30.3.26

"Living the Land" - Huo Meng (China, 2025)

Sinopse:
Na China rural de 1991, quando os aldeões migram para as cidades em busca de melhores oportunidades, Chuang (Wang Shang), de 10 anos, permanece em sua cidade natal. Ele vive em uma época de grandes mudanças socioeconômicas que afetam principalmente os camponeses de sua região, incluindo a própria família.
Comentário: Huo Meng (1984) é um cineasta chinês. Ele começou estudando direito na Communication University of China, antes de prosseguir com um mestrado em cinema na mesma instituição. Seu curta-metragem "Hongguang’s Holidays" (2008) venceu o prémio de Melhor Curta de Estudante no Festival de Cinema da Universidade de Pequim, e seu primeiro longa, "Crossing the Border – Zhaoguan" (2018), arrecadou vários prémios internacionais, sendo exibido na Berlinale de 2020. "Living The Land" (2025) é seu segundo longa e o primeiro filme que vejo dele.
Carmen Augusta do site Splish Splash publicou: "Vencedor do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim, 'Living The Land' (...) é um retrato sensível e implacável da China rural no início dos anos 1990, quando tradição e modernidade passam a ocupar o mesmo espaço - nem sempre de forma pacífica.
Ambientado em 1991, o filme acompanha Chuang, um menino de 10 anos que permanece na aldeia natal enquanto boa parte da população migra para as cidades em busca de trabalho e sobrevivência. Terceiro filho de uma família camponesa, ele observa um mundo antigo desmoronar lentamente, substituído por máquinas, novas políticas econômicas e uma lógica de progresso que não pede licença às emoções nem à memória coletiva.
Durante mais de três mil anos, a China estruturou-se como uma sociedade essencialmente agrícola. Até a década de 1980, o campo era responsável por sustentar a maior parte da riqueza social do país. Com as reformas econômicas e o avanço tecnológico, esse equilíbrio foi abruptamente rompido. O trabalho manual começou a ser substituído por máquinas industriais, enquanto recursos como o petróleo passaram a ocupar o lugar simbólico e prático da terra, base da vida rural.
Segundo Huo Meng, 'Living The Land' nasce da necessidade de compreender o impacto profundo desse momento histórico sobre as tradições, os afetos e as relações humanas. As mudanças, como ele próprio define, agiram como um vento imparável, varrendo hábitos, crenças e modos de vida construídos ao longo de séculos. O filme, embora enraizado no passado, dialoga diretamente com a mentalidade da China contemporânea e com dilemas universais ligados ao progresso.
O diretor também destaca o embate entre políticas sociais coletivistas e tradições milenares, forçando comunidades inteiras a se adaptarem de formas muitas vezes dolorosas. Nesse processo, o filme lança um olhar atento sobre as mulheres, que enfrentam pressões sociais e físicas intensas, deixando marcas profundas e, em muitos casos, irreversíveis. Não há romantização: há observação, escuta e respeito.
Com 129 minutos de duração, 'Living The Land' conquistou reconhecimento imediato da crítica internacional. O longa mantém 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e foi elogiado por veículos como The Hollywood Reporter, que destacou sua precisão estética e sensibilidade narrativa. A Screen Daily definiu o filme como imersivo e ambicioso, enquanto o IndieWire o descreveu como extremamente bonito e envolvente - adjetivos que não surgem por acaso.
Mais do que um drama histórico, 'Living The Land' é uma experiência contemplativa sobre perda, adaptação e resistência silenciosa. Um filme que observa sem pressa, confia na força das imagens e permite que o espectador caminhe junto com seus personagens por um território em extinção simbólica".
O que disse a crítica 1: Jorge Pereira Rosa do site C7nema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "'Living the Land' põe na equação várias gerações desafiadas pela mudança dos modos de vida e do 'ser', contribuindo a fotografia e a realização de Heng para unir o espectador junto à 'terra', 'a quem a trabalha', e de quem sofre e lucra com ela. Conversas sobre o preço inflacionado da comida nas grandes cidades mostram que o nível de vida nesta pequena localidade cria uma desarmonia econômica tão gritante que 'ficar' é aceitar a morte e um caudal de disparidades como destino final, enquanto temáticas como o planejamento familiar, os fuzilamentos do passado, e o coletivismo invadem toda a história da família que é o reflexo de muitas outras do mesmo território. No final, apesar da sensação de dèjá vu temático, sobressai a forma como Heng tenta criar um épico sobre várias gerações do mesmo clã, falando nisso da própria China, ainda hoje a lutar (...) por uma identidade em algum lugar entre a sua história e o capitalismo que a veio conquistar".
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Ele elogia a fotografia dizendo que ela "remete à sensação de contemplar inúmeros quadros renascentistas, concebidos precisamente para o passeio dos sentidos, a admiração de tantas ações em paralelo, visando construir um ideal de coletividade. Por isso, pode-se falar em um protagonismo coletivo do vilarejo - o número de pessoas citadas nos créditos finais é impressionante". E conclui: "É evidente que o filme se posiciona ao lado destes indivíduos, com carinho e admiração, o que não implica em idealizar sua luta inglória para ganhar alguns centavos, nem em torná-los ícones de um modo de vida tradicional. 'Living the Land' formula perguntas pertinentes para o espectador tirar as conclusões que julgar apropriadas a partir de um painel tão abrangente".
O que eu achei: Trata-se de um longa que se passa no ano de 1991 na China, mostrando a sobrevivência de uma aldeia rural tradicional enquanto o país passa por profundas mudanças socioeconômicas em um cenário de modernização. À medida que o advento da tecnologia remodela seu estilo de vida, os ciclos de nascimentos, mortes, casamentos e funerais revelam o peso duradouro da tradição e as pressões para equilibrar as responsabilidades familiares nesse mundo em transformação. A trama se foca em um menino chamado Chuang, de 10 anos. Seu pai, mãe e irmãos mais velhos já foram para a cidade em busca de trabalho e ele ficou aos cuidados dos outros familiares. O filme é lindo e bastante contemplativo. Na maior parte do tempo a câmera fica mais à distância retratando a comunidade em atividade e a beleza do campo e, pontualmente, se aproxima dos personagens para mostrar questões individuais. O final nos conta que o próprio diretor - Huo Meng – vivia em uma dessas aldeias. Numa breve pesquisa li que ele nasceu em Zhoukou, distrito de Taikang, em 1984, na então pobre província de Henan, no Sudeste da China. O filme tem então uma inspiração autobiográfica. Em entrevista ele declarou que “queria retratar como - quando políticas sociais coletivistas colidiram com tradições moldadas ao longo de milênios - as pessoas foram forçadas a se adaptar de maneiras que desafiaram seu próprio modo de vida". Ele sentiu que era importante retratar as imensas pressões que as mulheres enfrentaram, tanto social quanto fisicamente, que deixaram danos duradouros e irreversíveis. O longa recebeu o Urso de Prata no festival de cinema de Berlim em Melhor Direção. É um filme sobre os que vão, mas principalmente sobre os que ficam. Atenção à fotografia assinada por Guo Daming. Ela evidencia de forma bem poética como o vilarejo, aos poucos, foi se tornando um pedaço do passado. Excelente.