5.10.25

"Pecadores" - Ryan Coogler (EUA/Austrália/Canadá, 2025)

Sinopse:
Dispostos a deixar suas vidas conturbadas para trás, os irmãos gêmeos Fumaça (Michael B. Jordan) e Fuligem (Michael B. Jordan) retornam à sua cidade natal para recomeçar suas vidas do zero, quando descobrem que um mal ainda maior está à espera deles.
Comentário: Ryan Kyle Coogler (1986) é um diretor de cinema e roteirista norte-americano. Assisti dele o bom “Pantera Negra” (2018). Desta vez vou conferir "Pecadores" (2025).
Célio Silva do site G1 nos conta que "A trama é ambientada em 1932 e focada nos irmãos gêmeos conhecidos como Fumaça e Fuligem (ambos interpretados por Michael B. Jordan). Após uma temporada longe de casa, os dois voltam para sua cidade natal, Clarksville, no estado da Louisiana (...). O plano deles é deixar o passado para trás e começar um novo negócio, com uma casa de blues. Com a ajuda de seu primo Sammie (Miles Caton) e de alguns amigos, os irmãos buscam trazer diversão para os habitantes do local e, no processo, lucrar com a venda de bebidas. Só que, na noite da inauguração do clube, Fumaça e Fuligem recebem a inesperada visita do misterioso Remmick (Jack O'Connell), que tem intenções sombrias sobre a casa e todos que estão nela. Uma série de acontecimentos sinistros faz com que o laço que une os irmãos seja testado, ao mesmo tempo em que começa uma sangrenta batalha pela vida contra forças além da compreensão humana".
Alexandre Almeida do site Omelete publicou uma matéria interessantíssima contando a história que influenciou o filme. Ele disse que "em uma coletiva de imprensa que o Omelete participou em janeiro, o diretor de 'Pecadores' afirmou que o filme é 'sobre a música americana mais do que qualquer outra coisa'; e contou que ele e o Göransson fizeram o 'Caminho do Blues', no Mississipi, além de visitar a cidade natal de B.B. King. O início do filme, com cânticos gospel em uma igreja e músicos de rua na cidade onde [os personagens] Fuligem e Fumaça retornam para abrir seu juke joint, são a comprovação dessa jornada.
Os juke joint eram bares e espaços no limite das cidades, onde as pessoas negras podiam ir se divertir, dançar, apostar e beber clandestinamente durante a Lei Seca, que durou de 1920 até 1933. Eram espaços vistos como locais do pecado e do demônio pela sociedade religiosa cristã do estado, principalmente pelas mulheres que frequentavam as igrejas e viam os maridos indo curtir nesses ambientes. Quem tocava nesses bares? Os artistas de rua. Artistas esses que viajavam pelas cidades e tocavam nas ruas para tentar chamar a atenção dos donos dos juke joints, esperando um convite com mais dinheiro do que os centavos que ganhavam nas calçadas. Delta Slim, o músico de Delroy Lindo no filme é a encarnação dessas pessoas. Charley Patton, 'pai' do Delta Blues, um subgênero da região do Mississipi, é visto como herói por Sammy (Miles Canton).
Outro elemento que ocupa grande parte da história são os campos de algodão, e é de lá que parte uma 'disputa' de onde o blues surgiu. Os religiosos dizem que ele nasceu na igreja, no gospel, mas outros apontam que foi na lavoura que o estilo musical tomou forma com os violões e a gaita. De lá, os artistas partiam para tentar a vida nas cidades, assim como acontece com Sammy.
Nesse contexto há também uma das grandes histórias do blues: Robert Johnson, músico que era visto como um guitarrista/violeiro comum, para um ano depois voltar como um dos maiores de todos. A lenda diz que Johnson fez um acordo com o próprio diabo para conseguir todo o seu talento e a partir dali se tornou um dos maiores nomes do blues, mesmo tendo poucas músicas e vivendo apenas alguns anos depois do sucesso. Sammy segue estes mesmos passos.
Essa lenda, inclusive, pode ser explicada através do hoodoo, uma tradição espiritual do folclore afro-americano baseada em magia e personificada no filme por Annie (Wunmi Mosaku). No hoodoo existem histórias sobre encruzilhadas, criaturas que oferecem conhecimentos e rituais que dariam mais controle aos agraciados. Em um ambiente como o Mississipi, cheio de violência e onde afro-americanos poderiam ser linchados e mortos a qualquer momento por supremacistas ou apoiadores da Ku-Klux-Klan, o hoodoo era uma ideia de poder e conforto para aqueles que o seguiam. (...)
Quando Sammy se apresenta pela primeira vez no juke dos irmãos Fuligem e Fumaça, a música carrega os presentes em uma viagem que transcende o espaço e o tempo, juntando 'passado, presente e futuro' em um só momento. Usando um plano-sequência, Coogler passeia no meio de diversas figuras que comandam aquele transe da música, apresentando um guitarrista no melhor estilo de Prince ou Lenny Kravitz, junto com um DJ, figuras com vestimentas tradicionais de religiões de matizes africanas, tribais, chinesa - acompanhando o casal imigrante do país na história -, funk, soul, hip hop, Go-Go, tudo em um só lugar e em um só momento. Isso, claro, chama a atenção dos vampiros da história. Esse poder de união logo se torna alvo de Remmick (Jack O’Connell) e sua gangue, em uma referência sobre o apagamento histórico da cultura afro-americana.
