
Comentário: Patricio Guzmán (1941) é um diretor de cinema chileno, especializado em documentários. Assisti dele os excelentes "Nostalgia da Luz" (2010), sobre duas buscas diferentes realizadas no deserto chileno do Atacama: uma por astrônomos à procura de respostas sobre a história do cosmos e outra por mulheres à procura dos restos mortais de entes queridos mortos pelo regime de Pinochet e "A Cordilheira dos Sonhos" (2019) sobre os mistérios da Cordilheira dos Andes, revelando poderosas informações sobre o passado e o presente do Chile. Desta vez vou conferir "O Botão de Pérola" (2015).
Eduardo Escorel da Revista Piauí publicou: "Apesar do intervalo de cinco anos que separa as estreias de 'Nostalgia da Luz', em 2010, e de 'O Botão de Pérola', em 2015, os dois filmes de Patricio Guzmán deveriam ser exibidos em programa duplo e assistidos obrigatoriamente um após o outro, pois formam um díptico sobre a busca dos cerca de 3 mil desaparecidos políticos chilenos, vítimas da ditadura chefiada pelo general Augusto Pinochet que perdurou quase dezessete anos, de 1973 a 1990. (...)
Transcorridos mais de trinta anos desde que Guzmán concluiu, em 1979, 'A Batalha do Chile', seu primeiro documentário de repercussão internacional, ele foi capaz de se reinventar como cineasta, passando da militância quente da mocidade à reflexão madura de 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola'. (...)
Os fatos que dão origem a 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' decorrem do desfecho político documentado em 'A Batalha do Chile' – durante a ditadura militar, milhares de presos políticos são assassinados, seus corpos enterrados ou lançados ao mar, alguns desenterrados depois e levados para lugares desconhecidos na tentativa de impedir que fossem encontrados. Entre os presos e desaparecidos está Jorge Müller, diretor de fotografia e câmera de 'A Batalha do Chile'. O país deixara de ser o 'remanso de paz, isolado do mundo' que fora durante a infância e juventude de Guzmán, conforme ele mesmo diz na narração inicial de 'Nostalgia da Luz'.
Graças à sua antiga paixão pela astronomia e à experiência de vida adquirida, ao tratar em 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' do trauma coletivo do Chile, país no qual além dos desaparecidos há cerca de 60 mil ex-torturados, Guzmán foi capaz de articular o passado com o tempo presente, dominante em 'A Batalha do Chile'. Aprendera que 'nada se vê no instante em que é visto', como diz o astrônomo Gaspar Galaz, em 'Nostalgia da Luz'.
'O presente não existe', prossegue Galaz. 'Ou seja, o único presente que existe, se é que existe, é o que eu tenho na minha mente. Minha consciência é o que mais se aproxima do presente absoluto. E talvez nem mesmo isso seja verdade, porque quando penso o sinal demora a se deslocar entre meus sentidos. O passado, eu creio, é a grande ferramenta do astrônomo. (...) Balizado por paradigmas da astronomia, arqueologia, geologia e história, Guzmán dedica o terço inicial de 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' à apresentação dessas referências, recorrendo na narração a metáforas para iluminar suas formulações. (...)
A estrutura narrativa de 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' arrodeia em espiral o tema central dos dois filmes – a busca de vestígios humanos de prisioneiros políticos assassinados –, cerrando passo a passo o foco da reflexão e produzindo dessa maneira efeito dramático impactante. (...)
Segundo Guzmán, 'O Botão de Pérola' foi concebido a partir da associação entre o botão encontrado em um dos trilhos usados para assegurar que os corpos afundassem, ficando ancorados no mundo do mar, e a história de Jemmy Button, nativo de ilhas ao redor do arquipélago da Terra do Fogo, que teria sido comprado dos pais pelo preço de um botão de madrepérola e levado pelo capitão FitzRoy para a Inglaterra, em 1830, para ser civilizado. Button tornou-se uma celebridade, mas depois de um ano retornou à sua terra natal no Beagle que levava Charles Darwin em sua famosa viagem, abandonou rapidamente roupas e hábitos europeus que havia adquirido e recusou a oferta para voltar mais uma vez à Inglaterra. (...)
