Sinopse: O filme mostra os últimos dias na vida de Blake (Michael Pitt), um astro do rock do começo dos anos 90 que sofre as consequências de não saber lidar com o peso da fama e suas obrigações e deseja isolar-se do mundo enquanto lida com seus pensamentos e com a solidão.
Comentário: Gus Van Sant (1952) é um cineasta e roteirista norte-americano. Formou-se pelo Rhode Island School of Design. Lá foi influenciado pela pintura e pelo cinema experimental. Em 1981, ele filmou com um baixo orçamento o filme "Alice in Hollywood", que nunca foi lançado. Trabalhou para uma agência de publicidade a fim de ganhar dinheiro. Com o dinheiro que ganhou, dirigiu o filme independente "Mala Noche" (1985) que contém alguns temas constantes de sua obra como a homossexualidade e uma abordagem do absurdo. "Mala Noche" foi bem recebido pelos críticos. Desde então ele dirigiu vários filmes. Assisti dele o ótimo "Elefante" (2003). Desta vez vou conferir "Últimos Dias" (2005), que conta livremente a história dos últimos dias da vida de Kurt Cobain, líder da banda Nirvana, que suicidou-se em 1994.
O que eu achei: Em "Últimos Dias" (2005), Gus Van Sant segue a mesma estética contemplativa que marcou obras anteriores como "Elefante", por exemplo, mas desta vez a aplica a uma história livremente inspirada nos últimos momentos da vida de Kurt Cobain. O resultado é um filme que, embora belo e envolvente em vários aspectos, pode soar excessivamente hermético para parte do público. A câmera de Van Sant acompanha Blake (Michael Pitt) vagando por uma casa isolada, aparentemente fugindo de tudo: da fama, de pessoas próximas e talvez até de si mesmo. A narrativa rarefeita, com poucos diálogos e longos planos-sequência, cria uma atmosfera hipnótica, quase sufocante. Esse ritmo lento, aliado à fotografia de Harris Savides, compõe imagens de grande impacto estético: há momentos em que o filme parece mais uma instalação artística do que uma narrativa convencional. Por outro lado, é justamente esse estilo contemplativo que pode afastar alguns espectadores. O filme muitas vezes se fecha demais em si mesmo, insistindo em mostrar longos períodos de silêncio, o que, embora coerente com o estado mental do protagonista, acaba enfraquecendo a conexão emocional. Diferente de "Elefante", em que o distanciamento narrativo potencializava a tensão, aqui ele às vezes leva a uma sensação de monotonia. Ainda assim, "Últimos Dias" tem méritos inegáveis: a atuação de Michael Pitt, contida e física, transmite bem o peso da solidão; a trilha sonora, quando surge, é usada com parcimônia e funciona de maneira orgânica; e o filme constrói, aos poucos, uma melancolia autêntica, sem cair no sensacionalismo. Em resumo, é uma obra que merece ser vista pela sua proposta estética e pela forma como aborda a dor e o isolamento sem explicações fáceis. Não chega a emocionar ou a prender a atenção como poderia, mas ainda assim configura um bom filme que vale ser visto.
