18.7.26

"Como Treinar o Seu Dragão" – Chris Sanders & Dean DeBlois (Reino Unido/França/EUA, 2010)

Sinopse:
Na ilha de Berk, os vikings dedicam a vida a matar dragões. Soluço, filho do chefe Stoico, também sonha em matar um dragão e provar seu valor ao pai, apesar da descrença geral. Um dia ele acerta um dragão chamado Banguela. Soluço percebe que ele perdeu parte da cauda e, com isso, não consegue mais voar. Soluço passa a trabalhar em um artefato que possa substituir a parte perdida e, aos poucos, se aproxima do dragão. Só que, paralelamente, Stoico autoriza que o filho participe do treino para dragões, cuja prova final é justamente matar um dos animais.
Comentário: Isabela Boscov publicou em seu site: "Praticamente não existe ficção infantil ou infantojuvenil cujo tema central não seja o confrontamento com as regras do mundo adulto – porque há pouco, na vida de uma criança, que consuma mais tempo e energia do que entendê-las, ou que cause mais perplexidade e eventual sofrimento do que aprender a lidar com elas. Por boa razão, assim, essa é a base sobre a qual se assenta o roteiro de boa parte dos filmes para crianças que se produzem hoje.
Mas não muitos podem se gabar de compreender tão bem o reverso dessa condição quanto 'Como Treinar o Seu Dragão' (2010). O menino Soluço, magrinho e meio medroso, é um fracasso como viking e uma decepção para seu pai, o chefe do clã. Nunca vai ser um caçador de dragões. E matar dragões é o que de mais essencial se pode fazer na ilha de Berk, assolada por ferocíssimos cuspidores de fogo. Uma coincidência, um momento de compaixão e a curiosidade típica da idade o colocam em um caminho diferente. Soluço vai se transformar, em segredo, em um domador de dragões. E essa é de fato a pedra de toque do filme – o sentimento libertador, inebriante e vertiginoso que uma criança prova quando descobre que, às vezes, há uma alternativa a pôr-se sob as rédeas adultas: pode-se usar a imaginação para inventar regras melhores.
'Como Treinar o Seu Dragão' é adaptado do livro homônimo (publicado aqui no Brasil pela Intrínseca), o primeiro de uma série de oito volumes protagonizados por Soluço e escritos pela inglesa Cressida Cowell. A autora, que passou os verões de sua infância em uma ilha escocesa isolada, sem eletricidade nem telefone, guarda uma lembrança vívida do senso de aventura que experimentou ali, e em especial de como acreditava que, naquela costa escarpada, os dragões existiriam de fato. Essa memória emotiva norteia seus livros e permanece intacta na animação dirigida pela dupla do anárquico 'Lilo & Stitch'.
Os cenários são sempre monumentais, mas ora parecem idílicos, ora têm um quê de assustador, como no mundo interior da infância – sugestões muito bem aproveitadas no trabalho em 3D. A descoberta mútua entre Soluço e o dragão Banguela, que ele salva e 'conserta' (ele perdeu parte da cauda ao ser perseguido), é repleta de humor e sentimento. E o final introduz um dado real de sacrifício físico que é mais comum em desenhos inflexivelmente morais como os do japonês Hayao Miyazaki do que nas animações dos grandes estúdios americanos (no caso, a DreamWorks de 'Shrek'), com sua visão superprotetora da infância: aqui, Soluço perde algo precioso por se manter fiel às suas convicções. Mas ele e toda Berk ganham mais ainda por ter ouvido o menino que compensa o que lhe falta em autoridade com o que lhe sobra em imaginação".
O que disse a crítica 1: André Barcinski crítico da Folha SP avaliou como bom. Disse: "'Como Treinar o seu Dragão' (...), é um raro exemplo de filme infantil que agrada a espectadores de todas as idades. O longa combina imagens deslumbrantes, ótimos efeitos em 3D e uma história instigante sobre o mundo dos vikings".
O que disse a crítica 2: Thiago Siqueira do site Cinema com Rapadura avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Ele elogiou o design dos animais e dos humanos, os efeitos computadorizados e as texturas de cada material, a trilha sonora de John Powell e as cenas de voo e de combates do filme em 3D e finalizou dizendo: "Divertido e marcante, 'Como Treinar o Seu Dragão' é uma aventura incrível, embora eu não a indique para crianças muito pequenas justamente por ser demasiadamente movimentada e até pesada em dados momentos, principalmente em seu clímax. De qualquer modo, digo sem medo de errar que se trata da melhor animação realizada pela Dreamworks/PDI. Recomendo!".
O que eu achei: Trata-se de uma animação baseada no primeiro livro de uma série chamado “Como Treinar o Seu Dragão” da inglesa Cressida Cowell. A trama acompanha Soluço, um jovem viking franzino da ilha de Berk, que tenta provar seu valor. Diferente de sua tribo, que caça dragões, ele acidentalmente captura um raro dragão da raça "Fúria da Noite", batizando-o de Banguela. Ao cuidar da fera, Soluço descobre que ele é dócil como um animal doméstico, unindo-se a ele para salvar a sua vila de uma criatura gigante. Temas como amadurecimento, rejeição familiar, sensação de não pertencimento e deficiência física são abordados no longa. É bonito ver o forte vínculo silencioso que se constrói entre Soluço e Banguela, baseado na empatia e na observação um do outro. Apesar de Banguela ser um dragão, nota-se uma inspiração direta em animais como gatos, cães e panteras. A trilha sonora de John Powell, que achei levemente exagerada em alguns poucos pontos, foi indicada ao Oscar por ditar o tom de aventura e emoção. Mesmo as piadas de alívio cômico são divertidas. A única crítica que li é que a animação se distancia demais do livro que lhe deu origem. Dizem que houve uma mudança radical na personalidade dos dragões, que no livro falam e são bem menores. Com relação à classificação etária ser livre, eu não recomendaria para crianças muito pequenas pois há cenas razoavelmente violentas e uma trama não tão simplificada. Em termos de continuações essa animação teve duas até o momento: "Como Treinar o Seu Dragão 2" (2014) e "Como Treinar o Seu Dragão: O Mundo Oculto" (2019). E esse longa de 2010 teve em 2025 uma refilmagem em live action.