26.3.11

"Manderlay" - Lars von Trier (Dinamarca/Suécia/França/EUA/Holanda/Alemanha, 2005)

Sinopse: Grace (Bryce Dallas Howard) é filha de um gângster (Willem Dafoe) e, juntos, eles encontram a fazenda Manderlay. Lá, a escravidão ainda existe, apesar de ter sido abolida há décadas. Revoltada, Grace reprime a dona da fazenda (Lauren Bacall) e liberta os escravos. A dona da fazenda morre e Grace conduz os trabalhadores nas suas tarefas. Porém, com o passar do tempo, vai ficando claro que esses escravos não sabem o que é, nem o que fazer, com essa tal liberdade.
Comentário: Lars von Trier (1956) é um cineasta dinamarquês, vencedor de diversos prêmios. Conhecido por ser provocador nas entrevistas, os comentários antissemitas de von Trier durante uma coletiva de imprensa em Cannes causaram uma controvérsia significativa na mídia, levando o festival a declará-lo como "persona non grata" e bani-lo do festival por um ano. Na sequência, o diretor divulgou uma desculpa formal informando que não era simpatizante do nazismo. Assisti dele a obra-prima "Dogville" (2003). Desta vez vou conferir "Manderlay" (2005).
Trata-se da segunda parte da trilogia de Lars von Trier denominada 'EUA - Terra de Oportunidades'. O primeiro filme foi a obra-prima 'Dogville' (2003).
Este segundo filme também é narrado na primeira pessoa como se fosse uma fábula e a história também é encenada sobre um palco, como se fosse teatro filmado com uma câmera digital na mão.
A protagonista é a mesma personagem Grace de 'Dogville', mas Nicole Kidman foi substituída pela atriz Bryce Dallas Howard. 
Paulo Ricardo de Almeida do site Contracampo publicou: "Embora a personagem principal seja a mesma em ambos os filmes, o enfoque de Lars von Trier e, em consequência, o envolvimento que ele requer do espectador quanto aos acontecimentos na tela são inteiramente diferentes.
Em 'Dogville', a princípio, nada se sabe a respeito de Grace, que emerge como a típica heroína melodramática: mulher frágil e sofrida, que enfrenta a população hostil que, depois de a acolher, abusa dela para, finalmente, expulsá-la da cidade a fim de reintroduzir a Ordem.
Com 'Manderlay', dá-se o contrário, pois o diretor trabalha justamente a partir da lembrança que a plateia possui do original. Assim, como já se sabe, desde o primeiro plano, do passado de Grace, do que ela é capaz de fazer (assassinar a comunidade que se volta contra ela) e do desejo pelo poder que a move, von Trier não força a identificação sentimental com a protagonista para, ao final, revelar a verdade cruel, como em 'Dogville', mas antes parte do conhecimento desta verdade a fim de gerar o distanciamento que, afinal, está pressuposto na ausência de cenários, na explícita marcação teatral e na narração irônica.
Mesmo que se veicule a recusa de Nicole Kidman em participar da sequência, é inegável a transformação dramática contida na troca da atriz principal, uma vez que, no lugar dos olhos marejados, do nariz vermelho, das bochechas salientes e da fala tímida e entrecortada de Kidman, entra a expressão gélida de Bryce Dallas Howard, cuja frieza e autocontrole levam a crer que as boas intenções expressas em seu discurso são apenas fachada para o imenso prazer que o domínio em 'Manderlay' lhe proporciona".
O que eu achei: O longa dá continuidade à trilogia iniciada com "Dogville" (2003), mantendo o mesmo rigor formal e a proposta de um cinema que confronta o espectador. Ambientado em uma plantação no sul dos Estados Unidos nos anos 1930, o filme acompanha Grace, agora interpretada por Bryce Dallas Howard, ao tentar impor ideais de liberdade e justiça a uma comunidade recém-liberta da escravidão. A encenação minimalista, com cenários reduzidos a marcações no chão, mais uma vez desloca o foco para o comportamento humano e para as estruturas de poder. Lars von Trier constrói um experimento moral incômodo, no qual boas intenções rapidamente se chocam com realidades complexas. O filme não oferece conforto: questiona, provoca e desconcerta. O que torna "Manderlay" (2005) particularmente potente é a forma como desmonta certezas. Ao abordar temas como racismo, paternalismo e autonomia, o diretor evita simplificações e expõe contradições difíceis de digerir. A narrativa funciona quase como uma tese sendo testada e constantemente colocada em xeque. Bryce Dallas Howard assume o papel com firmeza, sustentando a ambiguidade da protagonista, enquanto o restante do elenco contribui para a construção de um microcosmo social tenso e instável. O resultado é um filme sensacional, corajoso e profundamente provocador. "Manderlay" não busca agradar, mas sim confrontar e é justamente nessa ousadia que reside sua força, consolidando-o como uma obra marcante e inquietante do cinema contemporâneo.