3.4.26

"Retrato de Um Certo Oriente" - Marcelo Gomes (Brasil/Itália/Líbano, 2024)

Sinopse:
Emilie (Wafa'a Celine Halawi) e Emir (Zakaria Kaakour), irmãos católicos, fogem de uma guerra no Líbano para o Brasil. Durante a viagem, Emilie se apaixona por um comerciante muçulmano, Omar (Charbel Kamel). Emir sofre de um ciúme incontrolável e usará suas diferenças religiosas para separá-los.
Comentário: Marcelo Gomes (1963) é um cineasta e roteirista brasileiro. São dele os filmes "O Homem das Multidões" (2014), codirigido por Cao Guimarães, "Joaquim" (2017) e "Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar" (2019), todos selecionados para o Festival de Cinema de Berlim. Assisti dele os bons "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), premiado em Cannes; "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009), codirigido por Karim Aïnouz; e "Paloma" (2022). Desta vez vou conferir "Retrato de um Certo Oriente".
Neusa Barbosa do site Cineweb publicou: "Mais do que uma adaptação, é uma inspiração que colhe o diretor Marcelo Gomes a partir do livro de Milton Hatoum, 'Relato de um Certo Oriente'. No filme, em que muda o nome para 'Retrato de um Certo Oriente', ele transforma essa história turbulenta de imigrantes libaneses em Manaus numa espécie de metonímia do texto de Hatoum, colhendo dele apenas alguns personagens e ampliando de maneira singular a participação da Amazônia e não só como cenário.
Afeito a filmes sobre personagens em movimento e choques culturais, como sua estreia, 'Cinema, Aspirinas e Urubus' (2005), em que retratava o convívio de um alemão (Peter Ketnath) e um nordestino (João Miguel) pelas estradas do Brasil, Gomes expande a história pregressa dos irmãos Emilie (Wafa’a Celine Halawi) e Emir (Zakaria Kaakour), igualmente centrais no livro.
No roteiro, assinado por Gomes e Maria Camargo, visita-se o passado dos irmãos, no Líbano de turbulento de 1949, numa tempestuosa cena em que o irmão vem arrancar sua irmã do convento em que se refugiara depois da morte dos pais - uma sequência que conta com a participação carismática da atriz brasileira Tuna Dwek, como a madre superiora. Vendendo a casa dos pais, Emir quer começar vida nova no Brasil com Emilie - a quem o une um amor ciumento, sentimento que será decisivo no rumo dessa história de personagens 'apaixonados e apaixonantes', como define o diretor.
A bordo de um navio a caminho do Brasil, Emir esconde-se na cabine de Emilie como clandestino, para economizar o preço de uma passagem. Em suas explorações pelo navio, Emilie acaba conhecendo Omar (Charbel Kamel), um comerciante libanês já habituado na rota entre o Líbano e o Brasil. Nasce uma paixão entre o muçulmano Omar e a cristã Emilie. Mas a religião é apenas um pretexto para a oposição doentia de Emir, que tem pela irmã uma possessividade quase de paixão incestuosa. Destes repentes extremos do temperamento de Emir, em que se nota um esboço de atração homossexual por um fotógrafo (Eros Galbiati), está contido o potencial de tragédia que, neste aspecto, não se desvia tanto do livro.
Mas, para fugir dos fluxos de consciência que povoam o texto do livro, Gomes constrói um arcabouço de belas imagens em preto-e-branco (fotografia de Pierre de Kerchove), que traduz o conteúdo destes múltiplos olhares, dos libaneses entre si e deles para as populações indígenas locais que eles começam a conhecer já no barco. A parada numa aldeia indígena, aliás, causada por um acidente com Emir, é a oportunidade criada no filme para apresentar melhor as culturas locais e também introduzir um tema muito atual, a luta pela defesa da terra das populações originárias. E é também neste novo ambiente que o amor entre Emilie e Omar poderá enraizar-se, incorporando um elemento de tolerância entre culturas e religiões que, de algum modo, é também fundador de uma certa utopia sonhada pelo Brasil, apesar de todos os preconceitos.
