28.3.26

“Frida” - Carla Gutierrez (EUA, 2024)

Sinopse:
Uma jornada crua e mágica pela vida da icônica artista mexicana Frida Kahlo, contada por meio de suas próprias palavras em diários, cartas e entrevistas, trazida à vida com uma animação lírica inspirada em sua inesquecível obra.
Comentário: Maria do Rosário Caetano do site Revista de Cinema publicou: "Mais um filme sobre Frida Kahlo? E o público não se cansa? Ainda há algo de novo a dizer sobre a pintora que foi companheira do muralista Diego Rivera e amante de Trotski?
Carla Gutiérrez, montadora e documentarista norte-americana, nascida e criada no Peru, acredita que sim. Há ainda muito a se mostrar (e dizer) sobre a pintora mexicana, que viveu à sombra de Rivera, mas foi, em tempos de reafirmação da mulher, redescoberta e transformada em ícone planetário. Por isso, Carla realizou 'Frida', um fascinante documentário de sintéticos 88 minutos, enriquecido pelo uso criativo do cinema de animação. (...)
A realizadora não está interessada em narrativa biográfica, nem em busca de fontes e documentos inéditos (...) mas sim em traçar um retrato íntimo da pintora mexicana, desenhado pela própria artista. E a partir de fonte subjetiva – os Diários (ilustrados) de Frida, que os escreveu até sua morte, em 1954, aos 47 anos. E também de cartas e entrevistas da artista.
Uma latino-americana, afinal Carla nasceu no Peru, busca, com sororidade, as emoções, sensações, desejos, sonhos e frustrações da pintora, que expôs suas entranhas na criação de seus quadros e na escrita de seus famosos diários. Não custa lembrar, Frida era muito espirituosa e irônica. Já no começo de sua narrativa existencial, ela lembra que a mãe era fanática religiosa, a ponto de encomendar missas na própria casa da família. O pai, fotógrafo de origem alemã, era ateu. Sob essas duas influências, ela, ainda pré-adolescente, se perguntava: 'será que a Virgem Maria é mesmo virgem?' Na adolescência, Frida passou a desfrutar de dinâmica convivência com o grupo Los Cachuchas, disposto a colocar o México arcaico de pernas pro ar.
Em sintonia com nosso tempo histórico, Carla dá ênfase, em seu documentário, aos sentimentos, à postura feminista de Frida e aos traumatizantes abortos espontâneos que ela sofreu (um deles nos EUA). A cineasta (...) dá destaque à bissexualidade da pintora. E o faz evocando voz masculina, a de Diego Rivera, com quem Frida se casou por duas vezes. Em carta a uma amiga, Rivera pergunta se ela sabia que Frida era homossexual. Não se sabe o que a interlocutora respondeu. Mas o documentário de Carla Gutiérrez faz coro a muitas outras narrativas (incluindo os filmes ficcionais 'Frida, Natureza Viva', de Paul Leduc, e 'Frida', de Julie Taymor). Como Frida amou Rivera com todas as suas forças (palavras dela: 'te quiero mas que mi propia pele') e viveu experiências amorosas com muitos parceiros do sexo masculino, a ênfase em sua vida erótica acaba tomando o rumo hegemônico da heterossexualidade.
Para tornar a questão ainda mais complexa, muitas vozes se somam na farta obra editorial sobre Frida Kahlo para garantir que Rivera, um garanhão desmedido, era, contraditoriamente, ciumento. Preferia que a esposa se relacionasse com mulheres, mantendo-se distante dos homens.
O escritor francês J.M.G. Le Clézio, autor do livro 'Diego e Frida' (Scritta, 1993), integra o time dos que não acreditam na homoafetividade de Frida. Na página 108 dessa obra apaixonada pelo casal mais famoso da pintura mexicana, ele escreve: 'Enquanto Diego vive sua vida sensual, devorando todos e todas que dele se aproximam e continua, incansavelmente, a cobrir as paredes com signos e símbolos de uma história que o arrebata, Frida sabe que, longe de seu sol, pode apenas esfriar e descer ao inferno do nada. Procura sobreviver, refugia-se com Anita Brenner, faz um mad cap flight em avião particular até Nova York, ensaia flertar com outros homens, permite que lhe atribuam uma lenda de experiência lésbica'.
Para Le Clézio, que ganharia o Prêmio Nobel de Literatura em 2008, até os amantes masculinos de Frida (Nickolas Murray, o soviético Trotski e o escultor nipo-americano Isamu Noguchi) foram 'usados para despertar ciúmes em Diego'.
O romancista, que é também professor universitário e estudioso da história cultural do México, país ao qual dedicou diversas obras, defende em 'Diego e Frida' que o amor dela, a frágil 'paloma', foi integralmente canalizado para o corpulento 'elefante' (ou 'sapo', como ela chamava Diego em momentos lúdicos). Frida enfrentou graves problemas de saúde desde que, num acidente, uma barra de ferro rasgou suas entranhas. Ela passou um ano hospitalizada. Sua vida foi uma soma de dores martirizantes. Dores que ela recriou na obra mais confessional e corporal da arte pictórica mexicana.
