Sinopse: Uma mulher (Janet Leigh) entediada com o trabalho e a rotina, rouba uma boa quantia em dinheiro de seu chefe e parte pela estrada sem rumo definido. Na estrada ela avista o "Bates Hotel" e resolve pernoitar. O que ela não sabe é o dono do hotel (Anthony Perkins) é um rapaz perturbado que vai colocar sua vida em risco.
Comentário: Alfred Hitchcock (1899-1980) foi um diretor e produtor cinematográfico britânico. Amplamente considerado um dos mais reverenciados e influentes cineastas de todos os tempos, Hitchcock foi eleito pelo The Telegraph o maior diretor da história da Grã-Bretanha e, pela Entertainment Weekly, o maior do cinema mundial. Conhecido como "Mestre do Suspense", dirigiu em torno de 53 longas-metragens ao longo de seis décadas de carreira, parte dela na Inglaterra, parte nos EUA. Tornou-se também famoso também por conta das frequentes aparições em seus filmes e pela apresentação do programa "Alfred Hitchcock Presents" (1955-1965). Assisti dele os seguintes filmes:
- as obras-primas: "Os Pássaros" (1936), "Festim Diabólico" (1948), "Janela Indiscreta" (1954) e "Um Corpo Que Cai" (1958);
- os ótimos: "O Inquilino" (1927), "Chantagem e Confissão" (1929), "Sabotagem" (1936), "Jovem e Inocente" (1937), "A Dama Oculta" (1938), "A Sombra de Uma Dúvida" (1943), "Interlúdio" (1946), "Disque M para Matar" (1954) e "O Homem Que Sabia Demais" (1956);
- os bons: "Os 39 Degraus" (1935), "O Agente Secreto" (1936), "A Estalagem Maldita" (1939), "Correspondente Estrangeiro" (1940), "Pavor nos Bastidores" (1950) e "O Terceiro Tiro" (1955).
Desta vez vou conferir "Psicose" (1960), um filme que em 2010 completou 50 anos.
Na ocasião o portal G1 publicou uma matéria dizendo que "'Psicose' completa 50 anos como uma obra prima. (...) Apesar de ter estreado com algumas críticas desfavoráveis em 16 de junho de 1960 em uma sala nova-iorquina, o filme acabou convencendo a indústria e o público, que meio século depois continua fã desta obra emblemática. (...) Além de seu impacto audiovisual, esse crime de ficção chegou a se transformar em objeto de livros, como o publicado em março por Robert Graysmith, 'The Girl in Alfred Hitchcock's Shower', dedicado a falar da vida dupla de Leigh em 'Psicose'.
O corpo nu da atriz na famosa cena era de Marli Renfro, uma mulher que chegou a ser capa da 'Playboy' antes de desaparecer e correr a notícia equivocada de que havia sido assassinada. O papel de Renfro em 'Psicose' foi mantido em sigilo pelo interesse da produção em 1960, tanto pelo diretor quanto pela estrela do filme, Leigh, quem por pudor se negou a tirar a roupa diante das câmeras.
Essa não foi a única artimanha do 'mestre do suspense' para o lançamento do filme, que se baseou no romance homônimo publicado em 1959 por Robert Bloch, inspirado na figura de Eddie Gein, um assassino em série de Wisconsin que nos anos 50 colecionava restos humanos em sua fazenda.
Uma vez que decidiu fazer 'Psicose', Hitchcock iniciou uma campanha para impedir que o público conhecesse antecipadamente o fim da trama, por isso comprou todas as cópias da primeira edição do livro, cujos direitos tinha adquirido por US$ 9 mil. 'Psicose' foi gravado em um entorno fechado e obrigou a todos os trabalhadores a assinar um contrato que os obrigava a não mencionar o fim para ninguém. Com a ideia de manter a tensão durante as projeções, Hitchcock aparecia nos cartazes do filme alertando os espectadores que não aceitaria ninguém na sala após o início da sessão.
'Psicose' é possivelmente o título mais conhecido da filmografia deste cineasta".
O que eu achei: "Psicose" (1960) é um filme que costuma ser visto como a obra-prima máxima de Alfred Hitchcock porque representa o auge da sua capacidade de manipular a narrativa, a forma cinematográfica e as emoções do público, ao mesmo tempo em que rompe convenções do cinema clássico e inaugura uma nova era para o suspense e o terror psicológico. Há várias razões para isso. Para começar Hitchcock subverteu expectativas ao matar a protagonista, magistralmente interpretada por Janet Leigh, logo no início do filme. Esse gesto narrativo, até então impensável em Hollywood, desestabilizou completamente o público e abriu caminho para histórias mais ousadas e menos previsíveis. A famosa cena do chuveiro, com sua montagem frenética e trilha sonora estridente de Bernard Herrmann, não apenas reinventou a forma de filmar a violência, mas se tornou uma das sequências mais estudadas e icônicas da história do cinema. Norman Bates, vivido por Anthony Perkins, é um dos personagens mais fascinantes do cinema porque encarna a fragilidade, a loucura e a humanidade em uma figura ao mesmo tempo simpática e aterradora. Hitchcock transforma o vilão em alguém com quem o espectador chega a sentir empatia, borrando as linhas entre vítima e agressor, normalidade e insanidade. Isso amplia a densidade temática do filme, que não se contenta apenas em chocar, mas também em explorar as zonas sombrias da mente humana. Outro ponto é que ele foi filmado em preto e branco numa época já dominada pelo cinema colorido, ganhando uma textura quase documental, crua e perturbadora. A trilha de Herrmann, com seus violinos cortantes, intensifica o clima de horror psicológico sem jamais apelar para efeitos gratuitos. Além disso, a câmera de Hitchcock guia o olhar do espectador com precisão cirúrgica - do voyeurismo inicial à revelação final - transformando o ato de assistir em algo desconfortavelmente íntimo. Filmes como "O Exorcista", "Halloween" e até mesmo produções contemporâneas de terror psicológico devem muito a essa obra. Hitchcock não apenas chocou plateias em 1960, mas também mostrou como o terror poderia ser inteligente, elegante e profundamente perturbador. Um filme imperdível e obrigatório.
