feras". 
O que eu achei: "O Homem Elefante" é uma obra-prima absoluta e, sem dúvida, um dos grandes momentos da carreira de David Lynch. Longe dos elementos mais surreais e enigmáticos que marcariam boa parte de sua filmografia posterior, aqui o diretor entrega um filme de rara sensibilidade, construindo uma narrativa profundamente humana e emocionalmente arrebatadora. Baseado na história real de Joseph Merrick, um homem com deformidades físicas severas que viveu na Inglaterra vitoriana, Lynch combina a dureza do contexto histórico com uma delicadeza surpreendente ao retratar o protagonista. John Hurt oferece uma atuação inesquecível, conferindo ao personagem dignidade, dor e uma humanidade comovente que atravessa a maquiagem e alcança diretamente o coração do espectador. Anthony Hopkins, no papel do médico Frederick Treves, também entrega um desempenho magistral, ancorando o filme em uma relação de empatia e descoberta mútua. A escolha pelo preto e branco não apenas confere uma beleza plástica impressionante, mas também cria uma atmosfera que remete ao cinema expressionista, ampliando o peso dramático da narrativa. A trilha sonora, aliada a momentos de silêncio profundamente significativos, transforma cada cena em poesia visual e emocional. O grande triunfo de "O Homem Elefante" está em seu equilíbrio: Lynch nos mostra a monstruosidade do preconceito e da exploração humana, mas nunca se rende ao melodrama fácil. Pelo contrário, constrói uma história sobre dignidade, compaixão e o desejo universal por aceitação e humanidade. O desfecho, tão belo quanto devastador, confirma que estamos diante de um filme que transcende o tempo e o gênero. Simplesmente inesquecível, "O Homem Elefante" é uma obra que reafirma David Lynch como um cineasta capaz de explorar as profundezas da condição humana com uma sensibilidade ímpar.