29.1.11

"Os Pássaros" - Alfred Hitchcock (EUA, 1963)

Sinopse: Melanie Daniels (Tippi Hedren), uma jovem da cidade de São Francisco, vai até uma pequena cidade isolada da Califórnia chamada Bodega Bay, atrás de um potencial namorado: Mitch Brenner (Rod Taylor). Mas na cidade começam a acontecer fatos estranhos: pássaros de todas as espécies passam a atacar a população, em número cada vez maior e com mais violência, deixando todos aterrorizados.
Comentário: Alfred Hitchcock (1899-1980) foi um diretor e produtor cinematográfico britânico. Amplamente considerado um dos mais reverenciados e influentes cineastas de todos os tempos, Hitchcock foi eleito pelo The Telegraph o maior diretor da história da Grã-Bretanha e, pela Entertainment Weekly, o maior do cinema mundial. Conhecido como "Mestre do Suspense", dirigiu em torno de 53 longas-metragens ao longo de seis décadas de carreira, parte dela na Inglaterra, parte nos EUA. Tornou-se também famoso também por conta das frequentes aparições em seus filmes e pela apresentação do programa "Alfred Hitchcock Presents" (1955-1965). Assisti dele os seguintes filmes:
- a obra-prima: "Festim Diabólico" (1948);
- os ótimos: "O Inquilino" (1927), "Chantagem e Confissão" (1929), "Sabotagem" (1936), "Jovem e Inocente" (1937), "A Dama Oculta" (1938), "A Sombra de Uma Dúvida" (1943), "Interlúdio" (1946), "Disque M para Matar" (1954) e "O Homem Que Sabia Demais" (1956);
os bons: "Os 39 Degraus" (1935), "O Agente Secreto" (1936), "A Estalagem Maldita" (1939), "Correspondente Estrangeiro" (1940) e "Pavor nos Bastidores" (1950).
Desta vez vou conferir "Os Pássaros" (1936), um filme baseado num conto de mesmo nome, da escritora britânica Daphne Du Maurier.
Segundo Inácio Araujo, em texto publicado na Folha de S. Paulo, "de todos os filmes de Alfred Hitchcock, 'Os Pássaros' é possivelmente o mais original, já que a ideia de culpa - tão presente em seus filmes - é um tanto distante neste trabalho. Talvez seja o caso de ver aqui, antes de mais nada, a proeza técnica como seu móvel principal, a saber: o desafio de promover a transformação de pacatas aves em entes aterrorizantes. Tudo que vemos nos pássaros, desde as imagens franciscanas, é solidariedade, bondade, trato fácil com o humano. É tudo que as aves de Hitchcock passam a negar aos homens, ao contrário: tornam-se feras. Retrospectivamente, é possível ver aí uma revolta da natureza contra o homem. Mas teria esse aspecto ecológico pertinência em 1963? Não importa muito, pois as grandes obras vão encontrando seu sentido conforme o tempo. De todo modo, o mistério dos pássaros e sua revolta permanecem, duplicados pelas cenas de extremo sadismo a que é submetida a atriz principal, Tippi Hedren, como a nos lembrar que, na cabeça de Hitchcock, a beleza (feminina) não pode existir impunemente, pois afinal é o que nos inspira (a nós, homens) pensamentos impuros. A imperfeição do homem e sua dificuldade de conviver com a beleza da perfeição (e da criação) podem muito bem ser um tema privilegiado de 'Os Pássaros', essa obra-prima".
O que eu achei: "Os Pássaros" (1963) possui uma ideia simples mas eficaz: transformar pássaros - criaturas comuns e inofensivas - em agentes do caos e do medo. Hitchcock constrói a tensão de forma gradual, intercalando momentos de calma com ataques repentinos, deixando o público em constante estado de alerta. A ausência de trilha musical tradicional e a criação de efeitos sonoros eletrônicos para os ataques aumentam o impacto psicológico e a estranheza das cenas. Tomadas como a escola cercada por corvos e o ataque final na casa são exemplos perfeitos de como Hitchcock sabia coreografar o caos. Tippi Hedren traz força e complexidade à personagem principal, que passa por uma transformação emocional ao longo da história. O filme nunca explica claramente porque os pássaros atacam, o que o torna ainda mais perturbador e aberto a múltiplas interpretações. Os efeitos especiais que combinam pássaros reais com truques de filmagem hoje podem parecer datados, mas são extremamente avançados para a época (1963). Antes do horror começar, o filme dedica tempo para desenvolver relações e tensões humanas, aumentando o peso dramático dos ataques. Dizer que esse filme é bom ou muito bom não confere à ele o que de fato ele é: uma obra-prima, pois combina inovação técnica, construção magistral do suspense e riqueza simbólica em um filme que transcende o gênero de terror, criando uma narrativa em que o medo surge de algo banal e cotidiano, tornando-o ainda mais perturbador. A ausência de explicações racionais para os ataques dá ao filme uma dimensão quase metafísica, transformando-o em um estudo sobre caos, imprevisibilidade e vulnerabilidade humana. É uma obra que equilibra espetáculo, tensão psicológica e profundidade temática, influenciando inúmeras produções posteriores no cinema de suspense e horror. Um filme indispensável. Se ainda não viu, priorize.