Para Guzmán, o Chile é 'um país que não trabalha seu passado. Está estagnado em um golpe de Estado que ainda o mantém imobilizado, de certo modo'. O arqueólogo Lautaro Núñez, entrevistado em 'Nostalgia da Luz', diz compartilhar dessa visão: 'É um paradoxo. O passado mais recente nós o encapsulamos. É um paradoxo enorme. (...) Não fizemos absolutamente nada para compreender por que, no século XIX, foram produzidos esses modelos econômicos vertiginosos como o do salitre, do qual não restou nada. Então… nossas histórias mais próximas, nós as mantivemos escondidas, nós as mascaramos. Há como um contrassenso. Como se não quiséssemos nos aproximar dessa pré-história próxima, como se ela fosse quase uma pré-história acusatória. E isso, estimado amigo, não serve. Não serve para ninguém. Nem à direita, nem ao centro, nem à esquerda'.”
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Adoro Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Os comentários políticos, filosóficos e geográficos do diretor são valiosos. É notável ver como ele consegue articular conhecimentos tão diferentes, de maneira fluida. Talvez as imagens não sejam tão belas quanto os planos desérticos de 'Nostalgia da Luz', e é possível que o conjunto não apresente a mesma sensação de novidade, por reproduzir a mecânica do documentário precedente, mas ainda assim a obra é muito acima da média. O que prejudica o ritmo desta exposição é a narração em off, feita pelo próprio diretor. Guzmán adota novamente um tom professoral e ex-tre-ma-men-te ar-ti-cu-la-do, como se estivesse explicando para crianças com dificuldade de cognição. A monotonia do filme não deve contribuir para seu sucesso, nem no circuito de arte. Apesar do teor arrastado e didático, vale fazer um esforço para assimilar o rico pensamento interdisciplinar do diretor".
O que disse a crítica 2: Geoffrey Macnab do site Independent (UK) avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "O documentário de Patricio Guzmán, em formato de ensaio, é enganoso, mas profundamente comovente. Começa de forma mística, com reflexões sobre um bloco de quartzo de 3.000 anos descoberto no deserto chileno, que contém uma gota d'água em seu interior. (...) Em seguida, entra a política. O filme apresenta um relato sombrio de como os povos indígenas foram caçados pelos colonizadores. Depois, Guzmán aborda a queda do presidente Allende e os anos de Pinochet, durante os quais os opositores do regime foram presos, torturados, assassinados e jogados de helicópteros ao mar. Então, as reflexões sobre o cosmos são esquecidas quando o diretor aborda de forma muito direta atrocidades que muitos chilenos prefeririam esquecer".
