Sinopse: Na Inglaterra do século XVII, o garoto Gwynplaine (Conrad Veidt), herdeiro de um ducado, é sequestrado e, por ordem do rei, tem o rosto propositalmente desfigurado, ficando com um perpétuo riso macabro. Adulto, vira atração de feira, tornando-se um famoso palhaço. Como ele é criado por um filósofo que o adota após a morte de seu pai, ele acaba conhecendo Dea (Mary Philbin), uma cega também adotada, por quem se apaixona.
Comentário: Paul Leni (1885-1929) tornou-se um pintor avant-garde aos 15 anos. Estudou na Academia de Belas-Artes de Berlim e depois trabalhou como desenhista de cenários teatrais. Em 1913, começou a trabalhar com a indústria de filmes alemã desenhando cenários e figurinos para diretores como Joe May, Ernst Lubitsch, Richard Oswald e E.A. Dupont. Durante a Primeira Guerra Mundial, começou a dirigir filmes como "Der Feldarzt - Das Tagebuch des Dr. Hart" (1917), "Patience" (1920), "Die Verschwörung zu Genuia" (1920-21) e "Backstairs" (1921). A partir de 1925 desenhou prólogos curtos para estreias de festivais de filmes em cinemas de Berlim. Em 1927, mudou-se para Hollywood, aceitando um convite de Carl Larmmle para se tornar diretor nos estúdios da Universal. Lá, Leni estreou como diretor com "The Cat and the Canary" (1927), o qual serviu como influência para filmes de terror da Universal e foi refilmado várias vezes. No ano seguinte, dirigiu "O Homem que Ri", um dos filmes mais estilizados do período do cinema mudo, um clássico aclamado pelos fãs do gênero. Paul Leni morreu devido a um envenenamento, em Los Angeles, aos 44 anos. Assisti dele apenas o bom "O Gabinete das Figuras de Cera" (1924).
Em 2014 o SESC organizou uma mostra de cinema expressionista chamada "Sombras que Assombram" e publicou o seguinte texto - que contém spoilers - no catálogo da mostra: "Apesar de 'O homem Que Ri' ter sido produzido nos Estados Unidos pela Universal Studios, em 1928, o filme conserva ainda traços característicos do expressionismo alemão. Seu diretor já havia filmado na Alemanha o clássico 'O Gabinete das Figuras de Cera', e morreu um ano depois de realizar essa madura obra de arte. O lastro expressionista já acontece na própria escolha da temática: um homem com o rosto deformado. Apesar de não ser um filme de terror, 'O Homem Que Ri' trata em especial da criação de um monstro. O mais impressionante no filme é o fato de a monstruosidade não ser do monstro, mas sim de quem o deformou. Durante o filme, esse personagem luta contra a própria imagem, já que um homem que parece estar rindo o tempo todo é inevitavelmente trágico. O filme baseia-se na obra homônima do escritor romântico francês Victor Hugo. A escolha de Leni por filmar essa história de traços humanistas profundos muito revela sobre sua atração pelos personagens marginalizados, transformados brutalmente em monstros e tratados como se fossem restolhos pelo poder estabelecido. Bem afeito ao estilo expressionista, o personagem deformado pelo riso, vivido por Veidt, é acolhido por um filósofo e torna-se um artista mambembe. Veidt sobressai mais uma vez com seu talento para a arte da representação e tal como fez em 'As Mãos de Orlac' e 'O Gabinete do Dr. Caligari' dá ao personagem um magnetismo surpreendente. Aqui, o espaço da feira continua a seduzir os cineastas alemães dos anos 1920, e mais uma vez o terror transformado tanto em espetáculo quanto em um meio de sobrevivência. O ambiente de feira novamente evoca o caos e simboliza a desorganização social. Leni faz uso de câmeras em movimento, cenas com muitos figurantes e cortadas muito rapidamente para evidenciar uma atmosfera confusa, enfim, um grande circo de horrores. Como grande cenógrafo, Paul Leni, aluno de Max Reinhardt, abusa na construção dos cenários artificiais primorosos, que tinham beleza sim, apesar de não abrir mão de seus aspectos mais sinistros, típicos da concepção expressionista, mas dispensando o exagero estilístico marcadamente caligarista. Há uma visível e bem-resolvida isometria estilística entre o realismo norte-americano e o expressionismo alemão. A cena final, por exemplo, está repleta de cenas típicas do cinema de aventura de Hollywood, mas os cenários e as interpretações dos atores não omitem sua genética expressionista. Além dessa obra, pode ser mencionado como outro exemplo bem-sucedido dessa mistura estilística o filme 'Aurora' (1927), de F.W. Murnau. Paul Leni dirige os atores com métodos nitidamente calcados no expressionismo: atuações gestuais exageradas e movimentos bruscos, rostos comunicativos com olhos esbugalhados cheios de angústia permeiam o filme. Uma das características mais evidentes em 'O Homem Que Ri' é a do contraste entre a aparência e a essência. O personagem de Conrad Veidt tem uma essência bondosa, que não coincide com sua aparência monstruosa. Outra dicotomia construída por Paul Leni foi estabelecida entre o clima de agitação da rua e a monotonia da corte. Enquanto na feira imperava a desordem, do outro lado, dentro do palácio da rainha, predominava uma música de câmara sonolenta. Em 'O Homem Que Ri' essas dicotomias são constantes, os animais assumem características mais humanas, enquanto os homens tomam atitudes mais animalescas. O nome do cachorro é Homo, a duquesa mais parece uma vampira à espreita de sangue, o filósofo tem o curioso nome de Ursus. Para o espectador, tudo soa muito estranho, em especial essas inusitadas inversões que ocorrem sistematicamente no filme. Ao final, como na maioria dos filmes expressionistas, o bem supera o mal, como se a ficção tivesse a missão redentora de salvar um mundo que está em frangalhos, e Paul Leni não abre mão desse poderoso recurso dramatúrgico de colocar a plateia a seu favor".
O que disse a crítica: Segundo Rubens Ewald Filho, "Este foi seu melhor momento fora da Alemanha, um filme muito triste e sombrio baseado em romance de Victor Hugo e com ótima interpretação de Conrad Veidt (mais tarde famoso como o vilão nazista em 'Casablanca'), num papel que iria ser interpretado por Lon Chaney. O mestre da maquiagem Jack Pierce criou para Veidt uma prótese que forçava o sorriso estático, mas ao mesmo tempo possibilitava ao ator demonstrar emoções e expressões, e ele realmente impressiona na interpretação do personagem atormentado pela aparência desfigurada e em busca de um amor sincero. O filme é menos macabro e sinistro do que aparenta, na verdade um melodrama onde Leni usa de forma sutil os elementos expressionistas, mesclando-os com o estilo de drama histórico típico do cinema americano da época, com resultados extremamente interessantes".
O que eu achei: Sempre gosto muito de ver filmes expressionistas. A atuação de Conrad Veidt no papel do bizarro protagonista é de fato muito interessante. Dizem que sua caracterização impressionou de tal modo o universo artístico que é impossível não lembrar sua visível influência na construção estética da maquiagem do personagem Coringa, vivido por Jack Nicholson, 70 anos depois, no filme "Batman", dirigido por Tim Burton. Atenção para o fato desta ter sido uma das primeiras produções da Universal de transição do cinema silencioso para sonoro, trazendo como trilha sonora "When Love Comes Stealing", de Walter Hirsch, Pollack Lew e Rapee Erno.
