29.10.18

"Ran" - Akira Kurosawa (Japão/França, 1985)

Sinopse: Japão, século XVI. Hidetora (Tatsuya Nakadai), o poderoso chefe do clã dos Ichimonjis, decide dividir seus bens entre os três filhos: Taro Takatora (Akira Terao), Jiro Masatora (Jinpachi Nezu) e Saburu Naotora (Daisuke Ryu). Com o primeiro fica a chefia do feudo, as terras e a cavalaria. Os outros dois ficam com alguns castelos, terras e o dever de ajudar e obedecer Taro. Saburu, prevendo as desgraças que viriam, se mostra contrário à decisão paterna. Expulso do feudo, acaba sendo acolhido por Nobuhiro Fujimaki (Hitoshi Ueki), de quem se torna genro. Hidetora vai ao seu antigo castelo, que agora é de Taro, e não é bem recebido. O mesmo acontece ao visitar Jiro. Isolado em seu ex-império, Hidetora se aproxima da insanidade.
Comentário: Akira Kurosawa (1910-1998) foi um dos cineastas mais importantes do Japão e seus filmes influenciam até hoje uma grande geração de diretores. Com uma carreira de cinquenta anos, Kurosawa dirigiu em torno de 30 filmes. Assisti dele "Yojimbo: O Guarda-Costas" (1961), "Sonhos" (1990) e "Madadayo" (1993). Desta vez vou conferir "Ran" (1985). 
Inspirado em "Rei Lear" de Shakespeare, o filme transporta a tragédia para o universo dos senhores feudais, explorando o poder, a ambição, a traição e a inevitável decadência humana. 
O filme conta a história do velho Hidetora, o grande chefe do clã dos Ichimonjis, que anuncia que pretende dividir seus bens entre seus três filhos por conta da idade já avançada e coloca o mais velho no castelo principal chefiando tudo e, os outros dois, recebem dois castelos menores e ficam sob as ordens do mais velho. O resultado disso não poderia ser pior, pois o poder é algo que os três querem e todos estarão dispostos a trair e a matar uns aos outros para obtê-lo. 
O título "Ran" significa Caos.
O que eu achei: "Ran" (1985) é, sem dúvida, uma das maiores obras-primas de Akira Kurosawa e, para muitos, o ápice de sua carreira. Kurosawa constrói aqui um espetáculo visual e emocional de proporções raras. A paleta de cores é cuidadosamente pensada - cada exército tem sua cor distinta - e transforma o campo de batalha em uma pintura em movimento. A coreografia das batalhas, quase sempre sem diálogos, revela um cineasta em pleno domínio da forma cinematográfica, capaz de comunicar fúria, dor e destruição apenas com a imagem e o som. Mas "Ran" vai muito além da grandiosidade épica. É um filme sobre a fragilidade do ser humano diante do destino e da própria cegueira moral. O velho senhor Hidetora, que divide seu reino entre os filhos esperando lealdade e paz, vê seu mundo desmoronar em meio à ganância e à violência, como se os deuses apenas assistissem, indiferentes, à ruína humana. A tragédia aqui é total, implacável, e conduzida com uma serenidade quase cruel. Com atuações intensas, direção de arte impecável e uma trilha sonora magistral de Toru Takemitsu, "Ran" combina rigor formal e densidade temática como poucas vezes se viu no cinema. É a prova definitiva de que Kurosawa não apenas dominava a linguagem cinematográfica, mas também tinha uma visão profunda sobre a condição humana. Não há como não pensar no que a luta pelo poder é capaz de fazer.