O que eu achei: Após assistir os tocantes "Nostalgia da Luz" (2010) e "A Cordilheira dos Sonhos" (2019) do diretor chileno Patricio Guzmán, faltava completar a trilogia vendo "O Botão de Pérola" (2015), cuja oportunidade surgiu agora com o ingresso dele no site do SESC Digital. “O Botão de Pérola” é igualmente tocante. É documental, mas tem aquela pegada poética que só almas muito delicadas seriam capazes de produzir. O título conecta dois episódios trágicos do Chile por meio do oceano. O primeiro, ocorrido em 1830, faz referência a Jemmy Button (cujo nome real era Orundellico, esse Botton só está aí por causa do botão), um nativo de um arquipélago que fica no extremo sul da região patagônica chamado Terra do Fogo que, em 1830, foi ‘comprado’ por um desbravador inglês em troca de um simples botão de madrepérola. Ele levou esse nativo para a Inglaterra a fim dele viver temporariamente como um ‘civilizado inglês’ e em 1833 trouxe o rapaz de volta devolvendo-o à comunidade. Orundellico passou por um choque cultural profundo e não agiu como um missionário civilizador como esperavam, mas o episódio abriu as portas para o extermínio indígena. O outro episódio trágico refere-se a um botão de camisa, também de madrepérola, encontrado por mergulhadores, que estava incrustado num trilho de trem encontrado no fundo do mar. Esses trilhos eram usados para afundar os corpos dos opositores políticos de Pinochet. Eles eram jogados no mar pelos helicópteros com a finalidade de desaparecerem. O diretor usa a imagem dos botões, ambos encontrados na mesma região do país, para conectar crimes distantes por mais de um século, transformando o objeto em uma testemunha silenciosa da história chilena, como se a imensa costa do Chile e a água do oceano fossem um grande arquivo de memória. Interessante observar que em cada um desses documentários, Guzmán aborda elementos naturais. O primeiro - “Nostalgia da Luz” (2010) - aborda a Terra e o Cosmos. Gravado no Deserto do Atacama, ele mostra astrônomos olhando para o Céu com seus potentes telescópios para buscar a luz do passado do universo, enquanto um grupo de mulheres (mães e esposas) olham para a Terra em busca dos restos mortais de seus parentes desaparecidos na ditadura e ali enterrados. O segundo - que é este - fala da Água. Guzmán parte do fato de que o Chile possui uma costa marítima gigantesca para explorar o mar como testemunha da história. A água é apresentada como a antiga estrada dos indígenas nômades da Patagônia e, posteriormente, como o cemitério secreto onde o regime militar despejava os corpos dos opositores. E por fim - em “A Cordilheira dos Sonhos” (2019) - ele utiliza A Pedra e a Rocha para investigar a imensa Cordilheira dos Andes, que serve como uma muralha natural que isola o Chile do resto do mundo. Aqui, a montanha de pedra é tratada como uma testemunha silenciosa e imutável que assistiu de perto a todo o isolamento político, à violência do regime militar e à posterior guinada neoliberal do país. Do micro ao macro, Patricio Guzmán é um desses documentaristas que possui uma linguagem cinematográfica única, tipo um ensaio poético-filosófico. Seus filmes passam longe da abordagem tradicional, meramente jornalística, militante ou de denúncia. Ele eleva a dor histórica a uma escala cósmica e existencial como nenhum outro. Imperdíveis todos.
Eduardo Escorel da Revista Piauí publicou: "Apesar do intervalo de cinco anos que separa as estreias de 'Nostalgia da Luz', em 2010, e de 'O Botão de Pérola', em 2015, os dois filmes de Patricio Guzmán deveriam ser exibidos em programa duplo e assistidos obrigatoriamente um após o outro, pois formam um díptico sobre a busca dos cerca de 3 mil desaparecidos políticos chilenos, vítimas da ditadura chefiada pelo general Augusto Pinochet que perdurou quase dezessete anos, de 1973 a 1990. (...)
Transcorridos mais de trinta anos desde que Guzmán concluiu, em 1979, 'A Batalha do Chile', seu primeiro documentário de repercussão internacional, ele foi capaz de se reinventar como cineasta, passando da militância quente da mocidade à reflexão madura de 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola'. (...)
Os fatos que dão origem a 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' decorrem do desfecho político documentado em 'A Batalha do Chile' – durante a ditadura militar, milhares de presos políticos são assassinados, seus corpos enterrados ou lançados ao mar, alguns desenterrados depois e levados para lugares desconhecidos na tentativa de impedir que fossem encontrados. Entre os presos e desaparecidos está Jorge Müller, diretor de fotografia e câmera de 'A Batalha do Chile'. O país deixara de ser o 'remanso de paz, isolado do mundo' que fora durante a infância e juventude de Guzmán, conforme ele mesmo diz na narração inicial de 'Nostalgia da Luz'.
