
Comentário: Oliver Laxe (1982) é um ator, diretor e roteirista franco-espanhol, de origem galega. Ele foi o vencedor do Prêmio FIPRESCI no Festival de Cannes pelo seu filme "Todos Vós Sodes Capitáns" (2010). Ele também ganhou o Grande Prêmio da Semana Internacional da Crítica de Cannes pelo filme "Mimosas" (2016). Assisti dele o ótimo "O Que Arde" (2019). Desta vez vou conferir "Sirāt" (2025).
Renan Guerra do site Scream & Yell publicou: "Escolhido como representante da Espanha para a categoria Melhor Filme Internacional do Oscar 2026, 'Sirāt' (2025) chega com diferentes credenciais, incluindo a produção assinada por Agustín e Pedro Almodóvar através de sua El Deseo e o Prêmio do Júri no 78º Festival de Cannes, realizado em maio de 2025.
O filme foi exibido na sessão de abertura da 49ª Mostra de Cinema de São Paulo e, tal qual sua passagem por outros festivais de cinema, dividiu opiniões – é bem na linha dos extremos, meio ame ou odeie. E isso tem seus motivos: o filme de Oliver Laxe acompanha a saga de um pai e filho em busca de sua filha/irmã que desapareceu há cinco meses. Para isso, os dois se embrenham em uma rave realizada no meio do deserto no Marrocos. A partir daí eles embarcam numa jornada que, de forma simplificada, pode ser definida como uma descida ao inferno.
As-Sirāt seria, segundo o Islã, a ponte sobre a qual todos devem passar no Yawm al-Qiyamah, o Dia da Ressurreição, trajeto essencial para entrar no Jannah, o Paraíso. A tradição diz que a ponte As-Sirāt é mais fina que um fio de cabelo e tão afiada quanto a mais afiada faca ou espada – informação que é apresentada logo na abertura do filme de Oliver Laxe. Segundo a tradição, abaixo deste caminho estão as chamas do Inferno, que queimam os pecadores para fazê-los cair.
Esse referencial simbólico demarca muito do que veremos em 'Sirāt': Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona) viajam pelo Marrocos acompanhados de sua cachorrinha Pipa. Na busca pela filha/irmã desaparecida, eles cruzam um grupo de desgarrados - Stef, Jade, Tonin, Bigui e Josh - que partem de uma rave a outra por dentro do deserto, estes acompanhados de sua cachorrinha Lupita. Nessa jornada, uma série de reviravoltas e plot twits irá modificar para sempre a vida desse grupo e, dito isso, recomendamos que você fuja dos spoilers e evite se aprofundar nos detalhes do enredo do filme, isso é importante para a imersão dentro da história. Por isso, o texto que segue foca nos aspectos técnicos e na construção narrativa tentando ao máximo evitar spoilers centrais.
A narrativa de road movie de horror do filme trafega em um universo que dialoga tanto com o empoeirado mundo de 'Mad Max' quanto com o realismo de tramas mais densas do cinema de arte contemporâneo. Enquanto os personagens principais trafegam pelo deserto marroquino, pequenos lampejos informativos deixam ver que o mundo que os cerca parece ruir: rádios falam sobre um amplo conflito armado, tanto que um dos personagens até menciona uma possível terceira guerra mundial. De todo modo, o filme de Laxe se preocupa apenas com esse microcosmo gerado por esse novo grupo familiar que se formou. Luis, seu filho e os desgarrados da rave.
Nisso, o grande destaque fica por conta de Sergi López, importante nome do cinema europeu (...), que aqui consegue construir de forma clara as dores desse pai que enfrenta um universo desconhecido em busca de reunir novamente seu pequeno núcleo familiar. Dito isso, o mais interessante do filme talvez sejam realmente esses arranjos familiares: se o protagonista Luis busca reunir novamente sua família consanguínea, durante o filme vemos o desenrolar de uma relação quase familiar entre todos aqueles personagens, sejam os dois novos chegados ou o grupo de nômades que construiu ali, em suas andanças, uma relação de cuidado e zelo muito particular – um microcosmo de corpos díspares e únicos que se encontram em suas particularidades. (...)
Dito tudo isso, é importante frisar que 'Sirāt' se assemelha a uma escola de cinema que busca chocar o espectador, bagunçar os sentidos de quem o assiste, numa linhagem que remete a nomes como Gaspar Noé, por exemplo. Se nos filmes de Noé, a música eletrônica pesada vem acompanhada de cores fortes, no universo de Laxe a música eletrônica vem recheada de poeira; de todo modo, os diretores se assemelham na violência e no derradeiro horror da vida – e talvez no olhar niilista em comum.