Ao optar por permanecer apenas na juventude de seus personagens, não indo adiante no tempo como o livro, Gomes também limita seu escopo dramático a essa ideia de início de uma vida nova, que é pontuada de paixões mas também de perda e dor. E é nestes temas que o filme encontra uma universalidade, sem trair a especificidade desses encontros tão inusitados, como o dos libaneses e dos indígenas no solo brasileiro".
O que disse a crítica 1: Victor Russo do site Filmes & Filmes avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "Gomes parece não ter uma grande pretensão em falar exatamente sobre as Guerras ou sobre a religião, mas de recordar e eternizar o resultado delas, assim como exaltar esses aventureiros que se permitiram encontrar o amor no desconhecido preto e branco de um país que nem sabiam onde ficava. E, ainda que a trama envolvendo o irmão seja bastante novelesca, o cineasta consegue extrair muita beleza entre as relações que Emilie faz pelo caminho, os aprendizados, como a nova língua ou montar uma rede para dormir, que não soam pesarosos, e, sim, parte dessa jornada autoimposta que aos poucos ganha um contorno de sonho e até otimismo".
O que disse a crítica 2: Caio Coletti do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "'Retrato de um Certo Oriente' não é o primeiro e não será o último drama de imigração que articula a tragédia e o triunfo de construir uma vida em um novo lugar (e, necessariamente, destruir a vida que se vivia no antigo). Mas é um sentimento sempre pungente de se ver na tela, e o filme de Marcelo Gomes encontra em suas escolhas estéticas os meios para expressá-lo de uma forma que se apresenta genuína. É mais do que o bastante para valer sua 1h30 de projeção".
O que eu achei: Assistir a “Retrato de Um Certo Oriente” (2024) me fez perceber o quanto eu gosto de do trabalho do Marcelo Gomes. Assisti dele anteriormente "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" (2009), codirigido por Karim Aïnouz; e "Paloma" (2022) e este é mais um achado. Inspirado no livro "Relato de um Certo Oriente" de Milton Hatoum (um escritor nascido em Manaus, filho de imigrantes libaneses), o filme explora a saga de imigrantes libaneses no Brasil e os desafios enfrentados na floresta amazônica. A história começa no Líbano de 1949, onde os irmãos católicos Emilie (Wafa'a Celine Halawi) e Emir (Zakaria Kaakour) decidem deixar sua terra natal, ameaçada pela guerra, em busca de uma vida melhor. Bastou uma breve busca na internet pra descobrir que, de fato, o Líbano esteve envolvido na Guerra Árabe-Israelense de 1948, que se estendeu até o início de 1949. Então tudo indica que foi esse conflito que motivou Emir a vender a casa de seus pais e decidir vir tentar a vida no Brasil com sua irmã. Durante a travessia de navio – que parte de Beirute em direção à Belém do Pará - Emilie conhece e se apaixona por Omar (Charbel Kamel), um comerciante muçulmano nascido em Trípoli na Líbia, já habituado a fazer essa rota por conta dos tios que residem em Manaus. Contudo, Emir, tomado por ciúmes e influenciado pelas diferenças religiosas, tenta separá-los. Em entrevista, Marcelo Gomes nos conta que todos os filmes dele envolvem uma viagem, neste caso o deslocamento de um país semiárido para ‘o mundo das águas e da floresta' no coração do Amazonas. O romance de Milton Hatoum o interessou especialmente pela questão da alteridade – a natureza ou condição do que é outro, do que é distinto – que é um dos temas preferenciais seus já que ele acredita que a única maneira de desconstruir preconceitos é ver o mundo através dos olhos dos outros. Essa alteridade está não só na relação entre os dois irmãos católicos e o comerciante muçulmano, como também na relação deles com os indígenas da Amazônia e seus rituais religiosos. Aliás, no elenco, os dois atores que interpretam os irmãos são realmente libaneses, enquanto Omar é francês e Anastácia é indígena. A trama é desenvolvida de forma lenta, mais contemplativa do que apressada, tendo o design sonoro e a belíssima fotografia em P&B – assinada pelo brasileiro Pierre de Kerchove, na qual o ‘relato’ vira um ‘retrato’ - como dois pontos altos do longa. É mais um daqueles filmes brasileiros pra gente se orgulhar. Super recomendo.