Graças à sua antiga paixão pela astronomia e à experiência de vida adquirida, ao tratar em 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' do trauma coletivo do Chile, país no qual além dos desaparecidos há cerca de 60 mil ex-torturados, Guzmán foi capaz de articular o passado com o tempo presente, dominante em 'A Batalha do Chile'. Aprendera que 'nada se vê no instante em que é visto', como diz o astrônomo Gaspar Galaz, em 'Nostalgia da Luz'.
'O presente não existe', prossegue Galaz. 'Ou seja, o único presente que existe, se é que existe, é o que eu tenho na minha mente. Minha consciência é o que mais se aproxima do presente absoluto. E talvez nem mesmo isso seja verdade, porque quando penso o sinal demora a se deslocar entre meus sentidos. O passado, eu creio, é a grande ferramenta do astrônomo. (...) Balizado por paradigmas da astronomia, arqueologia, geologia e história, Guzmán dedica o terço inicial de 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' à apresentação dessas referências, recorrendo na narração a metáforas para iluminar suas formulações. (...)
A estrutura narrativa de 'Nostalgia da Luz' e 'O Botão de Pérola' arrodeia em espiral o tema central dos dois filmes – a busca de vestígios humanos de prisioneiros políticos assassinados –, cerrando passo a passo o foco da reflexão e produzindo dessa maneira efeito dramático impactante. (...)
Segundo Guzmán, 'O Botão de Pérola' foi concebido a partir da associação entre o botão encontrado em um dos trilhos usados para assegurar que os corpos afundassem, ficando ancorados no mundo do mar, e a história de Jemmy Button, nativo de ilhas ao redor do arquipélago da Terra do Fogo, que teria sido comprado dos pais pelo preço de um botão de madrepérola e levado pelo capitão FitzRoy para a Inglaterra, em 1830, para ser civilizado. Button tornou-se uma celebridade, mas depois de um ano retornou à sua terra natal no Beagle que levava Charles Darwin em sua famosa viagem, abandonou rapidamente roupas e hábitos europeus que havia adquirido e recusou a oferta para voltar mais uma vez à Inglaterra. (...)
Para Guzmán, o Chile é 'um país que não trabalha seu passado. Está estagnado em um golpe de Estado que ainda o mantém imobilizado, de certo modo'. O arqueólogo Lautaro Núñez, entrevistado em 'Nostalgia da Luz', diz compartilhar dessa visão: 'É um paradoxo. O passado mais recente nós o encapsulamos. É um paradoxo enorme. (...) Não fizemos absolutamente nada para compreender por que, no século XIX, foram produzidos esses modelos econômicos vertiginosos como o do salitre, do qual não restou nada. Então… nossas histórias mais próximas, nós as mantivemos escondidas, nós as mascaramos. Há como um contrassenso. Como se não quiséssemos nos aproximar dessa pré-história próxima, como se ela fosse quase uma pré-história acusatória. E isso, estimado amigo, não serve. Não serve para ninguém. Nem à direita, nem ao centro, nem à esquerda'.”
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Adoro Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Os comentários políticos, filosóficos e geográficos do diretor são valiosos. É notável ver como ele consegue articular conhecimentos tão diferentes, de maneira fluida. Talvez as imagens não sejam tão belas quanto os planos desérticos de 'Nostalgia da Luz', e é possível que o conjunto não apresente a mesma sensação de novidade, por reproduzir a mecânica do documentário precedente, mas ainda assim a obra é muito acima da média. O que prejudica o ritmo desta exposição é a narração em off, feita pelo próprio diretor. Guzmán adota novamente um tom professoral e ex-tre-ma-men-te ar-ti-cu-la-do, como se estivesse explicando para crianças com dificuldade de cognição. A monotonia do filme não deve contribuir para seu sucesso, nem no circuito de arte. Apesar do teor arrastado e didático, vale fazer um esforço para assimilar o rico pensamento interdisciplinar do diretor".