Diego e Frida se comprometeram a ter vidas livres. Eram comunistas militantes e acreditavam no 'homem novo'. Foram os anfitriões do líder do Exército Vermelho bolchevique, Leon Trotski, em seu exílio mexicano. Apesar de terem nascido numa sociedade patriarcal, ambos desejavam experimentar novas formas de vida. Foi o que fizeram. A prática do amor livre estava, portanto, dentro do projeto existencial dos dois, por mais machista que Diego fosse.
Para o documentário de Carla Guttiérrez (...), Frida teve, sim, experiências homoafetivas. Mas esse não é o ponto central do filme. O que se busca é a subjetividade e a originalíssima obra da artista.
A cineasta escalou voz feminina quente e apaixonada – a da atriz Fernanda Echevarría del Rivero – para expressar, em espanhol, trechos dos 'Diários' de Frida. E, vez ou outra, Carla introduz as vozes de Rivera (Jorge Richards), Alejandro Gómez Arias, o primeiro amor da adolescente Frida (Manuel Cruz Vivas), Lucienne Bloch (Lindsay Conklin), Jean van Heijenoort (Pablo Alarson), André Breton (Tyler Beerley), entre outros. Mas sem tirar o protagonismo absoluto de pintora.
O que encanta em 'Frida' (...) é a beleza das imagens. Já na abertura, o documentário nos seduz com intervenção sobre a obra mais famosa da artista – 'A Coluna Quebrada', de 1944. Recursos do cinema de animação fazem ruir a coluna grega que substitui a coluna vertebral de Frida Kahlo.
O mesmo procedimento – dar movimentos às obras da artista – se repetirá ao longo do filme. E muitas fotos em preto-e-branco terão elementos colorizados. Tais intervenções, fruto das mais avançadas técnicas do cinema contemporâneo, trazem a assinatura de Ernie Schaeffer".
O que disse a crítica 1: Alvaro Tallarico do site Vivente Andante gostou. Disse: "Carla Gutiérrez conseguiu criar um documentário valoroso, que não apenas apresenta uma nova perspectiva sobre a vida de Frida Kahlo, mas também oferece uma imersão poética e emocional no universo da artista. Nessa mistura surrealista de imagens deslumbrantes, animação inovadora e uma trilha sonora eficiente, 'Frida' se destaca como um dos retratos mais sensíveis e completos da pintora mexicana. É uma obra que, sem dúvida, vai além do tradicional e encanta por sua capacidade de trazer à tona as camadas mais profundas da vida de uma das maiores artistas do século XX".
O que disse a crítica 2: Wendy Ide do The Guardian avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Criativo, colorido e (...) narrado predominantemente pelas palavras da própria Frida Kahlo, registradas em seu diário ilustrado, este envolvente documentário sobre a artista mexicana é uma homenagem cativante e belíssima ao seu espírito e originalidade. A combinação habilidosa de imagens de arquivo e a animação encantadora e orgânica marca a estreia na direção de Carla Gutiérrez, que trabalhou como editora em diversos documentários sobre mulheres pioneiras, incluindo 'RBG', sobre Ruth Bader Ginsburg, e 'Julia', que explorou o legado da chef de televisão Julia Child".
O que eu achei: Quem nunca ouviu falar na pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954) não sabe o que está perdendo. Ela ficou conhecida pelos seus muitos retratos, especialmente autorretratos, e obras inspiradas na natureza e artefatos do México. Inspirada pela cultura popular do país, empregou um estilo de arte popular naif para explorar questões de identidade, pós-colonialismo, gênero, classe e raça na sociedade mexicana. Suas pinturas tinham frequentemente fortes elementos autobiográficos realistas misturados com fantasia. Para além de pertencer ao movimento Mexicayotl pós-revolucionário, que procurava definir uma identidade mexicana, Kahlo é descrita como uma surrealista ou realista mágica. Embora tenha sido incapacitada pela poliomielite quando criança, Kahlo foi uma estudante promissora, rumo à escola de medicina, até sofrer um acidente de ônibus aos dezoito anos, o que lhe causou problemas médicos para toda a vida. Essa experiência com a dor crônica influenciou basicamente todos os seus trabalhos. Eu já havia assistido uma versão de sua história no bom filme “Frida” (2002) com direção de Julie Taymor. Foi nesse filme que eu soube mais detalhes sobre sua adesão ao Partido Comunista Mexicano, seu relacionamento conturbado com o artista mexicano Diego Rivera, seu caso com Leon Trotski e em como se deu sua ascensão como artista. Neste “Frida” (2024) de Carla Gutierrez tudo isso será abordado novamente só que desta vez em tom de documentário através das cartas, entrevistas e principalmente dos diários ilustrados de Frida, que os escreveu até sua morte aos 47 anos. É como se a história fosse recontada pela sua própria boca, o que dá um sabor especial à história e às animações desenvolvidas a partir de suas pinturas. A abordagem é cronológica, começa na sua infância em Coyoacán, na Cidade do México; passa pela sua adolescência, o acidente e sua vida adulta, finalizando como um competente filme sobre sua vida. Vale ver.