
Sinopse: Um jovem poeta é contratado por um museu de cera para escrever as biografias de três grandes criminosos: o califa Haroun Al-Hashid (Emil Jannings); Ivan, o Terrível (Conrad Veidt) e Jack, o Estripador (Werner Krauss).
Comentário: Paul Leni (1885-1929) tornou-se um pintor avant-garde aos 15 anos. Estudou na Academia de Belas-Artes de Berlim e depois trabalhou como desenhista de cenários teatrais. Em 1913, começou a trabalhar com a indústria de filmes alemã desenhando cenários e figurinos para diretores como Joe May, Ernst Lubitsch, Richard Oswald e E.A. Dupont. Durante a Primeira Guerra Mundial, começou a dirigir filmes como "Der Feldarzt - Das Tagebuch des Dr. Hart" (1917), "Patience" (1920), "Die Verschwörung zu Genuia" (1920-21) e "Backstairs" (1921). A partir de 1925 desenhou prólogos curtos para estreias de festivais de filmes em cinemas de Berlim. Em 1927, mudou-se para Hollywood, aceitando um convite de Carl Larmmle para se tornar diretor nos estúdios da Universal. Lá, Leni estreou como diretor com "The Cat and the Canary" (1927), o qual serviu como influência para filmes de terror da Universal e foi refilmado várias vezes. No ano seguinte, dirigiu "O Homem que Ri", um dos filmes mais estilizados do período do cinema mudo, um clássico aclamado pelos fãs do gênero. Paul Leni morreu devido a um envenenamento, em Los Angeles, aos 44 anos. Este é o primeiro filme que vejo dele.
Em 2014 o SESC organizou uma mostra de cinema expressionista chamada "Sombras que Assombram" e publicou o seguinte texto - que contém spoilers - no catálogo da mostra: "'O Gabinete das Figuras de Cera', conforme o próprio título sugere, foi realizado ainda sob a égide estética do caligarismo. Seu diretor constrói imensos cenários tridimensionais, tipicamente expressionistas, calcados nos exageros das formas. Tal como em 'O Gabinete do Dr. Caligari', é em uma feira que o museu está instalado como atração; tal feira pode ser entendida como uma metáfora do caos e da desorganização política presentes na República de Weimar.
No filme, vemos um jovem sendo contratado por um museu de cera para escrever as histórias de três de seus personagens: o califa Haroun Al-Haschid; Ivan, o Terrível; e Jack, o Estripador. Nesse filme, mais uma vez o fantástico invade o cinema alemão de maneira surpreendente. Paul Leni consegue reunir os três maiores atores alemães da época (Werner Krauss, Conrad Veidt e Emil Jannings), cada um representando uma das figuras de cera.
Os cenários tridimensionais causam uma terrível estranheza no espectador, as partes internas do palácio são labirínticas, com escadas tortuosas e irreais que mais parecem um formigueiro do que um interior palaciano. As casas, assim como seus interiores, têm uma aparência disforme e claustrofóbica.
Enquanto a atmosfera cômica predominava no episódio do califa, a aparência sombria e aterrorizante dá o tom no episódio dedicado a Ivan, o Terrível, interpretado por Conrad Veidt, que utiliza o corpo todo em sua construção do personagem. Nenhuns detalhe parece fugir de Veidt: cada andar, gesto ou olhar conduz a cena e o espectador para onde bem entender. Demonstra ser um ator que compreende com plenitude a estética idealizada pelos realizadores expressionistas, e por isso foi um de seus ícones. Assim como Veidt, as expressões faciais dos outros atores também são exacerbadas, além de seus gestos nos momentos mais dramáticos da trama.
No episódio sobre Ivan, o Terrível, Paul Leni faz uso de uma temática recorrente nas obras expressionistas, e em especial a caligarista: promover uma mistura sinistra de ciência e misticismo, com estranhos rituais envolvendo tubos de ensaio, ampulhetas e práticas de magia. O clima pesado que Leni imprime nesse episódio é salientado por um artificialismo que beira o grotesco, com chapéus maiores do que o normal, vestuários ornamentais, assim como a concepção dos cenários. Tais como o personagem brilhantemente encarnado por Veidt, todos os elementos de cena são falsos, o mal-estar se instaura como inerente a esse episódio sobre Ivan, sua personalidade doentia parece conferir o tom desejado pelo diretor.
Jack, o Estripador entra na trama mais como um epílogo do que como um personagem a ter a sua historia contada. Talvez Leni tenha se aproveitado de sua reconhecida imagem assassina para realizar uma grande brincadeira com o universo onírico do cinema. Já cansado de escrever as outras duas histórias, o personagem escritor imerge no sono e Leni nos brinda com as imagens mais belas e enigmáticas de todo o filme: as imagens passam a se duplicar e o personagem de Jack adquire vida para atormentá-lo, perseguindo sua pretendente, a filha do dono do gabinete das figuras de cera. As imagens são impressionantes, com cenários repletos de formas geométricas, tais como em Caligari, numa atmosfera onírica, fantástica.
Paul Leni cria um curioso paralelo entre as histórias narradas até então no filme e o próprio cinema, ambos manipuladores de emoções, e assim como a feira, urna diversão barata, escapista e ilusória, um sonho que vale a pena ser vivido".
O que eu achei: É um bom filme. É mudo, realizado no auge do expressionismo alemão e assinado por um dos mais inovadores cineastas do cinema silencioso alemão. É interessante observar o quão ambicioso é o filme pois foram aplicadas várias técnicas visuais para dar tridimensionalidade aos cenários. Do expressionismo é fácil perceber os exageros estéticos. A caracterização do personagem do califa é um ótimo exemplo disso. A natural silhueta de Emil Jannings é aumentada com enchimentos em sua roupa na região do abdome. Uma outra curiosidade é que o filme explora apenas três dos quatro vilões que chegaram a aparecer no cartaz do filme. Reza a lenda que a quarta figura, que seria a de Rinaldo Rinaldini - personagem do romance do escritor alemão Christian August Vulpius - não teve sua história contada por falta de dinheiro para sua produção. Boa pedida.