'Sirāt' se constrói nessa impossibilidade: por mais que se auxiliem e se irmanem, esse grupo de pessoas está fadado a enfrentar uma jornada de penalidades. Laxe se conecta às crenças islâmicas, mas por um olhar cristão ocidental, podemos até pensar no Livro de Jó e todo o seu calvário que testa repetidas vezes a fé humana. Ainda assim, por mais que parta de símbolos religiosos, algo entre o céu e o inferno, o filme de Laxe não está muito interessado na purificação e na salvação, ele está muito mais interessado na jornada desses personagens. E é essa jornada que pode ser incômoda para uma parcela do público.
O que esse filme busca contar? O que essa jornada de penitências de 'Sirãt' tem a nos dizer? Isso Oliver Laxe não responde de forma clara. Essa não-resposta pode ser vista como uma falha por muitos, mas é uma das riquezas do filme. Ao subir os créditos resta ao espectador a maquinação e a ruminação em torno de tudo aquilo que foi visto. Esse tour de force ao som de muito techno e com muita poeira é uma jornada que nos lembra que o cinema não é apenas sobre afagos, mas também é sobre provações e desconfortos".
Além do longa já ter recebido o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, ele está indicado em duas categorias no Oscar: Filme Internacional e Som (Laia Casanovas).
O que disse a crítica 1: Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone não gostou. Disse: "'Sirāt' é uma travessia rumo ao nada - um exercício de estilo que, ao tentar representar a dor, acaba apenas oferecendo sadismo. O deserto, que parece ser uma espécie de metáfora de purgação ou renascimento, torna-se espelho do próprio filme a partir das escolhas do diretor: vazio. Laxe filma o sofrimento com devoção, mas sem propósito. Ao espectador resta decidir se abandona a viagem - e há quem realmente o faça - ou se se deixa açoitar por essa provação emocional e masoquista".
O que disse a crítica 2: Luiz Zanin do Estadão gostou. Escreveu: "Acho que, como suspense, 'Sirât' é irretocável, de tão bem feito. Restam questões marginais, mas nem por isso menos importantes. (...) Quem são esses personagens que se unem a Luis e seu filho menor? De onde vêm, já que falam diversos idiomas? E essas mutilações que apresentam, como aconteceram, em alguma guerra na qual se engajaram ou em razão desse modo de vida nômade, vida louca, em suma, e sujeita a tudo? Mesmo o desfecho, que para alguns reserva uma sombra de esperança, para mim é desolador, retrato fiel de um mundo insensato, à beira de um colapso climático, com guerras e refugiados aqui e ali, dirigentes delirantes se armando mais e mais, como se preparando para o apocalipse. Na minha visão, 'Sirât' é nada mais nada menos que a justa metáfora para o fim de mundo que se anuncia. Uma reflexão sobre o abismo".
O que eu achei: Não é a primeira vez que vejo um filme do Oliver Laxe. Assisti dele anteriormente o ótimo "O Que Arde" (2019) que, de fato, é um filme excelente. Então mesmo com a fala polêmica do diretor dizendo que há muitos brasileiros na Academia (há apenas uns 70 dentre os mais de 9 mil votantes) e que eles são ultranacionalistas do tipo que se "inscrevessem um sapato no Oscar, todos votariam nele", fiz de conta que não ouvi isso e assisti ao longa – nosso concorrente ao Oscar de Melhor Filme Internacional – com boa vontade. Assim que o filme começa um letreiro explica o título do filme dizendo que Sirāt, na tradição islâmica, é a ponte que liga ao paraíso, tendo o inferno por baixo. Essa ponte é tão estreita quanto um fio de cabelo e tão afiada quanto a lâmina de uma espada. A trama narra a angustiante busca de um pai – interpretado magistralmente pelo ator Sergi López - e seu filho por Mar, filha e irmã que desapareceu meses antes em uma festa rave no sul do Marrocos, extremo noroeste do continente africano. Com a ajuda de um grupo de frequentadores dessas raves, eles vão atravessar paisagens áridas, num calvário misturado com a cena de música eletrônica trance, enquanto tentam encontrá-la. A narrativa assume um tom visceral, explorando o sofrimento humano em situações limite, numa espécie de road movie no inferno. Eu particularmente gostei da experiência. O som – tanto a trilha sonora como o design sonoro – são particularmente envolventes. As imagens também não deixam a desejar. Não mostra um deserto de cartão postal, mas há uma beleza melancólica naquele vazio que retrata metaforicamente os tempos atuais nada promissores, com o fantasma da terceira guerra mundial pairando no ar. Não é um filme que todo mundo vai gostar. É um filme desconfortável. Também não creio que levaria um Oscar de Melhor Filme, mas é uma experiência e tanto. Recomendo ver no cinema em sala com tela grande e som elevado por conta da imersão, mas talvez valha a pena fazer um teste cardíaco antes, caso contrário, o teste vai ser o próprio filme.