Essas críticas até hoje se estendem, por exemplo, ao título de 'Rei do Rock' para Elvis, sendo que ele seguiu influências da igreja e de outros artistas da comunidade afro-americana do Mississipi e do rock.
A história dos EUA mostra que sempre existiu um movimento para esquecer os grandes expoentes da cultura negra no país, liderado por autoridades como o FBI na figura de seu diretor por 38 anos, J. Edgar Hoover. De líderes como Martin Luther King, Malcolm X e Medgar Evers e vozes como Sam Cooke, todos assassinados, até outros artistas que foram 'substituídos' por algum outro branco, esse processo foi amplamente financiado por setores do governo, que até hoje são acusados de continuá-lo.
Isso nos leva direto ao final do filme. Após a luta contra essas criaturas e uma possível salvação de Sammy pelo pai na igreja, a cena pós-créditos de 'Pecadores' nos coloca 60 anos depois, já na década de 1990, com o músico agora tocando em seu próprio bar de blues, em Chicago. Quem vive Sammy nessa parte da história - e uma das maiores surpresas do filme - é ninguém mais, ninguém menos que Buddy Guy, um dos maiores nomes da história do blues. Assim como Sammy, Robert Johnson e tantos outros, a história deles e do guitarrista continuam criando interseções. Buddy Guy também saiu de um campo de algodão e foi para Chicago na década de 1950. A plantação não dava mais certo para Buddy e ele queria viver da própria música. Lá, ele conheceu outro astro do blues, Muddy Waters, que o viu tocar em um bar e logo deu uma oportunidade para ele.
Ao colocar o próprio Buddy Guy como Sammy e suas cicatrizes no rosto após a luta contra os vampiros, Ryan Coogler estabelece uma conexão direta com a nossa realidade. Fuligem vampiro, visita o, agora famoso, Sammy para contar que ele foi protegido por um acordo entre os irmãos. Por meio da música, cultura e histórias populares, Coogler transcende o cinema tradicional de Hollywood para mostrar um senso de comunidade e respeito, em uma história repleta de astros, mas que nunca esquece da própria origem ou da resiliência da arte".
O que disse a crítica 1: Lucas Oliveira do site Cinematório avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "Coogler parece preso demais a clichês ultrapassados do gênero, construindo homens misóginos e mulheres lascivas que soam anacrônicos às outras discussões tão contemporâneas que o filme levanta. Quando se liberta dos estereótipos do blaxploitation [contração das palavras black (negro) e exploitation (exploração), designa um filão de filmes destinados às plateias negras urbanas, no início dos anos 1970], então, o cineasta consegue conceber momentos muito mais multifacetados e criativos".
O que disse a crítica 2: André Zuliani do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Pecadores' poderia ser descrito como dois filmes diferentes dentro de um único produto - e Coogler peca por isso, já que todo o arco dos vampiros parece deslocado, quase uma sombra do ótimo filme ambicioso sobre blues, racismo e misticismo que acompanhamos no início. Mas o diretor sabiamente reconecta os pontos no final, nos lembrando que 'Pecadores', acima de tudo, nos mostra como a música pode servir como um canal vivo para toda a dor e o prazer que unem um povo ao longo dos séculos. Em momentos como esse, o diretor afirma que os filmes, assim como as canções, ainda são capazes de crescer e nos atingir com o mesmo poder".
O que eu achei: Ambientado em Clarksville, no estado da Louisiana dos anos 1930, "Pecadores" (2025) é um mergulho poético e vigoroso na alma da música negra norte-americana. Ryan Coogler cria uma fábula poderosa que combina realismo histórico e imaginação sobrenatural, unindo o peso da segregação racial ao mito dos vampiros, numa metáfora contundente dos brancos que primeiro se apoderaram da força física dos negros e, depois, da sua cultura. Essa junção entre o mundo real e o fantástico é conduzida com precisão, revelando um diretor que sabe o que está fazendo. O filme é sobre o blues, mas não só sobre ele. Coogler transmite sua mensagem sem ser panfletário. Cada cena carrega emoção e peso simbólico, mas também uma musicalidade interna que faz o filme vibrar como uma canção de dor e redenção. A fotografia quente e granulada evoca o sul profundo dos Estados Unidos, enquanto o elenco oferece performances intensas. A trilha sonora de Ludwig Göransson é ótima, ainda que se possa lamentar que não tenha sido composta por um músico negro, algo que talvez reforçasse o sentido de pertencimento e herança cultural que o filme celebra. Ainda assim, há momentos de pura genialidade, como a cena em que passado, presente e futuro da música negra se encontram em um transe visual e sonoro de rara beleza. "Pecadores" é, assim, uma obra de grande força simbólica e estética, uma das mais inspiradas sínteses entre história, mito e música já vistas no cinema contemporâneo. Um forte candidato ao Oscar. Atenção à cena final que mostra o personagem Sammy já adulto, ele é interpretado pelo importante guitarrista e cantor norte-americano de blues e rock George "Buddy" Guy nascido em 1936 na Louisiana, conhecido por servir de inspiração para Jimi Hendrix e outras lendas dos anos 1960. Super recomendo.