31.10.10

"O Segredo de Vera Drake" - Mike Leigh (Reino Unido, 2004)

Sinopse: Na Inglaterra dos anos 50, bondosa mãe de família chamada Vera (Imelda Staunton) ajuda, em segredo, mulheres que querem se submeter ao aborto. Seu marido devotado e seus dois filhos só ficam sabendo disso quando uma das grávidas quase morre e Vera é chamada à policia. Ela é condenada a trinta meses de prisão.
Comentário: Os filmes de Leigh são cheios de realismo e improvisações, e "Vera Drake" não é diferente. Para obter uma reação a mais real possível, Leigh não contou a nenhum dos atores principais, com exceção de Imelda Staunton, que o filme era sobre aborto. Nem Staunton ficou sabendo que sua personagem seria presa. Sua reação e a dos outros atores quando os policias batem na porta da casa usada para ensaios é verdadeiramente genuína. Os diálogos daquela cena foram completamente improvisados. O filme mostra a importância da família, com a personagem de Joyce, a esposa de Frank, que afirma querer ser mãe, sendo mostrada como a mais fria e egoísta de todos. Ela é preocupada com bens materiais e na melhora de seu status social. Quando Vera é presa, ela se afasta daquilo que considera uma vergonha para a família. Em contraste, a casa de Vera é cheia de amor e felicidade. O casamento de Vera e Stanley é tão forte que ele, assim como seus filhos, permanece fiel a ela, apesar de não compreender as razões dela para praticar abortos. Outro tema recorrente no filme é a batalha entre moralidade e legalidade. Moralmente, Vera acredita estar fazendo a coisa certa ajudando mulheres que não querem dar à luz. Ela é uma mulher honesta que realiza abortos por caridade devido à sua compreensão das consequências de uma gravidez indesejada em seu ambiente socioeconômico. As boas intenções de Vera, no entanto, são irrelevantes no tribunal.
O que eu achei: O filme acompanha a vida de Vera, uma mulher simples, afetuosa e dedicada, que divide seu tempo entre o trabalho como diarista, os cuidados com a família e uma atividade clandestina: realizar abortos em mulheres pobres que não têm a quem recorrer. A grande força do filme está justamente no contraste entre a doçura da protagonista e a brutalidade das circunstâncias sociais que a cercam. Vera não age por lucro, mas por compaixão – e esse gesto solidário acaba levando-a ao confronto com um sistema que não enxerga sua humanidade, apenas sua transgressão. Leigh conduz essa narrativa com sobriedade, sem cair em maniqueísmos, mas deixando claro o peso de uma estrutura social injusta e repressora. A atuação de Imelda Staunton é absolutamente memorável. Sua interpretação transmite uma generosidade genuína, um calor humano que torna ainda mais dolorosa a reviravolta que se abate sobre ela. É impossível não se emocionar com a dignidade silenciosa com que Vera enfrenta sua tragédia pessoal. A câmera de Leigh, sempre próxima e intimista, reforça esse tom quase documental, aproximando o espectador de cada gesto e olhar. Embora o ritmo do filme seja lento e a narrativa aparentemente simples, essa contenção é sua força: Leigh confia na densidade dos personagens e na força moral da história para impactar o público. O resultado é um drama social poderoso, que provoca reflexões profundas sobre empatia, justiça, desigualdade e o direito ao próprio corpo. Talvez não seja perfeito em todos os aspectos – alguns espectadores poderão achar sua cadência excessivamente lenta – mas é justamente essa sobriedade que dá consistência à sua força dramática. No fim, trata-se de uma obra comovente, politicamente relevante e artisticamente impecável.