Renan Guerra do site Scream & Yell publicou: "Escolhido como representante da Espanha para a categoria Melhor Filme Internacional do Oscar 2026, 'Sirāt' (2025) chega com diferentes credenciais, incluindo a produção assinada por Agustín e Pedro Almodóvar através de sua El Deseo e o Prêmio do Júri no 78º Festival de Cannes, realizado em maio de 2025.
O filme foi exibido na sessão de abertura da 49ª Mostra de Cinema de São Paulo e, tal qual sua passagem por outros festivais de cinema, dividiu opiniões – é bem na linha dos extremos, meio ame ou odeie. E isso tem seus motivos: o filme de Oliver Laxe acompanha a saga de um pai e filho em busca de sua filha/irmã que desapareceu há cinco meses. Para isso, os dois se embrenham em uma rave realizada no meio do deserto no Marrocos. A partir daí eles embarcam numa jornada que, de forma simplificada, pode ser definida como uma descida ao inferno.
As-Sirāt seria, segundo o Islã, a ponte sobre a qual todos devem passar no Yawm al-Qiyamah, o Dia da Ressurreição, trajeto essencial para entrar no Jannah, o Paraíso. A tradição diz que a ponte As-Sirāt é mais fina que um fio de cabelo e tão afiada quanto a mais afiada faca ou espada – informação que é apresentada logo na abertura do filme de Oliver Laxe. Segundo a tradição, abaixo deste caminho estão as chamas do Inferno, que queimam os pecadores para fazê-los cair.
Esse referencial simbólico demarca muito do que veremos em 'Sirāt': Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona) viajam pelo Marrocos acompanhados de sua cachorrinha Pipa. Na busca pela filha/irmã desaparecida, eles cruzam um grupo de desgarrados - Stef, Jade, Tonin, Bigui e Josh - que partem de uma rave a outra por dentro do deserto, estes acompanhados de sua cachorrinha Lupita. Nessa jornada, uma série de reviravoltas e plot twits irá modificar para sempre a vida desse grupo e, dito isso, recomendamos que você fuja dos spoilers e evite se aprofundar nos detalhes do enredo do filme, isso é importante para a imersão dentro da história. Por isso, o texto que segue foca nos aspectos técnicos e na construção narrativa tentando ao máximo evitar spoilers centrais.
A narrativa de road movie de horror do filme trafega em um universo que dialoga tanto com o empoeirado mundo de 'Mad Max' quanto com o realismo de tramas mais densas do cinema de arte contemporâneo. Enquanto os personagens principais trafegam pelo deserto marroquino, pequenos lampejos informativos deixam ver que o mundo que os cerca parece ruir: rádios falam sobre um amplo conflito armado, tanto que um dos personagens até menciona uma possível terceira guerra mundial. De todo modo, o filme de Laxe se preocupa apenas com esse microcosmo gerado por esse novo grupo familiar que se formou. Luis, seu filho e os desgarrados da rave.
Nisso, o grande destaque fica por conta de Sergi López, importante nome do cinema europeu (...), que aqui consegue construir de forma clara as dores desse pai que enfrenta um universo desconhecido em busca de reunir novamente seu pequeno núcleo familiar. Dito isso, o mais interessante do filme talvez sejam realmente esses arranjos familiares: se o protagonista Luis busca reunir novamente sua família consanguínea, durante o filme vemos o desenrolar de uma relação quase familiar entre todos aqueles personagens, sejam os dois novos chegados ou o grupo de nômades que construiu ali, em suas andanças, uma relação de cuidado e zelo muito particular – um microcosmo de corpos díspares e únicos que se encontram em suas particularidades. (...)
Dito tudo isso, é importante frisar que 'Sirāt' se assemelha a uma escola de cinema que busca chocar o espectador, bagunçar os sentidos de quem o assiste, numa linhagem que remete a nomes como Gaspar Noé, por exemplo. Se nos filmes de Noé, a música eletrônica pesada vem acompanhada de cores fortes, no universo de Laxe a música eletrônica vem recheada de poeira; de todo modo, os diretores se assemelham na violência e no derradeiro horror da vida – e talvez no olhar niilista em comum.
