Sinopse: Nos Alpes da Bavária, a solitária Eva Braun (Yelena Rufanova) recebe a visita do temido Führer (Leonid Mozgovoy). Ele não está sozinho: Joseph Goebbels (Leonid Sokol), ministro da Propaganda, e Martin Bormann (Vladimir Bogdanov), seu principal assessor, estão com ele. A ordem é não falar em guerra, apesar de se estar na primavera de 1942. Contudo, a tensão é evidenciada pela impaciência e inconformismo de Eva. Ela sabe que não pode competir com a dedicação de seu amante ao Reich e já não suporta seus discursos absurdos e sua hipocondria. Mesmo assim, somente ela é capaz de compreendê-lo além de ser a única voz que ousa contradizê-lo.
Comentário: Aleksandr Sokurov (1951) é um cineasta russo. "Moloch" (1999) é o primeiro filme que vejo dele.
"Moloch" foi o título escolhido por Sokurov para fazer um estudo da vida cotidiana de Adolph Hitler e sua amante Eva Braun. O nome faz referência à uma divindade maligna adorada por diversas culturas antigas - gregos, cartagineses e judeus idólatras. Este ídolo pagão, no entanto, sempre foi associado a sacrifícios humanos, sendo conhecido também como “Príncipe do Vale das Lágrimas” e “Semeador de Pragas”.
Alvaro Machado escreveu um especial para a Folha SP onde ele diz: "Depois da repercussão discreta que a delicada elegia 'Mãe e Filho' obteve na 21ª Mostra, Aleksandr Sokurov, diretor de 48 anos radicado em São Petersburgo, ganha maior visibilidade com o tema escandaloso de 'Moloch', seu 30º (...) filme. Na verdade, o escândalo foi abortado antes do nascimento, já que os distribuidores europeus se encarregaram de um boicote ao filme.
A polêmica gira em torno do risco de humanização de uma figura que os livros de história, a literatura e o cinema sugerem mais como um ente sobrenatural, a própria besta encarnada ou a versão moderna de Moloch, demônio bíblico ao qual se sacrificava crianças: Adolf Hitler.
Neste filme, o ditador é flagrado em atividades prosaicas, humanas demais para quem foi capaz de planejar e concretizar a execução de milhões de inocentes.
Vemos 'Adi', o genocida, no interior de seus banheiros, na cama, às turras com sua amante Eva Braun, cantarolando a 'Nona' de Beethoven e até mesmo caçando borboletas, nos jardins de seu refúgio nos Alpes, o castelo Berchtesgaden.
De outro lado, esse cotidiano é delineado com as cores de uma paleta fria de morte, que torna quase tocável o clima de terror histérico ao redor de um chefe com tamanho poder sobre vida e morte, de um 'príncipe deste mundo', como os ocultistas chamam às vezes o demônio.
A cor seria, aliás, o elemento que, numa sucessão de quadros, concentraria no cinema o 'efeito psicológico'. Esse é um dos muitos novos conceitos do diretor, que trabalha à exaustão os elementos estéticos de cada fotograma enquadramento, cenário, figurinos, ruído ou música (as suas 'paisagens sonoras'), filtros para as lentes, granulação do filme etc.
Uma espécie de pintor na vanguarda da técnica, em 'Moloch' mandou construir lentes e refletores especiais, Sokurov filia-se ao mesmo tempo à tradição clássica da pintura, em sua vocação para criar atmosferas.
Um artista capaz de conferir tamanho grau de informação a cada uma das imagens que alinhava só pode receber o título de gênio. Porém, à parte um círculo que o assiste em pequenos cinemas parisienses, Sokurov é considerado 'hermético'.
Pouco justo: o problema de fruição de seus filmes está no olho do espectador médio, incapaz de concentração. A ação proposta acontece no interior de cada imagem, mais que na sequência das cenas. É uma ação silenciosa, não explícita, como na contemplação da pintura.
'Moloch', não obstante o ambiente quase doméstico retratado, expõe inequivocamente 'a essência da feiura do que faziam aquelas pessoas' (nas palavras do diretor), permitindo-se variações de tom que chegam, às vezes, à saturação da caricatura".
O polêmico filme venceu o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes 99.
O que eu achei: "Moloch" (1999) é um filme que impressiona pela forma ousada e intimista com que aborda uma figura histórica tão carregada de significados. Em vez de optar pelo caminho óbvio da grandiosidade ou do julgamento moral, Sokurov escolhe o silêncio, o cotidiano, a banalidade - e é justamente aí que reside a força do filme, afinal os monstros são homens comuns que estão ao nosso redor. A atmosfera pesada, marcada por uma fotografia densa e diálogos carregados de estranheza, cria uma experiência estética única, que transforma a história em algo quase palpável e profundamente humano. O filme convida o espectador a observar Hitler e aqueles ao seu redor num momento de reclusão, quase doméstico, e isso dá à obra uma dimensão perturbadoramente realista. A direção precisa, os enquadramentos quase pictóricos e a forma como a natureza e a paisagem parecem pesar sobre os personagens reforçam a ideia de que, mesmo longe dos campos de batalha, há algo sombrio e inescapável permeando cada gesto. Sokurov cria, assim, uma obra cinematográfica de rara sensibilidade e profundidade, que revela mais pelo silêncio e pela sugestão do que pela ação direta. Excelente.
