13.9.18

"Através das Oliveiras" - Abbas Kiarostami (Irã, 1994)

Sinopse: Uma pequena cidade no norte do Irã recebe a visita de uma equipe de cinema que está produzindo um filme. Hossein (Hossein Rezai) e Tahere (Tahere Ladaniam) são escolhidos para interpretarem o casal de protagonistas. No entanto, Hossein é apaixonado pela mulher, o que gera um clima tenso entre os dois e atrapalha as filmagens.
Comentário: Abbas Kiarostami (1940-2016) foi um cineasta, roteirista, produtor, poeta e fotógrafo franco-iraniano. Obteve diversos prêmios internacionais, dentre os quais se destacam a Palma de Ouro de 1997 e o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1999. Assisti dele o bom "Cópia Fiel" (2010) e o curioso "Um Alguém Apaixonado" (2012). Desta vez vou conferir "Através das Oliveiras" (1994).
Marcos Faria do site Cineset nos conta que "Em 1987, Abbas Kiarostami colocou 'Onde Fica a Casa do Meu Amigo?' no mundo. Foi um daqueles hits nos festivais que cimentam uma certa mítica em torno de um diretor. Pouco depois, um terremoto devastou o norte do Irã, incluindo os vilarejos onde Kiarostami havia rodado o filme. A busca pelos atores não-profissionais daquela produção em meio aos destroços da tragédia originou o metalinguístico 'E a Vida Continua'. Nele, um diretor e seu filho tentam voltar a Koker para encontrar os atores de 'Onde Fica a Casa do Meu Amigo?', o filme do próprio Kiarostami. E então, em 1994, surge 'Através das Oliveiras'.
Se 'E a Vida Continua' trata dos vestígios de 'Onde Fica a Casa do Meu Amigo?', 'Através das Oliveiras' trata da filmagem de 'E a Vida Continua'. Há novamente um diretor assumindo o lugar que, na vida real, coube a Kiarostami, dessa vez dirigindo cenas que vimos previamente no longa de dois anos antes. É um grande labirinto autorreferente absolutamente enlouquecedor para os não-iniciados.
De modo que é difícil, sim, falar de um desses filmes sem mencionar os outros. Mas a surpresa para o espectador desprevenido é que, apesar de toda a premissa metalinguística assustar, Kiarostami está longe de ter a mão pesada. Pelo contrário, 'Através das Oliveiras' retoma uma certa verve burlesca que, presente em 'Onde Fica a Casa do Meu Amigo?', se dissipa no segundo filme da trilogia. Era nesse sentido de burlesco, talvez, que o crítico norte-americano Jonathan Rosenbaum pensava ao comparar Kiarostami a Jacques Tati em seu texto para 'E a Vida Continua'. Pode ser, mas me parece que 'Através das Oliveiras' é um filme bem melhor resolvido que seu antecessor.
É como se em 'E a Vida Continua', Kiarostami sentisse o peso da tarefa auto imposta - retratar a tragédia de Koker -, e tremesse ante suas incongruências: os limites entre documentar uma catástrofe e explorá-la se tornam fluidos quando o circo de um set de filmagens é armado numa cidadezinha destroçada. O resultado são reticências desconfortáveis na busca pelo sublime.
'Através das Oliveiras', ao contrário, já soa mais incisivo, mais confortável em suas contradições. Não há no filme predecessor, por exemplo, um só plano tão bonito e doloroso quanto aquele em que vemos os dois meninos protagonistas de 'Onde Fica a Casa do Meu Amigo?', agora já crescidos, correndo no espelho retrovisor de um carro, enquanto uma barraca erguida para desabrigados do terremoto é vista pela janela. De certa forma, é como se o expurgo de 'E a Vida Continua' tivesse sido necessário para que o olhar do diretor ressurgisse apurado neste longa.
E no centro de tudo, enquanto a parafernália da equipe de filmagem causa um fuzuê entre os sobreviventes de Koker, há Hossein. Esse romântico inveterado, além de servir de faz-tudo no set e dar uma canjinha como ator, tenta pedir a mão da amada em casamento entre uma tomada e outra, sem sucesso. O cinema tem um jeito só seu de se intrometer na vida das pessoas e fazer de tudo uma bagunça, mas também consegue revelar pequenas pérolas do cotidiano e lampejos de beleza – o 'vento nas árvores', como diria Griffith. E o que não falta em 'Através das Oliveiras' são árvores ventando".
O que disse a crítica 1: Inácio Araujo adorou. Disse: "O trabalho cinematográfico de Kiarostami consiste em acoplar dois níveis de realidade: o da representação (o filme que está sendo rodado) e o da realidade (a história dos apaixonados). Ora, este segundo nível não é tão inocente quanto possa parecer. O que chamamos de 'realidade' já é - no momento da filmagem - uma nova ficção. (...) Abbas Kiarostami articula um jogo de espelhos que não será exagero chamar de magistral. É na medida em que põe em dúvida o estatuto do cinema como arte capaz de captar a realidade que o autor iraniano se eleva ao ponto mais alto desta arte e se afirma como um dos grandes cineastas contemporâneos".
O que eu achei: Em "Através das Oliveiras" (1994), Abbas Kiarostami entrega uma obra que confirma sua genialidade e sua capacidade única de transformar o cinema em poesia visual. Última parte da chamada “trilogia Koker”, o filme se desdobra em camadas narrativas que misturam realidade e ficção com uma naturalidade impressionante. A câmera acompanha uma equipe de filmagem que tenta registrar uma história de amor simples, enquanto, fora das cenas, um romance real parece se desenrolar entre os próprios intérpretes. Essa sobreposição de mundos - o cinema dentro do cinema, a vida imitando a arte e vice-versa - cria um jogo fascinante, que só um diretor do calibre de Kiarostami poderia conduzir sem jamais perder a delicadeza. A beleza do filme está na forma como o cotidiano, aparentemente banal, vai ganhando densidade e emoção. O olhar paciente do diretor, seus longos planos e o ritmo contemplativo nos convidam a observar detalhes: um gesto tímido, uma frase hesitante, o silêncio entre duas pessoas. É nesse minimalismo que o filme se agiganta, revelando toda a complexidade e a humanidade por trás de situações aparentemente simples. Além disso, "Através das Oliveiras" é um filme sobre persistência - a do jovem Hossein, que insiste em conquistar o amor de Tahereh, e a do próprio cinema, que insiste em registrar a vida mesmo quando ela parece fugir de qualquer roteiro. A cena final, com sua distância física e emocional, é um exemplo magistral da arte de Kiarostami: aberta, ambígua, profundamente tocante. Com sensibilidade rara e um domínio absoluto da linguagem cinematográfica, Kiarostami transforma um recanto rural do Irã em palco para reflexões universais sobre amor, destino e a própria natureza da arte. Super recomendo.