'Sirāt' se constrói nessa impossibilidade: por mais que se auxiliem e se irmanem, esse grupo de pessoas está fadado a enfrentar uma jornada de penalidades. Laxe se conecta às crenças islâmicas, mas por um olhar cristão ocidental, podemos até pensar no Livro de Jó e todo o seu calvário que testa repetidas vezes a fé humana. Ainda assim, por mais que parta de símbolos religiosos, algo entre o céu e o inferno, o filme de Laxe não está muito interessado na purificação e na salvação, ele está muito mais interessado na jornada desses personagens. E é essa jornada que pode ser incômoda para uma parcela do público.
O que esse filme busca contar? O que essa jornada de penitências de 'Sirãt' tem a nos dizer? Isso Oliver Laxe não responde de forma clara. Essa não-resposta pode ser vista como uma falha por muitos, mas é uma das riquezas do filme. Ao subir os créditos resta ao espectador a maquinação e a ruminação em torno de tudo aquilo que foi visto. Esse tour de force ao som de muito techno e com muita poeira é uma jornada que nos lembra que o cinema não é apenas sobre afagos, mas também é sobre provações e desconfortos".
Além do longa já ter recebido o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, ele está indicado em duas categorias no Oscar: Filme Internacional e Som (Laia Casanovas).
O que disse a crítica 1: Angelo Cordeiro da Revista Rolling Stone não gostou. Disse: "'Sirāt' é uma travessia rumo ao nada - um exercício de estilo que, ao tentar representar a dor, acaba apenas oferecendo sadismo. O deserto, que parece ser uma espécie de metáfora de purgação ou renascimento, torna-se espelho do próprio filme a partir das escolhas do diretor: vazio. Laxe filma o sofrimento com devoção, mas sem propósito. Ao espectador resta decidir se abandona a viagem - e há quem realmente o faça - ou se se deixa açoitar por essa provação emocional e masoquista".
O que disse a crítica 2: Luiz Zanin do Estadão gostou. Escreveu: "Acho que, como suspense, 'Sirât' é irretocável, de tão bem feito. Restam questões marginais, mas nem por isso menos importantes. (...) Quem são esses personagens que se unem a Luis e seu filho menor? De onde vêm, já que falam diversos idiomas? E essas mutilações que apresentam, como aconteceram, em alguma guerra na qual se engajaram ou em razão desse modo de vida nômade, vida louca, em suma, e sujeita a tudo? Mesmo o desfecho, que para alguns reserva uma sombra de esperança, para mim é desolador, retrato fiel de um mundo insensato, à beira de um colapso climático, com guerras e refugiados aqui e ali, dirigentes delirantes se armando mais e mais, como se preparando para o apocalipse. Na minha visão, 'Sirât' é nada mais nada menos que a justa metáfora para o fim de mundo que se anuncia. Uma reflexão sobre o abismo".
O que eu achei: Não é a primeira vez que vejo um filme do Oliver Laxe. Assisti dele anteriormente o ótimo "O Que Arde" (2019) que, de fato, é um filme excelente. Então mesmo com a fala polêmica do diretor dizendo que há muitos brasileiros na Academia (há apenas uns 70 dentre os mais de 9 mil votantes) e que eles são ultranacionalistas do tipo que se "inscrevessem um sapato no Oscar, todos votariam nele", fiz de conta que não ouvi isso e assisti ao longa – nosso concorrente ao Oscar de Melhor Filme Internacional – com boa vontade. Assim que o filme começa um letreiro explica o título do filme dizendo que Sirāt, na tradição islâmica, é a ponte que liga ao paraíso, tendo o inferno por baixo. Essa ponte é tão estreita quanto um fio de cabelo e tão afiada quanto a lâmina de uma espada. A trama narra a angustiante busca de um pai – interpretado magistralmente pelo ator Sergi López - e seu filho por Mar, filha e irmã que desapareceu meses antes em uma festa rave no sul do Marrocos, extremo noroeste do continente africano. Com a ajuda de um grupo de frequentadores dessas raves, eles vão atravessar paisagens áridas, num calvário misturado com a cena de música eletrônica trance, enquanto tentam encontrá-la. A narrativa assume um tom visceral, explorando o sofrimento humano em situações limite, numa espécie de road movie no inferno. Eu particularmente gostei da experiência. O som – tanto a trilha sonora como o design sonoro – são particularmente envolventes. As imagens também não deixam a desejar. Não mostra um deserto de cartão postal, mas há uma beleza melancólica naquele vazio que retrata metaforicamente os tempos atuais nada promissores, com o fantasma da terceira guerra mundial pairando no ar. Não é um filme que todo mundo vai gostar. É um filme desconfortável. Também não creio que levaria um Oscar de Melhor Filme, mas é uma experiência e tanto. Recomendo ver no cinema em sala com tela grande e som elevado por conta da imersão, mas talvez valha a pena fazer um teste cardíaco antes, caso contrário, o teste vai ser o próprio filme.