O que disse a crítica 2: Geoffrey Macnab do site Independent (UK) avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "O documentário de Patricio Guzmán, em formato de ensaio, é enganoso, mas profundamente comovente. Começa de forma mística, com reflexões sobre um bloco de quartzo de 3.000 anos descoberto no deserto chileno, que contém uma gota d'água em seu interior. (...) Em seguida, entra a política. O filme apresenta um relato sombrio de como os povos indígenas foram caçados pelos colonizadores. Depois, Guzmán aborda a queda do presidente Allende e os anos de Pinochet, durante os quais os opositores do regime foram presos, torturados, assassinados e jogados de helicópteros ao mar. Então, as reflexões sobre o cosmos são esquecidas quando o diretor aborda de forma muito direta atrocidades que muitos chilenos prefeririam esquecer".
O que eu achei: Após assistir os tocantes "Nostalgia da Luz" (2010) e "A Cordilheira dos Sonhos" (2019) do diretor chileno Patricio Guzmán, faltava completar a trilogia vendo "O Botão de Pérola" (2015), cuja oportunidade surgiu agora com o ingresso dele no site do SESC Digital. “O Botão de Pérola” é igualmente tocante. É documental, mas tem aquela pegada poética que só almas muito delicadas seriam capazes de produzir. O título conecta dois episódios trágicos do Chile por meio do oceano. O primeiro, ocorrido em 1830, faz referência a Jemmy Button (cujo nome real era Orundellico, esse Botton só está aí por causa do botão), um nativo de um arquipélago que fica no extremo sul da região patagônica chamado Terra do Fogo que, em 1830, foi ‘comprado’ por um desbravador inglês em troca de um simples botão de madrepérola. Ele levou esse nativo para a Inglaterra a fim dele viver temporariamente como um ‘civilizado inglês’ e em 1833 trouxe o rapaz de volta devolvendo-o à comunidade. Orundellico passou por um choque cultural profundo e não agiu como um missionário civilizador como esperavam, mas o episódio abriu as portas para o extermínio indígena. O outro episódio trágico refere-se a um botão de camisa, também de madrepérola, encontrado por mergulhadores, que estava incrustado num trilho de trem encontrado no fundo do mar. Esses trilhos eram usados para afundar os corpos dos opositores políticos de Pinochet. Eles eram jogados no mar pelos helicópteros com a finalidade de desaparecerem. O diretor usa a imagem dos botões, ambos encontrados na mesma região do país, para conectar crimes distantes por mais de um século, transformando o objeto em uma testemunha silenciosa da história chilena, como se a imensa costa do Chile e a água do oceano fossem um grande arquivo de memória. Interessante observar que em cada um desses documentários, Guzmán aborda elementos naturais. O primeiro - “Nostalgia da Luz” (2010) - aborda a Terra e o Cosmos. Gravado no Deserto do Atacama, ele mostra astrônomos olhando para o Céu com seus potentes telescópios para buscar a luz do passado do universo, enquanto um grupo de mulheres (mães e esposas) olham para a Terra em busca dos restos mortais de seus parentes desaparecidos na ditadura e ali enterrados. O segundo - que é este - fala da Água. Guzmán parte do fato de que o Chile possui uma costa marítima gigantesca para explorar o mar como testemunha da história. A água é apresentada como a antiga estrada dos indígenas nômades da Patagônia e, posteriormente, como o cemitério secreto onde o regime militar despejava os corpos dos opositores. E por fim - em “A Cordilheira dos Sonhos” (2019) - ele utiliza A Pedra e a Rocha para investigar a imensa Cordilheira dos Andes, que serve como uma muralha natural que isola o Chile do resto do mundo. Aqui, a montanha de pedra é tratada como uma testemunha silenciosa e imutável que assistiu de perto a todo o isolamento político, à violência do regime militar e à posterior guinada neoliberal do país. Do micro ao macro, Patricio Guzmán é um desses documentaristas que possui uma linguagem cinematográfica única, tipo um ensaio poético-filosófico. Seus filmes passam longe da abordagem tradicional, meramente jornalística, militante ou de denúncia. Ele eleva a dor histórica a uma escala cósmica e existencial como nenhum outro. Imperdíveis todos.